Do Pasto ao Prato

 

TOURO: LINDO E GORDO!

Fernando Velloso é médico veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

A apresentação dos touros para comercialização é basicamente composta de três características: o desenvolvimento (tamanho), o peso e o preparo (gordura). A combinação dessas características tem alto impacto no valor de venda e na funcionalidade desses animais. No segundo semestre do ano, concentra-se a maioria das vendas de reprodutores no Brasil e a revisão desse assunto é apropriada para quem compra ou vende touros.

O sobrepeso e o excesso de gordura nos touros levam a uma série de prejuízos na funcionalidade e também em sua vida útil. Os problemas decorrentes dessa situação são os mais diversos, e os mais frequentes são os relacionados aos cascos, às articulações e aos problemas digestivos e de qualidade seminal. O condicionamento físico (ou capacidade de percorrer longas distâncias em um dia) também é prejudicado pelo sobrepeso. Independentemente de qual dificuldade o touro enfrente, o que ocorre invariavelmente é a menor taxa de prenhez ao final da estação de monta. Sendo a eficiência reprodutiva a característica de maior impacto econômico nos rebanhos de cria, não há como desconsiderar que o “nível de preparo” dos touros é um tema que mereça nossa atenção.

Se por um lado o excesso de gordura traz a possibilidade de uma série de problemas aos touros, isso também se justifica em parte como característica de “reserva de energia” para o período de serviço, pois os animais enfrentarão condições alimentares diferentes e normalmente inferiores às vividas até aquele momento e necessitarão de energia extra para “trabalharem” no rebanho (caminhando na busca de vacas em cio e realizando as coberturas), e ainda estarão em período de crescimento, para os reprodutores de dois anos ou menos. Entenda-se, então, que a gordura nos reprodutores não é somente problema, mas também parte da solução.

Assim como temos touros com sobrepeso e excesso de gordura no mercado, na outra ponta também são oferecidos touros chamados de “comerciais” ou no “limite inferior” de apresentação. Esses animais são normalmente comercializados com pouco peso para a idade por valores mais acessíveis, porém, podem se tornar o famoso “barato que sai caro”, pois são animais com poucas reservas de energia para a estação de monta e com maior possibilidade de atingirem a exaustão ou fadiga durante o período reprodutivo e, assim, trabalharem menos ou não trabalharem por alguns dias. O crescimento desses touros até os três anos também é comprometido.

Se formos agrupar os touros em relação a sua apresentação, podemos chegar a três categorias bem definidas:

a) Touros com sobrepeso e excesso de gordura (obesidade).

Animais que receberam elevados níveis de concentrado (ração) ao longo da vida ou no período prévio à comercialização. Ex: touros Angus com mais de 750-800 kg aos dois anos, ou mais de 900 kg aos três anos. Além do peso elevado, esses animais estão com altos níveis de deposição de gordura.

b) Touros com bom desenvolvimento e peso, porém, sem sobrepeso e sem excesso de gordura (equilíbrio).

Animais com bons ganhos de peso até os dois anos, entretanto, com baixo uso de suplementação; Ex: touros Angus entre 600 e 700 kg aos dois anos, ou aprox. 800 kg aos três anos.

c) Touros com subdesenvolvimento e consequente falta de peso para a idade (fome).

Animais com baixos ganhos de peso ou períodos de restrição alimentar importantes até os dois anos. Ex: touros Angus com aproximadamente 500 kg ou menos aos dois anos.

Os touros mais úteis estão na categoria “b” e “a”, nesta ordem. Em raras Fernando Velloso é médico veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br – Fotos: Divulgação REVISTA AG - 43 situações os touros do grupo “c” são recomendáveis, pois, além das questões de limitação nutricional, na maioria das vezes, são os animais com genética inferior. Alguns produtores que ofertam esses produtos (grupo “c”) justificam que são animais com maior “rusticidade” e de mais fácil manejo, mas a realidade é que são um produto inferior no mercado de reprodutores.

Mercado e exposições

Os produtores de touros ou cabanheiros (como chamamos no Sul do Brasil) entendem e conhecem bem essa situação, todavia, o mercado os direciona a oferecer touros cada vez mais pesados, pois são disputados e alcançam os maiores valores nos leilões. Já dizia o causo antigo que, ao passar um cavalo por um cego, alguém comentava “que cavalo lindo” e o ceguinho arrematava “e gordo!”. Desde sempre a beleza é relacionada à gordura nos animais.

Em um setor cada vez mais competitivo e com muitas novas fazendas promovendo leilões de reprodutores, a corrida é por ofertar touros com melhor “apresentação”. Porém, a lógica de que o mercado é soberano nessa situação leva a resultados de curto prazo, pois em muitas situações o comprador não terá satisfação com o produto adquirido e poderá migrar para outro fornecedor. Pode-se pensar que o comprador tem responsabilidade sobre suas decisões de compra e tipo de touro que elege, mas está entre as funções de um bom plantel buscar bons resultados para seus clientes e também de orientar o mercado do que é mais ou menos produtivo.

A situação exposta neste texto não é nova e vem se agravando a cada ano. Em um passado recente (menos de 15 anos), touros de raças britânicas ou sintéticas (Angus, Hereford, Brangus e Braford) eram ofertados com 500 kg aos dois anos, depois passaram para os 600, agora já superam os 700, e não são incomuns leilões de animais com 800 kg ou mais. Parece que o céu é o limite. As exposições não ajudam muito neste assunto, pois seguem a mesma lógica de quanto mais pesado melhor. Na Argentina, tornaram-se populares as exposições chamadas “Nacionais de Terneiros”, onde competem somente animais jovens. Os tourinhos são muito exigidos para alcançarem altos ganhos de peso e, assim, surge mais uma modalidade que prejudica a funcionalidade e longevidade produtiva dos animais.

O tema não é simples, pois o mercado remunera e valoriza, neste momento, o que não necessariamente é o melhor para o cliente. Entendo que cabe aos envolvidos com a produção e comercialização de reprodutores informar e orientar continuamente o mercado sobre as características de real impacto produtivo aos pecuaristas: rebanhos com programas de seleção sérios, animais com conformação superior, correção estrutural, índices técnicos, DEPs, Marcadores Moleculares, ultrassonografia de carcaça, etc. Mais uma vez a informação é grande parte do trabalho e da resolução dos nossos problemas. Com a chegada dos leilões neste segundo semestre, avalie os “gordinhos” com outro olhar.