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Gestão é o melhor adubo

Processos de recuperação e renovação podem reduzir as estatísticas de degradação dos pastos, mas nada garante tanto vigor às plantas e ao solo quanto um planejamento bem feito

Romualdo Venâncio

Cada vez mais a medida de eficiência da pecuária nacional tem sido a produtividade por área, e não apenas por animal. No caso da produção a pasto, por exemplo, quanto mais arrobas o pecuarista conseguir contabilizar em um mesmo piquete, mais expressivo tende a ser o desempenho de sua atividade como um todo. Entretanto, essa equação tem fatores que devem ser mantidos em perfeito equilíbrio para que o resultado seja positivo a curto, médio e longo prazos. O mesmo primor com o qual o fazendeiro trata do melhoramento genético de seu criatório, por exemplo, deve ser aplicado aos cuidados com a fertilidade de suas terras e do capim que planta nesse solo. Qualquer imprudência na gestão desses itens pode significar perdas em diversas proporções, algumas até irreparáveis. A degradação das pastagens é uma delas.

"O bom produtor de boi é aquele que trabalha bem a fertilidade da terra. Simples assim!", define o engenheiro- -agrônomo Paulo Araripe, consultor na empresa Boviplan Consultoria Agropecuária Ltda. (Piracicaba/SP). "O pecuarista brasileiro deve entender que, para obter sucesso produtivo e financeiro na atividade pecuária, precisa ser produtor de capim. E para isso é necessário conhecer o potencial do solo", acrescenta o especialista. Além das características das terras, Araripe diz ser indispensável o conhecimento sobre o manejo das forrageiras e a fisiologia das plantas. "São preocupações de suma importância que passam despercebidas pelos pecuaristas e levam a um colapso do processo de desenvolvimento dos pastos", analisa.

Quando se chega a tal situação e a pastagem entra em degradação, pode ser inevitável iniciar um processo de renovação ou de recuperação do pasto, dependendo do estágio dos danos. O entendimento quanto a esses manejos corretivos não é uma unanimidade. Mas, de maneira geral, a renovação consiste na substituição das plantas sem o revolvimento do solo. Pode ser feita pela mesma espécie de forrageira, caso não haja qualquer restrição, ou com a troca por uma espécie que tenha melhor desempenho. A renovação gera resultados mais rápidos, com menor custo e não exige a retirada do gado para que seja realizada.

No caso da reforma, a nova pastagem só é plantada após os procedimentos corretivos em relação ao solo, como aragem e gradeamento. Para a engenheira agrônoma e pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos/SP), Patrícia Menezes Santos, dependendo do nível de degradação, a questão deixa de ser apenas da fazenda e passa a ser da região. "A escala do problema muda sua configuração, sobretudo pelo impacto no meio ambiente", comenta.

Para Paulo Araripe, uma produção mais intensiva já permite trabalhar com 2,5 UA/ha e ganho de peso superior a 600 g/animal/dia

Em relação ao tipo de pasto, não há muita diferença. As distinções ficam mais por conta da forma como serão conduzidos os procedimentos corretivos da pastagem, a exemplo das adubações. É o que explica Araripe: "Se reformamos os pastos, com revolvimento do solo e eliminação da pastagem anterior, temos a chance de fazer uma correção mais profunda para a nova implantação, o que é o método ideal para a correção dos níveis de fertilidade do solo. Agora, se estamos trabalhando com pastagens nativas e não queremos revolver o solo, a adubação de correção não surtirá muito efeito e ela terá que ser programada de outro jeito, com modificações drásticas no desempenho da pastagem".

Degradação

"O pasto que produz menos do que determinado índice de desempenho é considerado em processo de degradação", explica a pesquisadora da Embrapa. Porém, Patrícia acrescenta que o tal índice pode ser diferente para fazendas que estão em uma mesma região, devido aos muitos itens que influenciam tal definição. "Tudo depende do sistema de produção e das características da fazenda", observa. Também são múltiplos os fatores que favorecem a degradação das pastagens: pode haver falha de manejo, com áreas super pastejadas; solo com problemas de drenagem; escolha inadequada da forrageira; pasto mal implantado; entre outros.

Por mais diversas que sejam as causas da degradação, em sua maioria, apresentam um ponto em comum: podem ser controladas. Teoricamente, seria uma vantagem para os pecuaristas, mas é exatamente aí que reside a origem da maior parte dos enganos cometidos em relação ao manejo de pastagens. "A gestão costuma ser o 'calcanhar de Aquiles' do pecuarista. Falta planejamento estratégico e visão de longo prazo e perde-se o foco com facilidade. É comum o produtor mudar de opções com frequência, seguindo modismos em busca de alguma solução milagrosa", alerta o zootecnista e fundador da Consupec – Consultoria e Planejamento Pecuário, Adilson de Paula Almeida Aguiar.

Segundo Adilson Aguiar, a relação entre os nutrientes é ao mesmo tempo sinérgica e antagônica, necessitando orientação

Para Aguiar, que também é professor da Fazu, em Uberaba/MG, trata- -se de uma postura antiga que vem mudando, inclusive pela pressão das cobranças ambientais, mercadológicas e ligadas à produtividade e rentabilidade. Não por acaso, ressalta a importância de o pecuarista contar com a assistência de profissionais capacitados para tomar as melhores decisões. "Ainda que o fazendeiro tenha conhecimento técnico, há muita informação envolvida. Com a assessoria correta, poderá evitar falhas como a opção inapropriada da espécie forrageira, definição errada da quantidade de sementes, falta de adubação e muitas outras", destaca.

