Caindo na Braquiária

 

E a cana virou boi em São Paulo

Alexandre Zadra

Quando um cunhado me convida para uma festa, pode acreditar que dará alguma notícia bombástica, daquelas cabeludas, que a família toda fica estarrecida. Raras são as ocasiões em que um desses agregados me chama para um jantar free, pois boa parte das reuniões familiares organizadas por essa comunidade visa locupletar-se às custas da família, fazendo-nos de patrocinadores das mesmas.

Se cunhado é, na maioria das vezes, impertinente e abusado, imaginem o que pode ser ir a uma festa de um concunhado, estando presente um cunhado dele que trabalha no maior grupo de usinas de açúcar e álcool do mundo e inicia uma calorosa discussão com um zootecnista a respeito do prejuízo que o boi gera nas terras de São Paulo quando comparado aos fornecedores de cana às usinas.

Rinaldo é um gerente de produção de uma das maiores usinas de açúcar e álcool do mundo, e por ser um profissional ligado ao sistema de “energia limpa”, não abriu mão de expor suas opiniões a respeito das injustiças cometidas pelo atual governo ao manter o preço da gasolina baixo, imputando aos usineiros prejuízos gigantes com a venda do etanol abaixo do preço de custo.

Assim que o nobre cunhado do concunhado expôs seu pensamento tocante ao frágil sistema de produção de energia limpa renovável, me vi no direito de questioná-lo a respeito da viabilidade da produção de etanol no Brasil, visto que, de acordo com sites especializados, o custo de produção do barril de petróleo árabe gira em US$ 6,00, já no Brasil o mesmo sai por US$ 9,00 para ser produzido, estimando-se ainda em US$ 35,00 o custo para se produzir petróleo do pré-sal, não justificando a continuação da produção de álcool no Brasil.

Como muitos de vocês sabem, moro em Sertãozinho, interior de São Paulo e conhecido como o coração da produção de álcool de cana do país, quiçá do mundo, sendo muito comum em toda confraternização a presença de, pelo menos, 80% ou mais dos convidados serem dependentes das usinas de açúcar e álcool, seja por trabalharem nelas ou por atuarem em uma das centenas de empresas prestadoras de serviços no ramo localizadas na cidade. Assim sendo, a discussão regada a muita cerveja chegou a certo ponto que tive que me retirar daquele ambiente duplamente alcoolizado, pois a diatribe de Rinaldo e demais a favor da cana me fez pensar ainda mais sobre a viabilidade da pecuária de corte intensiva no Estado, ocupando o posto que era só seu nesse maravilhoso Estado.

Afrontado por Rinaldo e seus séquitos, saí daquele evento insultado, sem argumentos factíveis para um debate de alto nível. Assim que recobrei os sentidos, já no outro dia, me vi obrigado a voltar aos livros de nutrição a fim de trocar ideias técnicas com amigos com larga experiência em nutrição como Beto Guimarães, consultor da área, e ainda com Sérgio Pimentel, criador no MS e fornecedor de cana em SP, para que pudessem dirimir minhas dúvidas a respeito do difamado boi e a possível viabilização do mesmo no Estado.

Consideramos alguns dados para tentar saber se compensa substituir a cana por boi em SP. Dentre eles, concordamos que devemos partir para a engorda intensiva por 12 meses, comprando anualmente os bois magros para engorda tecnificada. Levamos em conta também para comparar os dois sistemas (cana e boi) que usaríamos a mesma quantidade de adubo (R$ 1.800,00 por hectare), não incluindo os custos da reforma de cana a cada cinco anos. Com os preços pagos pela cana em torno de R$ 50,00/ton ao fornecedor e uma arroba vendida a R$ 118,00, consideramos o seguinte: suplementação dos bois a pasto, com ganhos expressivos obtidos com a técnica do moderno semiconfinamento que prevê, nas águas, fornecimento de 2 kg de suplementação proteica a cada boi/dia e, na seca, 9,0 kg de ração/dia também no pasto. Com esse regime alimentar, conseguimos reunir 10 bois por hectare nas águas (8 meses) e seis bois por hectare na seca (4 meses), ganhando nos quatro meses de seca 1,5 kg/dia, e chegando ao ganho diário estimado de 1 kg/dia nos oito meses de pastagens melhores.

Muito bem, hoje tenho os números atuais dos dois sistemas e afirmo que a receita da pecuária em um sistema intensivo a pasto ultrapassa em 40% a receita com a cana, o que me fundamenta para a próxima reunião, que será em casa, com muita carne de qualidade.

Mas antes de tudo, quem faz pecuária é porque gosta e não mede esforços para se manter na atividade. Basta lançarmos mão de linhas de investimento para estruturarmos essa terra que é a maior exportadora de carne do mundo.

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]