Mercado

 

De olho em novos mercados

A desaceleração da economia brasileira e o fraco desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre mostram que a projeção de crescimento do país ainda não é o desejável. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o PIB cresceu apenas 0,2% no primeiro trimestre e teme-se que o Brasil não atenda às expectativas de crescimento almejado com relação à economia mundial.

Mesmo com a alta dos juros e a inflação, que voltam a assombrar o cenário econômico brasileiro, as apostas agora recaem sobre as expectativas eleitorais e grandes eventos esportivos, como a realização da Copa do Mundo no Brasil, que poderão movimentar o comércio em geral, estimulando o aumento da economia.

Apesar do cenário econômico meio fragilizado, há de se levar em conta que um evento como a Copa do Mundo de Futebol é uma oportunidade de o Brasil mostrar ao mundo que tem potencial de desenvolvimento e que, através da realização desse evento é possível promover a movimentação da economia, gerando empregos, fomentando o consumo, provendo investimentos e atraindo um resultado econômico positivo.

A queda do PIB deve-se ao desempenho negativo da indústria, que não cresceu como o esperado. No entanto, o setor agropecuário mantém- se firme, contribuindo para o crescimento da economia brasileira e ganhando impulso através da melhora na produção, competitividade e qualidade dos produtos. Foi o setor que mais cresceu no primeiro trimestre, com um avanço de 3,6%. O cenário da pecuária permanece positivo, com crescente demanda, tanto interna quanto externa.

O mercado interno da carne bovina seguiu firme na primeira quinzena de junho, diferentemente da segunda quinzena de maio, quando a arroba chegou a valer R$ 120,00 para o estado de SP, tendo leve queda devido à pressão da indústria frente a uma movimentação lenta nas vendas. Já na segunda quinzena de junho percebemos uma recuperação da arroba, chegando a ser negociada em SP a R$ 122,00 à vista. Os frigoríficos estão com escalas mais alongadas, com média de seis dias úteis. Mesmo assim, as indústrias ainda não têm força para fazer uma pressão baixista, pois as ofertas de animais para abate ainda estão restritas.

Com relação às questões sanitárias, o Brasil pode comemorar uma boa notícia. Após o episódio isolado de BSE (encefalopatia espongiforme bovina) no Mato Grosso, e que custou o embargo da carne brasileira pelo Peru, Egito e Irã, a Organização da Saúde Animal (OIE) reconheceu os Estados da Região Nordeste e parte do Pará como livre de febre aftosa e manteve o status de risco insignificante para ao Brasil.

Temos visto que o País tem se esforçado no combate à febre aftosa, tanto que está colhendo os bons resultados desse controle rígido. Estão liberados para exportação da carne brasileira os Estados de Pernambuco, Alagoas, Maranhão, Paraíba, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte e a Região Norte do Pará. Segundo dados do IBGE 2012, o Brasil possui 211 milhões de cabeças entre bovinos e bubalinos, maior rebanho comercial do mundo. Com essa conquista, o país deu um salto nas questões sanitárias e agora tem 99% do gado livre da aftosa atestado pela OIE, somando 24 Estados da Federação livres da aftosa com vacinação. Esse avanço é um grande ponto positivo e certamente favorecerá a abertura de novos mercados, potencializando o crescimento da produção da carne brasileira e reforçando a boa imagem do produto.

O quadro “Boi Gordo no Mundo”, no período analisado entre 19/05 e 17/06/2014, mostra uma desvalorização da arroba em quase todos os países pesquisados, exceto na Austrália, cuja valorização foi de 1,075% em relação ao período analisado na edição anterior. No Brasil, a desvalorização foi de 2,067%. Os Estados Unidos tiveram sua produção reduzida, resultando na escassez da oferta de animais, prejudicada ainda pelo inverno rigoroso; agora, com a entrada do verão, o esperado é que haja aumento na oferta de bovinos. As más condições climáticas também interferiram na produção e no escoamento dos animais na Austrália. Entre os três principais exportadores de carne bovina do mundo, o Brasil poderá ganhar mais participação nas exportações, pois tem potencial de crescimento da produção.

