Raça do Mês

 

A raça sem fronteira

Rusticidade, precocidade e fundamentalmente qualidade de carne tornam o Brangus a raça sintética de maior expansão no Brasil

Bruno Santos
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A pecuária tornou-se algo extremamente profissional nos últimos anos. Produzir “mais em menos” área é a nova palavra de ordem. Mas o “X” da questão é ainda mais complexo e impera eficiência mesmo em áreas de menor produtividade.

Isso porque o gado está sendo cada vez mais empurrado para as marginais das propriedades, pois, onde, no passado, nem se pensava em agricultura, hoje se planta com resultados nunca imaginados, obrigando os bovinos a pastejar em áreas de pouca qualidade. É nesse pasto ruim que o Brangus tem mostrado todo seu potencial. Por ser um animal rústico, não precisa ter regalias para desempenhar bem sua função, que são a reprodução e a engorda.

O principal diferencial da raça é a adaptação. É extremamente adaptada às condições mais adversas, produzindo bem a campo de Norte a Sul do País. Isso porque, segundo Gerson Valmir de Lima, técnico inspetor da Associação Brasileira de Brangus (ABB), que assiste os novos e os já tradicionais produtores, pode existir dentro da raça Brangus uma variação enorme de sangue.

Isso porque a raça é definida em 72,5% de sangue Angus e 37% Zebu, mas ainda dentro desse grau de sangue existe a possibilidade de direcionar os cruzamentos um pouco mais para o zebu ou para o taurino. É nesse ponto que a adaptabilidade pode ser trabalhada em função do objetivo do criatório.

A raça tem ainda todas as características de produtividade, precocidade, fertilidade e mesmo as fêmeas resultantes de cruzamentos são muito adaptadas. É o que garante o técnico inspetor, que também destaca que o aproveitamento do animal, tanto para abate quanto das matrizes, é positivo.

Porém, além de todas essas qualidades já apresentadas, o Brangus apresenta ainda outros dois curingas, que mesmo nos dias de hoje, são pouco explorados pelos pecuaristas. É o que informa o presidente do Conselho Técnico da ABB Joal Brazzale Leal. Segundo ele, essas duas importantes características da raça são pouco exploradas, devido ao perfil do criador A raça sem fronteira brasileiro, que é mais “toureiro” e não “vaqueiro”, ou seja, foca atenção mais nos machos e não nas fêmeas.

A primeira característica importante do Brangus é a facilidade de parto e a segunda é a habilidade maternal. “O Brangus, na minha visão, tem de ser encarado como uma raça materna. E isso é uma coisa que a gente não vê as cabanhas explorarem de forma positiva. Ter vacas que desmamam bem seus bezerros é extremamente importante, principalmente para quem faz pecuária de ciclo curto”, esclarece.

Todavia, de nada adianta a teoria sem os resultados práticos e é exatamente no campo que o Brangus mostra realmente seu valor. De acordo com Fotos: Alexandre Teixeira Stefani REVISTA AG - 31 Leal, se o criador usar reprodutores Brangus superiores, ele pode ganhar até 1,5 kg em genética por animal/ ano. Isso parece pouco, mas quando se observa com atenção, os números ficam diferentes. Hoje, o quilo de um novilho, por exemplo, equivale a mais ou menos R$ 7,00. Em um rebanho de 1.000 novilhos, esse 1,5 kg a mais por animal vai impactar sobremaneira nos ganhos financeiros da propriedade.

São todas essas qualidades que fizeram a raça dar um salto na comercialização de sêmen no ano passado. Segundo os dados compilados pela Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial) e divulgados esse ano, o Brangus foi uma das raças de maior crescimento no Brasil, passando de 112.092 doses, em 2012, para 146.944 doses em 2013, o que representou um crescimento de 31,09%. Já no acumulado (2011/2013), esse crescimento foi ainda maior, alcançando a expressiva marca de 81,63%.

Essa disparada na comercialização do sêmen do Brangus, sendo a raça sintética de maior crescimento, atribui-se a vários fatores. Boa parte disso é por causa das fêmeas F1 que estavam indo para abate e agora, com a ajuda do Brangus, não vão mais.

Outro fator que explica essa elevada comercialização de sêmen é a pulverização da raça pelo País. “Temos visto o crescimento de criadores pelo Brasil, mas o que realmente cresce de forma expressiva é o usuário de touros. Tem sido um fator bastante relevante na raça. Não sobra touro. Tanto que a abertura da temporada de venda acontece no meio do ano e está difícil segurar reprodutores, porque já tem muita encomenda”, salienta o técnico e inspetor da associação, Gerson Lima.

