Caprinovinocultura

 

Mercado crescente para a raça Dorper

Criadores investem no incremento do rebanho e na integração entre produção e indústria

Denise Saueressig
[email protected]

Nativos da África do Sul, os ovinos Dorper conquistam de forma crescente os criadores brasileiros. Especialmente nos últimos anos, a raça vem atraindo admiradores e ganhando espaço no mercado da carne.

A rusticidade e a velocidade alcançadas na produção são algumas das razões que motivam os ovinocultores, destaca o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Dorper (ABCDorper), Paulo Augusto Franzine. “São animais facilmente adaptáveis a diferentes condições. Na África, estão acostumados a enfrentar temperaturas que variam entre 5ºC negativos e 45ºC positivos e, por isso, podem ser criados em diversas regiões do Brasil sem os limitadores da sazonalidade”, conclui.

Entre outros atrativos da raça, enumera o criador, está a possibilidade da obtenção de cordeiros prontos para o abate aos 120 dias de idade, com peso em torno de 40 quilos. “Essa precocidade favorece a maciez de carne, que ainda atende o gosto do consumidor com a distribuição adequada do marmoreio”, cita.

Na criação, o Dorper é considerado um animal dócil, de fácil manejo e alta produtividade. “O consumo de alimentação é equivalente ao de outras raças, mas o peso final é superior”, acrescenta o presidente da ABCDorper.

A Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco) contabilizava, até o mês passado, cerca de 90 mil animais registrados das raças Dorper e White Dorper no País. Segundo Franzine, o número é surpreendente, considerando que a disseminação da raça ocorreu de maneira mais intensa apenas nos últimos dez anos. Atualmente, com 89 associados, a ABCDorper tem como projeção encerrar 2014 com mais de 120 produtores cadastrados. Um dos desafios e também objetivo da associação é conseguir ampliar o atendimento ao mercado consumidor. “Nossa realidade, em toda a ovinocultura brasileira, ainda é de demanda maior do que a oferta”, constata.

Tanto o mercado de genética quanto a demanda pela carne estão aquecidos no País. Animais de pista das raças Dorper e White Dorper chegam a ser comercializados por valores entre R$ 20 mil e R$ 50 mil, enquanto reprodutores de campo têm preços entre R$ 3 mil e R$ 3,5 mil. “O rebanho comercial vem crescendo, entre outras razões, porque os produtores de genética estão fazendo um trabalho bastante criterioso”, analisa.

O momento favorável da atividade também fica claro nos preços recebidos pela carne. No Centro-Oeste, por exemplo, o quilo vivo do cordeiro variava entre R$ 5,50 e R$ 6 no mês passado e, em São Paulo, o valor chegava a até R$ 7.

Franzine declara-se um apaixonado pela ovinocultura, atividade em que iniciou os investimentos há cinco anos. Hoje, o rebanho de 300 matrizes PO é mantido na propriedade do empresário em São Roque/SP. Em outro projeto, em Campo Grande/MS, a Fazenda Soberana, ele projeta um plantel de 20 mil cabeças de cruza Dorper para os próximos cinco ou sete anos. “Devemos comercializar o primeiro lote de cordeiros no final de outubro para frigoríficos da região”, conta.

Paulo Franzine, presidente da ABCDorper: realidade em toda a ovinocultura brasileira ainda é de demanda maior do que a oferta

Na propriedade do Centro-Oeste, em parceria com a Embrapa Gado de Corte, o criador trabalha em um sistema de integração de ovinos e bovinos. Ao mesmo tempo, uma área de 240 hectares vem sendo preparada para a silvicultura. O planejamento futuro, em conjunto com o governo do Estado do Mato Grosso do Sul, ainda prevê um trabalho de difusão genética para produtores locais.

Ciclo completo e certificação

Um dos pioneiros do Dorper no Brasil, o empresário e criador Valdomiro Poliselli Junior, proprietário da VPJ Pecuária, iniciou os projetos com a raça em 2003. O objetivo, quando decidiu importar material genético da África do Sul e da Austrália, era atender mercados que exigiam carne de qualidade superior. O rebanho da empresa é formado por 600 animais PO Dorper e White Dorper. “O foco da nossa seleção é a produção de reprodutores para cruzamento e de cordeiros cruzados para o abate”, resume Poliselli.

Praticamente toda a produção de animais é direcionada para o programa de cruzamento mantido com os criadores integrados, que utilizam a genética da empresa e têm garantia de compra dos cordeiros para o abate pela VPJ Alimentos. “Para a temporada 2014, a meta é chegar a 50 mil ovelhas em cruzamento nesse projeto de integração e, para atender a demanda do programa, estamos realizando investimentos na importação de embriões, além de aquisições de ovelhas PO de destaque entre criadores nacionais”, detalha.

Fechando o ciclo da cadeia produtiva, a empresa leva ao consumidor final duas linhas de cortes ovinos: a VPJ Cordeiro Prime e a Dorper Lamb. A carne produzida pela VPJ é a primeira do País a obter o Selo Cordeiro Dorper Certificado, auditado pela Aus-Qual por meio da Genesis Inspeções - Brasil Certificação e apoio da ABCDorper.

A Dorper Lamb é formada por seis cortes especiais produzidos a partir de animais super precoces, com idade de até 120 dias. “A carne passa por um rígido processo de seleção na linha de desossa e porcionamento no frigorífico com o objetivo de manutenção do padrão, sabor, maciez e suculência”, destaca Poliselli. O empresário acrescenta que o processo inicia no campo, exclusivamente com animais cruza Dorper, e segue até a entrega dos produtos em frota própria em todos os estabelecimentos de comercialização

Entusiasta do setor, o empresário confia no potencial da ovinocultura no Brasil, mas acha que a atividade ainda precisa de fortalecimento e conhecimento para evoluir. “Acredito que todos os envolvidos, ou seja, produtor, pesquisa e indústria, precisam caminhar como um bloco. Sou a favor de um maior envolvimento dos órgãos públicos para capacitar os produtores. As iniciativas que envolvem instituições como a Embrapa e o Sebrae são bastante interessantes, mas precisamos de um investimento bem maior em extensão rural para levar o conhecimento até as propriedades”, argumenta.