Com relação às exportações, apesar dos embargos de Irã, Egito e Peru, o mercado externo teve um avanço de 18% em faturamento, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Para o período de janeiro a maio, temos Hong Kong com um volume importado de 160.955 t, seguido da Rússia, com 114.178,95 t e Venezuela, com 64.888,29 t. O destaque é a Venezuela, que adquiriu 23,40% a mais de carne, comparando com o mesmo período de 2013.

As negociações para reabertura dos mercados do Peru, Egito e Irã ainda estão em andamento e o Brasil espera reverter esse quadro até o final de junho. Quanto à reabertura do mercado chinês, que mantém restrição à carne brasileira desde 2012, devido ao caso isolado de BSE ocorrido no Paraná, a estimativa de reabertura é para o início do segundo semestre.

É importante salientar que o Brasil não possui inadequações no sistema de produção e mantém controle rígido sobre as condições sanitárias de seu rebanho, tanto que foi ágil e transparente na identificação do caso de BSE ocorrido em 2013 no Mato Grosso, diferentemente do caso ocorrido em 2010 no Paraná, quando levou catorze meses para divulgá-lo.

Quanto à abertura do mercado americano para a carne bovina in natura, a expectativa é de que ocorra até o fim deste ano. O processo de consulta pública já foi concluído, de acordo com a ABIEC, sendo que o próximo passo é a formalização do acordo que ainda não tem data definida para acontecer.

Como pode ser observado no gráfico “Evolução do preço da arroba do boi gordo por UF”, para o período analisado compreendido entre os dias 19/05 e 17/06/2014, houve pouca variação no preço da arroba em quase todas as praças pesquisadas, variando entre R$ 1,00 e R$ 2,00. Na maioria dos Estados, a arroba ganhou mais força logo no início do mês de junho, quando normalmente o consumo é maior.

No período de 19/05 a 17/06/2014, a média do deságio paga aos pecuaristas entre o preço pago à vista e o preço a prazo (30 dias) foi de 1,57%.

O preço médio do bezerro foi de R$ 866,95/cab para o período de 19/05 a 17/06/2014. Houve valorização em quase todas as praças pesquisadas. Em SP, o bezerro está sendo negociado a R$ 982,86/cab; em MG, a R$ 775,71/cab; já em GO, o bezerro subiu para R$ 913,81/cab; no MS, a R$ 967,14/cab; no MT, R$ 849,52/ cab; no PA, não houve valorização e o preço ficou em R$ 696,19/cab; no PR, o preço do bezerro foi para R$ 898,10/cab e no RS, avançou para R$ 852,38/cab.

O boi magro também registrou aumento em todas as oito praças pesquisadas. No Estado de SP, o boi magro avançou para R$ 1.516,19/ cab; em MG, R$ 1.255,51/cab; em GO, passou a ser vendido por R$ 1.462,86/cab; no MS, R$ 1.477,14/ cab; no Estado do MT, passou a valer R$ 1.361,90/cab; no PA, R$ 1.246,48; no Estado do RS, o boi subiu para R$ 1.460 e no PA, não houve alteração, com boi valendo R$ 1.410,48. No geral, o mercado de reposição vem tendo valorizações sucessivas devido à oferta restrita de animais. Com o início do confinamento, a procura aumentou, movimentando ainda mais o mercado de reposição.

Os índices médios de relação de troca entre as categorias de reposição e boi gordo ficaram em 2,17 para desmama/boi gordo. Para boi magro/boi gordo, ficou em 1,34, não sofrendo alterações significativas.

A procura mundial pela proteína vermelha permanece aquecida, impulsionada pelo aumento do poder de compra e consumo, favorecidos pela recuperação da economia em alguns países. No geral, as perspectivas para o mercado da carne bovina continuam sendo as melhores e o momento é favorável para as exportações, que seguem com números positivos, puxando o mercado interno.

É notável o crescimento da pecuária brasileira ao longo dos anos, buscando fortalecimento através do uso da tecnologia, o que vem permitindo agilidade nas atividades, acesso rápido às informações, controle do negócio e principalmente aumento na produção. O produtor rural está mais inovador, investindo cada vez mais em soluções sustentáveis para seu negócio. Percebemos que esse é o caminho certo para o avanço da atividade, e a busca por novos conhecimentos é fundamental para manter a pecuária em pleno desenvolvimento.

Antony Sewell e Rita Marquete
Boviplan Consultoria