O Confinador

 

LUCRO GARANTIDO

Estratégias de comercialização para gestão de risco

Giovana Biasi

Hoje, falar sobre Proteção de Preços – ou hedge, que significa fazer uma proteção a possíveis oscilações de preços de modo que assegure o lucro –, com um produtor de grãos é assunto comum e inerente à atividade. Estima-se que 80% da produção de milho e soja utilizem hedge através do Mercado Futuro ou Balcão, as duas principais modalidades de proteção. Isso porque o agricultor não pode correr o risco de ver seu lucro esvair-se em meio a tantas incertezas que podem ocorrer durante a safra, tais como clima, armazenagem, exportação e que, nos piores casos, pode até culminar na sua saída da atividade.

Essa grande necessidade dos agricultores de protegerem-se das perdas fez da CBOT (Chicago Board of Trade), nos Estados Unidos, a maior Bolsa de grãos do mundo, onde é negociado anualmente o equivalente a 15 vezes a safra mundial. Esse alto volume deve- -se muito às oportunidades de especulação que acabam surgindo em meio às operações de proteção de preços.

No Brasil, temos a BM&F Bovespa (Bolsa de Mercadorias e Futuros), onde são negociadas as commodities agrícolas: açúcar, boi gordo, café arábica, etanol, milho e soja. Ou seja, semelhante ao que é feito para os grãos, é possível também fazer hedge para boi gordo e garantir os ganhos financeiros de quem engorda os animais até o abate. Porém, essa prática ainda é pouco utilizada por aqui.

Dentre os principais motivos está a pouca familiaridade com os derivativos agrícolas na Bolsa, os riscos financeiros e os custos envolvidos nesse tipo de operação, que intimidam quem não tem experiência no assunto. No entanto, o acesso à BM&F é simples e deve ser feito através de Corretoras de Valores devidamente inscritas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), onde um profissional habilitado vai instruir claramente como fazer o hedge de acordo com o perfil do pecuarista.

Além disso, nas corretoras existem profissionais especializados em analisar e acompanhar o mercado, avaliando os principais acontecimentos e traduzindo-os para os clientes, assim não é necessário ser economista para fazer a proteção de preços para o seu rebanho.

Como funciona

Por exemplo, para um pecuarista que decide confinar e planeja a venda dos seus animais em outubro, o seu principal risco é que os preços nessa data caiam abaixo do custo de produção, então, o responsável pela comercialização dos bois deve acompanhar os preços que estão sendo negociados para outubro na BM&F e, quando estes chegarem a um nível que lhe garanta um bom resultado, ele faz a trava, assegurando esse lucro.

Um detalhe importante é que os animais não serão entregues para a Bolsa, lá é negociado apenas o montante financeiro equivalente à transação, ou seja, no dia do abate é necessário procurar um frigorífico para vender os animais ao preço do dia. A diferença entre o preço do dia (físico) e o preço da trava (BM&F) é o resultado financeiro da operação em Bolsa.

Outras variáveis devem ser consideradas na hora de fazer o hedge, que podem dificultar a vida do produtor que planeja fazê-lo: primeiro, a não previsibilidade de saída dos animais de pasto, principal forma de engorda utilizada, e, segundo, o diferencial de base entre São Paulo (base) e os demais Estados, uma vez que os preços da Bolsa referem-se àquele Estado.

1. Como a pecuária no Brasil é essencialmente extensiva, aproximadamente 90% do que é abatido todos os anos é proveniente da engorda a pasto, e a terminação desses animais é dependente direta das condições climáticas. Dessa forma, o período de chuvas é quando há a maior disponibilidade de pasto e justamente o período de safra e preços baixos, ironicamente fazendo com que nessa época menos se usem as ferramentas de Proteção de Preço.

