O Confinador

 

Primeiros 21 dias de confinamento: ADAPTAÇÃO OU RECUPERAÇÃO?

O sistema imune e o sistema nervoso central são os mais afetados quando há restrição de nutrientes

Anderson Vargas*

A terminação de bovinos no Brasil é quase que exclusivamente a pasto. Cerca de 90% dos animais destinados ao abate, anualmente, são engordados dessa forma. Entretanto, a engorda intensiva pode promover ganhos importantes pela redução da idade do abate, em qualidade de carcaça e no manejo da pastagem, principalmente na estação seca do ano.

Observa-se que o número de animais confinados tem crescido. Isso se deve ao fato de que muitos produtores já perceberam que a adoção do sistema de confinamento como estratégia de engorda permite significativo avanço em termos de produtividade e qualidade, além de aumentar a rentabilidade no sistema de produção como um todo.

No entanto, ao retirarmos os bovinos de sua condição “natural” e os levamos para o confinamento, promovemos mudanças, entre as quais as mais importantes são ambientais, nutricionais e sociais, conforme explicitado no quadro a seguir.

Esse conjunto de alterações desencadeia uma série de mudanças fisiológicas e hormonais nos bovinos no momento de sua entrada no sistema de confinamento, o que pode gerar uma redução significativa no consumo de matéria seca no período inicial. Diante disso, os primeiros 21 dias são os mais críticos para o organismo animal. Sublinha-se que no período de adaptação, os órgãos ainda não estão prontos para receber o aporte energético da dieta (taxa de metabolismo) e, por isso, não é recomendável apenas “buscar” o consumo. Deve-se, antes, preparar o organismo do animal para submetê-lo ao sistema.

Na adaptação, o animal é preparado para a produção de carcaça. Considerada a fase mais crítica do período de terminação dos animais confinados, ela corresponde a 25% do período do confinamento. Nesse contexto, os fatores que mais influenciam tais mudanças e a consequente redução de ingestão de alimentos no período são o tempo de transporte da fazenda até o confinamento (Tabela 1); e o tempo de jejum e desidratação a que os animais são submetidos no período entre a saída do pasto até a entrada nos piquetes de confinamento e formação do lote.

Tabela 1 – Estimativa de perda de peso de acordo com tempo de transporte

Essas medidas são importantes para prevenir doenças, uma vez que animais submetidos a estresse intensificam a secreção de hormônio adrenocorticotrópico, seguido por um aumento na secreção de cortisol e consequente elevação no metabolismo da glicose. O cortisol mobiliza aminoácidos nos tecidos extra- -hepáticos, aumentando a quantidade de enzimas necessárias para que ocorra a conversão desses em glicose, o que acarreta na redução da síntese proteica e o aumento do catabolismo proteico intracelular. Em outras palavras, o animal começa a perder reservas corporais.

Quando a disponibilidade de nutrientes é limitada, os sintomas de deficiência surgem mais rapidamente em tecidos nos quais a taxa de síntese de proteína ou de atividade metabólica são mais elevadas. Nesse caso, o sistema imune e o sistema nervoso central são os mais afetados. Ressalta-se que qualquer resposta imunológica requer a síntese rápida de proteínas por células do sistema imunológico e de produtos imunes.

Sublinha-se que o sistema imunológico tem exigências especialmente elevadas de nutrientes antioxidantes e catalizadores enzimáticos, mas esses nutrientes são rapidamente esgotados quando os animais estão sob o impacto do estresse. Portanto, em uma fase em que ocorre o menor consumo de matéria seca dos animais confinados, há também uma grande demanda de nutrientes envolvidos na resposta imune.

É na fase inicial do confinamento, ou seja, nos primeiros 21 dias, que ocorre o maior índice de morbidade e mortalidade dos animais. Esse fato é justificado, principalmente, pela redução da capacidade de resposta do sistema imunológico do animal. Diante disso, torna-se necessária uma concentração mais acentuada de nutrientes na dieta, especialmente, daqueles envolvidos no processo de recuperação do sistema imunológico, tais como cromo, cobalto, manganês, zinco, selênio e vitaminas, conforme demonstrado no quadro abaixo.

