Escolha do Leitor

EXISTE DIFERENÇA

Heterose e complementaridade entre raças não são o mesmo fenômeno

Gabriela Giacomini*

O cruzamento é um assunto que, finalmente, não sai da cabeça do pecuarista. Há uma procura crescente por tourinhos para fazer cruzamento e o entendimento de que uma pecuária produtiva e competitiva passa, obrigatoriamente, pelo cruzamento é uma realidade.

Temos vários exemplos de cruzamentos que fazem parte do nosso dia a dia e nem percebemos. Na agricultura, os cruzamentos entre variedades são largamente usados, para não falar nos transgênicos. Da mesma forma acontece com o frango e o suíno. Não sabemos ao certo quais são as raças que compõem esses animais, sabemos apenas que são todos muito uniformes.

É muito fácil comprar peito de frango ou uma bisteca suína. Não é preciso fazer amizade com o açougueiro para comprar o melhor corte, situação muito comum com a carne bovina. Já há o entendimento de que é preciso produzir o que o nosso cliente quer e adequar a nossa produção para atender esse mercado, e não o contrário. O consumidor, em geral, quer uma carne macia, saborosa, de coloração adequada e fácil de comprar. Em inúmeros churrascos, o churrasqueiro nos revela, orgulhoso, a verdadeira “maratona” que teve de percorrer para encontrar carne macia para servir aos seus convidados.

Os produtores de frango e suíno têm objetivos muito claros traçados, e todos passam por aumento de eficiência produtiva. Já os produtores de carne bovina têm objetivos diversos, muitas vezes completamente fora do foco do objetivo final, que é produzir carne.

Muito temos avançado no sentido de uma pecuária mais produtiva e mais uniforme e a decisão de fazer cruzamento, sem dúvida, é um passo muito importante.

É natural o surgimento de muitas dúvidas a respeito do cruzamento e tenho certeza que muitas delas são algo como “Será que esse negócio é pra mim?” ou ainda “Como tirar o máximo de vantagem do cruzamento?”. Para responder essas perguntas, é preciso juntar um pouco de literatura científica com um pouco de prática e fica fácil de perceber que a coisa é bem mais simples do que parece.

Pesquisando um pouco da literatura a respeito dos cruzamentos, temos que:

•A heterose, também chamada de vigor híbrido, é o fenômeno pelo qual os filhos de cruzamentos apresentam melhor desempenho (mais vigor ou maior produção) do que a média de seus pais de raças puras. A heterose será tão mais pronunciada quanto mais distantes geneticamente forem as raças ou linhagens envolvidas no cruzamento, como o choque de sangue entre zebuínos e taurinos, por exemplo. Há trabalho publicado que indica que uma mãe F1 é capaz de desmamar um bezerro 40% mais pesado do que uma mãe zebuína;

• A complementaridade de raças é um outro fenômeno, no qual se consegue reunir em um animal cruzado características de duas ou mais raças, transformando o animal cruzado em um mix de alto valor adaptativo e produtivo. Ao cruzar uma vaca Nelore com um touro europeu britânico, por exemplo, reunimos em um mesmo animal a rusticidade e a facilidade de parto do Nelore com a precocidade e a qualidade de carne do britânico. Quanto maior o número de raças envolvidas, mais características são agregadas.

Analisando os conceitos, é possível perceber que heterose e complementaridade entre raças não são a mesma coisa, mas ambas são objetivos do cruzamento.

Quanto mais raças utilizadas no cruzamento maior a chance de segurar a heterose

Na prática, a heterose é ferramenta fundamental para o aumento de produtividade. Ao cruzar uma vacada zebuína, por exemplo, com uma raça taurina, obtemos o chamado F1, animal excelente e produtivo. Muitos pecuaristas optam por enviar machos e fêmeas F1 para abate. É aqui que muita gente desiste, pois acredita que é preciso manter lotes de vacas zebuínas com touros zebuínos para garantir a reposição, lotes de vacas zebuínas com touros taurinos para garantir a produção, além da vontade de manter as boas vacas F1 no rebanho e aproveitar as vantagens já obtidas com o cruzamento.

Outro ponto de forte questionamento é como fazer com que essa heterose mantenha-se alta ao longo das gerações e sem as complicações de manejo e rotações de raças. Quanto mais distantes geneticamente são os pais, maior a heterose nos filhos, mas a heterose é um fenômeno que acontece apenas na geração em questão, não sendo transmitida “de pai para filho”.