A maior parcela de pecuaristas que utilizam a Gestão de Risco é de invernistas, em parte pelo maior risco devido ao custo elevado da operação, mas também pela maior previsibilidade de entrega dos animais quando terminados. A atividade de confinamento permite calcular o ganho de peso diário e, assim, estimar quando o boi estará no ponto certo para ser vendido, bem como calcular todos os custos no período, dessa forma, o confinador, tendo todos esses dados, tornou-se o principal usuário da proteção de preços, ferramenta que vem se tornando indispensável devido à alta volatilidade dos preços dos insumos e matéria-prima atualmente.

Gráfico 1 – Diferença entre as cotações de Goiás e São Paulo, em 2013

2. O segundo ponto de atenção é o diferencial de base, pois as cotações na BM&F são apenas para bois gordos de São Paulo, Estado onde ocorre a formação de preço dessa commodity. Essa diferença varia consideravelmente ao longo do ano, respeitando a sazonalidade de produção de cada Estado, como podemos notar no Gráfico 1, que mostra como se comportou o diferencial entre São Paulo e Goiás no ano de 2013. Depois de feito o hedge para animais de fora, se o preço neste Estado se aproximar ao de São Paulo, dizemos que a base fortaleceu-se, o que é positivo para o pecuarista de fora, entretanto, quando os preços de fora da base ficam mais distantes, pode-se afirmar que houve perda na eficiência e o pecuarista irá receber menos do que o previsto, tornando o hedge imperfeito.

Boi a termo

Atualmente, a única maneira de reduzir ou zerar o risco de base é através do contrato a termo diretamente com a indústria frigorífica, que assume esse risco em troca do contrato de fornecimento. Essa negociação é conhecida como “boi a termo” e tem características bem específicas variando de uma empresa para outra, mas usualmente garante o preço e a escala de abate dos animais ao pecuarista, mas não envolve nenhum tipo de custo ou necessidade de margem de garantia (exigência da BM&F).

Esse serviço é prestado, na maioria dos casos, por frigoríficos de grande porte que buscam fidelizar seus clientes prestando auxílio na gestão de risco do seu negócio. O funcionamento é basicamente da mesma maneira que a trava feita diretamente na BM&F, porém, com a entrega física dos bois e sem movimentação financeira até o dia do abate.

O pecuarista que optar pelo boi a termo pode fixar o preço que deseja receber pelos animais no dia do abate em uma data futura (exemplo: em maio ele trava o preço de venda de novembro), já que para a negociação ser considerada como a termo e não balcão (convencional), tem de ser para uma data geralmente superior a um mês.

Quando a negociação é fechada, o dono dos animais compromete-se com a entrega e o frigorífico compromete- -se a pagar o preço combinado, acordo celebrado com um contrato entre as partes. Pronto, o pecuarista pode ficar tranquilo que seu lucro está garantido. Vale lembrar que os frigoríficos tomam como referência preços da Bolsa onde provavelmente zerarão seu risco, então os preços futuros ofertados por eles seguem a mesma tendência.

Outras ferramentas

Existem outras alternativas além dos contratos futuros na BM&F e do mercado a termo, como as “Opções”, um produto financeiro também negociado em bolsa, que garante ao comprador da Opção o direito, e não o dever, de comprar ou vender boi gordo a um preço pré-estabelecido em uma certa data. Simplificando, o pecuarista que quer se proteger de uma baixa nos preços compra uma Opção de venda no preço que deseja receber pelos seus bois e paga um preço (custo) por isso. Na data de abate (data de exercício da Opção), se o preço do boi gordo estiver acima do preço da Opção, o pecuarista apenas terá gasto o custo e não exerce seu direito, vai até um frigorífico e vende seus bois no preço do dia, superior à trava. Mas caso o preço do boi gordo esteja abaixo do preço da Opção, o pecuarista exerce sua opção de vender os bois no preço da trava e, da mesma forma, paga o custo.

Mesas de frigoríficos mais especializadas também oferecem esse produto, além de uma infinidade de derivações dele, basta entrar em contato com uma e explicar o seu caso que certamente vai haver um produto que melhor se adapta a cada perfil.