Ainda segundo o técnico, a absorção desses touros está pulverizada nas mais diversas regiões brasileiras, mas ainda existe um grande comércio no Rio Grande do Sul. “Antes se vendia muito para fora, e hoje muitos animais ficam dentro do próprio RS. Mesmo assim, muitos touros vão para o Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e Goiás. Tem sido grande a expansão da raça no Brasil Central”, explica.

O criador que participa do programa de carne da raça recebe até 10% a mais do valor da arroba do mercado

A prova dessa grande demanda se refletiu no faturamento dos remates da raça, em 2013. A movimentação dos leilões foi 25% superior à de 2012.

Segundo dados da Associação, houve liquidez absoluta em todos os remates. “Não sobrou absolutamente nada. Conversei com alguns cabanheiros que, inclusive, venderam seus touros de um ano e meio, algo que não se faz de praxe, já que o costume é vender touros de dois e três anos. Situação essa que vem ocorrendo em todo o Brasil”, acrescenta o presidente da ABB, Raul Torrent.

O presidente da Associação, Raul Victor Torrent (à esquerda), e o presidente do Conselho Técnico, Joal Leal

Oportunidades

As avaliações genéticas são ferramentas importantes para o criador que busca incrementar a produção, além de auxiliarem na escolha dos reprodutores. Elas mostram as características que podem ser melhoradas dentro do plantel, sendo fundamentais na seleção. Na raça Brangus, são utilizados os programas Natura – Gensys e Geneplus –, Embrapa e Promebo.

O Promebo, que é o mais utilizado principalmente no Rio Grande do Sul, é programa de avaliação por escores e, segundo o técnico inspetor da ABB, Renato Pinto Paiva, traz grandes melhorias, na carcaça, na precocidade e também na qualidade de carne. “Eu destaco principalmente o melhoramento de carcaça e sua parte carniceira. Isso é uma característica que evoluiu muito na raça Brangus e mudou demais nos últimos dez anos”, enfatiza.

Entretanto, o presidente do conselho técnico da Associação, Joal Leal, que assumiu a função há pouco tempo, planeja e quer implantar um único programa de avaliação genética na raça. Segundo ele, a Embrapa pode colaborar com um programa exclusivo para a associação exatamente como a instituição já o fez para a Associação de Hereford e Braford. “Independentemente desses programas, poderíamos ter um oficial da associação e eu acho que isso nos fortaleceria ainda mais. A primeira coisa que temos de pensar é fazer crescer o número de animais nos programas genéticos, relativamente pequenos em relação ao potencial da raça”, estima Leal.

Outro ponto que o presidente do conselho técnico acha relevante é fazer um monitoramento e definir estratégias para fortalecer a venda de reprodutores. Isso porque, com a venda expressiva de sêmen de Angus no Centro-Oeste, em sua visão, deve nascer de 800 mil a 1 milhão de fêmeas meio-sangue Brangus. Um mercado promissor abre-se para a venda de reprodutores.

Com isso, cabe à Associação e ao pessoal que faz a genética Brangus começarem a identificar, através das centrais de inseminação, onde é que está esse gado. “Sei que boa parte dessas fêmeas vai para o abate, porque elas são muito bem valorizadas e têm um bom rendimento de carcaça por terem 50% de sangue Zebu e 50% de Angus. Mesmo assim, ainda sobra um número expressivo de fêmeas para a reprodução, abrindo um mercado brutal, que poucas raças poderão aproveitar como o Brangus”, pontua Leal.

Leal também quer valorizar mais as exposições de rústicos, além das exposições de animais de argola, pois, para ele, é nos rústicos que está o grande volume da venda de reprodutores, bem como a possibilidade de crescimento.

Carne de qualidade

Atualmente, a ABB tem um acordo com o Frigorífico Silva, no Rio Grande do Sul. Essa parceria tem cerca de três anos e meio, na qual são credenciados técnicos para fazer a seleção dos animais que são abatidos todos os dias.

Esses técnicos identificam quais são os animais Brangus e selecionam os que irão para o programa de carne da raça. Após essa seleção, um certificador analisa a carcaça para confirmar se tem o grau de gordura e a qualidade de carcaça desejada para o programa.

Nessa parceria com o Frigorifico Silva, estão sendo abatidos cerca de 1.500 animais por mês. Segundo o presidente da ABB, Raul Torrent, o criador que participa do programa recebe até 10% a mais sobre o valor da arroba de mercado. Os cortes com a marca Brangus podem ser encontrados em Porto Alegre, Mato Grosso e, em breve, em São Paulo.

Ações de expansão

Para fomentar a raça e atrair novos criadores, a Associação tem feito algumas ações, entre elas, o investimento na parte de comunicação. Ela também publica diariamente matérias referentes ao Brangus nas redes sociais, além de manter o site da entidade sempre atualizado.