A utilização de produtos que contenham fontes de minerais orgânicos também é recomendada, devido à maior biodisponibilidade dessas fontes. Tendo em vista a busca pela otimização do consumo de matéria seca, recomenda-se o uso da virginiamicina nos primeiros 21 dias. Esse aditivo ajuda a estabilizar a fermentação ruminal e a diminuir a variação no consumo alimentar.

Animal em condição de estresse e restrição alimentar

Expectativas do confinamento

A terminação em confinamento no Brasil deverá atingir 4,66 milhões de cabeças em 2014. O total representa 310 mil cabeças a mais do que se esperava antes de irem a campo as equipes do Rally da Pecuária 2014, maior expedição técnica privada do Brasil que avalia as condições da bovinocultura nas principais regiões produtoras. O total de animais confinados em 2013 foi ajustado para 4,38 milhões de cabeças. A adoção do confinamento como estratégia de aumento de produtividade está associada a níveis entre 40% e 60% superiores na produção, segundo amostragem da expedição.

Os técnicos do Rally constataram também que a produção de carne bovina aumentará 4,14% em 2014, chegando a 10,65 milhões de toneladas de carcaça. A estimativa prévia era de aumento de 2% na produção. Maurício Palma Nogueira, coordenador da expedição, explica que, mesmo com o aumento, a soma da demanda interna e externa deve ser suficiente para absorver o aumento da oferta no mercado.

Na avaliação de campo, as equipes observaram que 11,7% das pastagens precisariam de intervenção no curto prazo para frear o avançado estágio de degradação. Projetando esse número para o total de pastagens no Brasil, estima-se que o total de pastos nessas condições somem 19 milhões de hectares. “Cerca de 5 milhões de hectares precisam de reforma imediata”, aponta Nogueira. Com relação ao manejo, o levantamento mostrou que 45% dos produtores corrigem e fertilizam 25,5% das pastagens.

No público alcançado pelo Rally da Pecuária 2014, a produtividade média no ciclo completo está em 9,4 arrobas por hectare/ano, índice entre 30% e 35% superior à amostra dos rallies anteriores. “Essa diferença representa avanço na produtividade da amostra, pois o público é semelhante aos analisados em anos anteriores, comprovando o aumento do pacote tecnológico adotado nas fazendas”, afirma o coordenador da expedição.

Mais de 20% dos produtores entrevistados pelo Rally da Pecuária já adotam tecnologias fomentadas diretamente pelo Plano de Redução nas Emissões de Carbono – Plano ABC. Segundo o levantamento, as principais tecnologias do Plano ABC aplicadas em campo foram a conversão de áreas em agricultura (113,9 mil hectares), a recuperação de áreas degradadas (46,6 mil hectares) e o plantio direto (32,8 mil hectares). “Praticamente todos os pecuaristas visitados pela expedição estão adotando medidas de aumento de produtividade, o que contribui com a mitigação das emissões de carbono”, afirma André Pessoa, sócio-diretor da Agroconsult, realizadora do Rally da Pecuária.

Rally 2014

As cinco equipes técnicas do Rally visitaram propriedades em 169 municípios, em um total de 55 mil quilômetros percorridos, mapeando e fotografando pastagens, e entrevistando cerca de 120 pecuaristas. A edição 2014 teve início em 24 de abril, em Campo Grande, e terminou no dia 28 de maio, com o levantamento de informações, in loco, das condições das pastagens e da bovinocultura das áreas de cria, recria, engorda e confinamento do País. Entre os objetivos da expedição estão avaliar índices zootécnicos e gerar índices e informações para melhorar a base estatística da pecuária. Doze eventos regionais com pecuaristas aconteceram durante o Rally. Os nove Estados visitados ao longo da expedição respondem por mais 75% do rebanho bovino nacional e 85% da produção de carne.

*Anderson Vargas é gerente nacional de Vendas (Bovinos Corte) da Vaccinar. Com informações do Rally da Pecuária