Expectativas

A gestão de risco é uma ferramenta e deve ser utilizada todos os anos, uma vez que permite reduzir a exposição do preço do pecuarista, porém, não é garantia de que a trava será feita em um preço maior do que o praticado no mercado físico na data de abate, como mostrado no Gráfico 2, uma comparação de preço que mostra a cotação do boi para outubro no mercado futuro, olhado em junho de cada ano, versus o preço realizado no físico, mostrando que, tanto em 2011 como em 2012, teria sido um ótimo negócio fazer o hedge, pois além de assegurar seu lucro, no momento do abate em outubro, os preços ficaram abaixo da expectativa do mercado. Fato que não aconteceu em 2013, quando os preços da Bolsa mostravam expectativa abaixo do que realmente aconteceria quatro meses à frente. Mesmo nesse caso, o pecuarista que travou teve sua margem de lucro garantida.

Gráfico 2 – Comparação entre o preço travado e o preço físico de 2011 a 2013

Preço de base entre o preço do boi gordo em relação a outras praças deve ser considerado na negociação em bolsa

Um aprendizado que deve ser tirado é que fique claro que o pecuarista que deseja fazer o hedge precisa ter como objetivo a proteção e não a especulação, dois propósitos que podem se confundir durante a operação e causar desconforto em alguns casos. Não se pode ter a falsa impressão de que depois da trava feita o mercado não deva subir mais, isso pode e possivelmente vai acontecer, pois o mercado é volátil e muda a todo instante. Pontos importantes para ajudar na tomada de decisão:

• Indicador ESALQ/BM&FBovespa do Boi – divulgado diariamente pelo CEPEA, que consiste na média ponderada do boi gordo no Estado de São Paulo • Boi casado – Cotação do preço da carne com osso vendida no atacado, também divulgado pelo CEPEA • Exportação – dados liberados semanalmente pelo MDIC • Clima • Câmbio

Segundo Giovana Biasi, existe ainda o mercado de Opções, no qual o pecuarista pode se recusar a vender ao frigorífico com o qual negociava inicialmente


Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015 disponibiliza linha de crédito para confinamento

Da redação

O cenário para o confinamento nos próximos anos está ainda mais promissor, tendo em vista que, no mês de maio, foi anunciado pelo Governo federal o Plano Agrícola e Pecuário 2014/2015 com uma novidade que impacta diretamente a pecuária brasileira. A linha de crédito oferecida para compra de animais mudou de categoria, deixando de ser investimento para se tornar custeio e, dessa forma, o limite que era de R$ 300 mil passa a R$ 1,1 milhão de crédito. Para Bruno Andrade, gerente executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), essa decisão representa uma importante vitória da Assocon e outras entidades e a Secretaria de Política Agrícola, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

“Esse aumento do limite de crédito é muito importante para pequenos e médios confinadores, que precisam comprar animais. E essa não é nossa única briga – também estamos trabalhando para ampliar essa linha de crédito para insumos de nutrição”, destaca Andrade. O Plano Agrícola e Pecuário (PAP) começa a vigorar em 1º de julho e vai até 30 de junho de 2015. A proposta é oferecer apoio estratégico e fortalecimento do setor e, este ano, serão disponibilizados, ao todo, mais de R$ 156 bilhões.

Interconf 2014

Este e os demais temas que envolvem oportunidades e desafios para o setor pecuário, além das estratégias para o crescimento da produção de carne bovina no Brasil, serão debatidos na 7ª Conferência Internacional de Confinadores – Interconf 2014, entre 15 e 18 de setembro, em Goiânia. Durante quatro dias, os participantes serão convidados a opinar sobre os temas e interagirem com os palestrantes que debaterão desde assuntos relacionados à política até o mapeamento do consumo de carne no Brasil.

Giovana Biasi é engenheira-agrônoma e trader de Commodities Agrícolas da Minerva Foods