Segundo Torrent, a Associação também tem buscado parcerias para participação e realização de eventos. Prova disso foram dois encontros importantes feitos em conjunto com o portal Beefpoint, no qual, na mesma ocasião, dividiram estande com a Associação Brasileira como parte importante da parceria firmada ano passado.

Para quem não se recorda, em abril do ano passado, durante a ExpoLondrina, em Londrina, no Paraná, o atual presidente da Associação do Brangus, Raul Torrent, e o presidente da ABA, Paulo de Castro Marques, firmaram uma até então inédita parceria entra as raças coirmãs. O objetivo foi aproximar as associações e divulgar as duas raças simultaneamente, para juntas produzirem carne de qualidade.

Pouco mais de um ano desse marco inédito, o presidente do Brangus avalia como positivo, pois foi um pontapé inicial para começar o trabalho conjunto, porém, pouca coisa caminhou. “O trabalho será de longo prazo, pois quando a firmamos, no sentido figurativo, com o Paulo Marques, sabíamos que seria um caminho muito longo. Voltaremos a conversar em Esteio/RS, durante a Expointer, para tentar fazer algo mais concreto”, afirma Torrent.

Ainda segundo o presidente do Brangus, para a parceria embalar, primeiramente, é necessário todos entenderem que a união faz a força. O Angus tem a tradição e a história de qualidade de carne; isso não é só no Brasil, mas em todo o mundo. Porém, aqui, quem tem essa quantidade de carne é o Brangus. “O que poderíamos fazer seria sentar e deixar de lado todas as coisas pequenas para trabalharmos em um objetivo comum e muito maior, que é o de sermos os maiores provedores de carne de qualidade do Brasil”, conclui.

Histórico

A Associação Brasileira de Ibagé, nome que foi dado originalmente à raça, foi fundada em janeiro de 1979 por um grupo de criadores reunidos na sede da UEPAE de Cinco Cruzes de Bagé/RS. Com o desenvolvimento do criatório e a introdução de animais de cruzamento de sangue Brahman, no ano de 1989, passou a se denominar Associação de Brangus Ibagé. Em 1998, acompanhando as políticas de globalização, e em função do Mercosul, com a homologação do Ministério da Agricultura, mudou o nome para Associação Brasileira de Brangus, usado até os dias de hoje.

A raça Brangus é resultado do cruzamento entre o Angus e o Zebu. As primeiras experiências que resultaram no Brangus foram realizadas em 1912, mais de cem anos atrás, no estado norte- americano de Louisiana. No Brasil, os cruzamentos começaram a ser realizados por técnicos do Ministério da Agricultura, em Bagé/RS, na década de 1940. O resultado do cruzamento resultou na raça Ibagé, batizada assim pelos técnicos na época. Alguns anos depois, em função do cruzamento ser o mesmo lançado nos Estados Unidos, o nome da raça passou a ser Brangus Ibagé, até se tornar apenas Brangus, anos mais tarde.

Além do gado de pista, a ABB quer valorizar mostra de rústicos

A ABB foi fundada em Bagé, em 1979, onde ficou até 1997, quando foi transferida para Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, e, em 2005, mudou-se para São Paulo. Em setembro de 2006, a ABB foi transferida para Presidente Prudente, Oeste do Estado de São Paulo, onde permaneceu até fevereiro de 2012. Após sete anos, retornou a Campo Grande/MS.

Além da sede em Campo Grande, a Associação tem núcleos no Rio Grande do Sul e em São Paulo, e está formando um núcleo no Paraná. A ABB conta com mais de 156 associados, que reúnem um rebanho de 550 mil animais registrados no Brasil.

A raça tem tido crescimento gradual nos registros de nascimento ano após ano. Segundo a superintendente de Serviço de Registro Genealógico da ABB, Renata Pereira, no ano passado a Associação fechou com mais de 11.000 animais registrados, um crescimento superior a 10%, comparado a 2012. “Temos observado um crescimento gradual, reflexo da maior procura por touros. O número de registros de animais 3/8 tem sido o principal destaque”, pontua.

Ainda segundo a superintendente, esse crescimento se atribui à maior qualidade dos animais ofertados, pois a raça tem evoluído e, hoje, o padrão e a produção dos animais da raça Brangus têm sido superiores. Os criadores que estão utilizando o Brangus estão satisfeitos com os resultados obtidos.


Congresso mundial no México

A ABB prepara-se para participar, de 10 a 14 de novembro, do Congresso Mundial da raça, que será realizado no México. Para o evento, a Associação está prevendo comparecer com material impresso e fôlderes, além de fazer uma palestra para mostrar as qualidades do Brangus brasileiro.