Tanto os trabalhos científicos como a prática apontam o uso de animais compostos multirraciais como uma solução simples de geração e manutenção de heterose ao longo das gerações, dentro de um manejo de raça pura. Estudos mostram que a manutenção de heterose de F1 para F2 é proporcional ao número de raças envolvidas. Em animais com duas raças, apenas 50% da heterose se mantém. Com três raças são 66% e com quatro raças 75% da heterose. Animais com oito raças em sua composição retêm até 88% da heterose

Isso já é feito na avicultura, suinocultura e na agricultura há muitos anos. Como os compostos são formados por três ou mais raças, há uma forte interação entre as raças que os compõem, mantendo a heterose destes rebanhos em níveis altos e sem a necessidade de manutenção de diferentes lotes na fazenda e nem de ficar alternando raças.

A complementaridade entre raças vem a somar com a heterose na busca pelo animal ideal. Há muito tempo, a pecuária vem procurando combinar raças para tirar delas o que cada uma tem de melhor a oferecer. Os exemplos disso são as raças híbridas, formadas por duas raças, como o Brangus e Braford, por exemplo, que buscam combinar as características produtivas das raças europeias britânicas com a rusticidade do zebu.

Nessa busca de combinações de características de diversas raças, tanto a ciência como a prática apontam que, quanto mais raças combinadas dentro de um único animal, maior a quantidade de características positivas são combinadas. De novo, esbarramos no conceito de bovinos compostos multirraciais.

Temos exemplos de compostos multirraciais bem sucedidos, como os formados com composição racial fixa, como os americanos Stabilizer, o Range Maker e o Hotlander. Existem também animais formados com composição racial aberta, como o brasileiro Montana Composto Tropical, no qual são feitos inputs de novas raças para agregar novas características e aumentar a heterose.

Também é preciso lembrar que, além da heterose e da complementaridade entre raças para aumentar a eficiência do rebanho, a ferramenta “seleção” não pode ser esquecida.

Já vimos que a heterose, se não for bem conduzida, pode ir se perdendo ao longo das gerações e não é geneticamente transmissível. O que é transmissível ao longo das gerações é a genética aditiva, as características avaliadas por meio da avaliação genética. Através de medições corretas dos animais e da avaliação genética é possível mensurar qual o potencial genético de cada animal e predizer, com bom grau de confiança, como serão os filhos.

Segundo Gabriela Giacomini, tanto a heterose quanto a complementariedade entre raças são objetivos do cruzamento industrial

Essa predição do potencial genético dos animais é traduzida nas DEPs, ou Diferenças Esperadas na Progênie, e são essas DEPs que devem nos auxiliar na hora de selecionar os nossos reprodutores ou as matrizes do nosso rebanho.

Um touro muito musculoso, gordo e bonito, se não possuir avaliação genética, nada mais é do que um boi de ponta de boiada, pois não há como saber ao certo se os seus filhos também serão musculosos, gordos e bonitos. Se esse mesmo touro for cruzado, seus atributos podem ser apenas a expressão da heterose, sem garantias de produtos superiores.

A ciência nos oferece uma série de ferramentas para aumentar os índices produtivos e reprodutivos de nossa pecuária, tornando-nos cada vez mais competitivos frente a atividades remuneradoras, e essas ferramentas não podem ser ignoradas. A verdade é que eu não conheço ninguém que sobrevive chupando cana ou comendo casca de árvore. Eu mesma não resisto a um bom churrasco. A população no nosso planeta só cresce, obrigando os produtores a produzirem cada vez mais na mesma área ou em áreas menores. O Brasil, seja por seu tamanho ou pela sua vocação produtiva, é o país que mais tem a oferecer em termos de volume para abastecer o mundo. Só devemos lembrar que também é preciso qualidade. Os pecuaristas profissionais e competentes têm muito a ganhar.

Os dados estão à mão. Selecione para a sua fazenda animais realmente capazes de produtividades cada vez maiores e com informações confiáveis. Heterose, complementaridade e seleção, na hora de produzir e ganhar mais tem de se lançar mão de tudo.

Em pleno século XXI, temos o poder de nos recusar a comprar animais inferiores ou sem informação, basta procurar os bons fornecedores de genética. Eles existem em todas as raças. Lembrando, claro, que nem tudo o que é importado é bom para a nossa pecuária. Touros estrangeiros são selecionados para trabalho em seus países de origem, com realidades e necessidades às vezes diferentes das nossas.

Aos poucos, a bovinocultura vai deixando de ser símbolo de status e passa a ser negócio. Quando toda a cadeia tiver essa percepção, os programas de cruzamentos bem conduzidos e bem avaliados serão a grande base da produção.

*Gabriela Giacomini é zootecnista, gerente de operações do Programa Montana e trabalha há 12 anos com populações de bovinos compostos – [email protected]

Esta reportagem foi escolhida pelo leitor da Revista AG, que votou por meio da Newsletter Agronews. Aproveite agora e escolha entre as três reportagens que estão em votação a que você prefere ver estampada nas páginas de nossa revista. Caso ainda não receba a newsletter, cadastre-se no site www.revistaag.com.br