A falta de planejamento leva o pecuarista a extrapolar o uso das pastagens nos dois extremos. Além de manter lotações elevadas nos piquetes, acima do potencial de produção das forrageiras, ainda deixa de repor nutrientes para o solo. O superpastejo por longos períodos enfraquece as plantas a tal ponto que perdem a capacidade de rebrota e de voltar a fornecer massa para a mesma carga animal. "Dessa forma, a cada pastejo ocorre uma sensível diminuição na produção de capim. Somada à ausência da reposição de nutrientes, o colapso do sistema é iminente e rápido", adverte Araripe. De acordo com o agrônomo, sem uma quantidade mínima de folhas remanescentes após o pastejo, as plantas não conseguem realizar a fotossíntese para renovar reservas.

Quando se fala em degradação de pastagens, diagnóstico é uma das etapas mais importantes, e depende de avaliações técnicas do cenário como um todo. Araripe sugere algumas questões iniciais com base em duas referências que julga primordiais. A primeira refere-se às plantas: "Ainda existem plantas forrageiras na gleba em questão? Em que porcentagem de ocupação do solo? Como está a presença de plantas daninhas?". Já a segunda está mais relacionada às condições da terra. "Como está a fertilidade do solo? Ele é ácido? Tem alumínio?", completa o consultor. As respostas para todas essas perguntas vêm de uma avaliação mais profunda da área, com investigação da fertilidade do solo a partir de amostragens coletadas corretamente e análises químicas e laboratoriais. "É importante esclarecer que os nutrientes têm relações sinérgicas e antagônicas, porém, quando as adubações são feitas criteriosamente, essas relações são benéficas, com um nutriente potencializando a resposta de outro", lembra Aguiar.

Patrícia Menezes informa que, dependendo do nível de degradação, a questão deixa de ser apenas da fazenda e passa a ser da região

Análise econômica

Esse é um ponto crucial em grande parte das decisões tomadas pelos pecuaristas, e mais uma vez o planejamento é essencial. Sem ele, crescem os riscos de se tomar medidas imediatistas, que acarretam prejuízos na produtividade e no bolso. A análise econômica é tão importante para o pecuarista definir se renova ou reforma sua pastagem quanto para se programar o retorno financeiro esperado da atividade. Vale acrescentar que a pecuária de corte brasileira é baseada em economia de escala e, portanto, quanto mais eficiência em produzir capim e mais cabeças de gado na mesma área, melhor será a rentabilidade. "Dentro desse contexto, trabalhar com pastagens degradadas é ir na contramão do que preconizam as leis de mercado", avalia Araripe.

O consultor da Boviplan destaca que o caminho da pecuária de corte é a intensificação. "Pecuária que trabalha, em média, acima de 1,5 unidade animal (UA) por hectare por ano tem melhores condições de competir economicamente com outras atividades", afirma. E salienta que não basta investir em manejo de pastagem sem uma renovação de conceitos sobre a atividade e seus gargalos. "O insumo mais barato e que apresenta a melhor relação custo/benefício é a informação", acrescenta. Para ele, a aplicação pura e simples de recursos em plantio e manutenção de forrageira, sem uma análise econômica mais abrangente e profunda quanto aos investimentos e ao retorno financeiro, é uma medida para curto prazo.

Apesar da abrangência e das minúcias de um gerenciamento financeiro na pecuária, Araripe compara duas situações hipotéticas, mas possíveis, para enfatizar a relevância dessa gestão. Na primeira, o especialista considera uma situação na qual a pecuária é desenvolvida em pastagem degradada com lotação de 1,0 UA por hectare durante o ano e o ganho de peso diário por cabeça é em torno de 350 gramas. "A produção anual será de 4,27 arrobas de carne por hectare a 50% de rendimento de carcaça", calcula.

Pecuaristas começam a investir mais na pastagem, em destaque régua de manejo, que controla pressão de pastejo

No segundo modelo, a produção é mais intensiva. A atividade é baseada em conhecimento dos mecanismos que realmente traduzem investimento em produção, o que permite trabalhar com taxas de lotação de 2,5 UA por hectare/ano com ganho de peso por volta de 650 gramas animal/dia. "Com essa situação, teremos uma produção de carne da ordem de 19,77 arrobas a 50% de rendimento. Isso resulta em quase cinco vezes mais produção. Portanto, a conta que se deve fazer é o quanto se está deixando de ganhar e, ainda, questionar se conduzir pecuária em pastagem degradada paga as contas. Acredito que não!", declara o agrônomo.

Falando especificamente da planilha de custos para o manejo corretivo das pastagens, deve-se levar em consideração insumos como calcário, gesso, fontes de fósforo, potássio e nitrogênio, que podem representar mais de 50% dos investimentos. Também entram nos cálculos as despesas com maquinário, operações agrícolas (diesel, manutenção, peças, etc.), mão de obra e sementes. "O pecuarista não deve economizar neste último item, pensando em baratear a operação. Até porque é o insumo mais barato dessa lista", comenta Araripe.

Fatores integrados

Tão importante quanto conhecer os fatores que compõem a atividade pecuária é saber como agem em relação aos demais, como é sua integração. A fisiologia das plantas forrageiras, por exemplo, sofre variações de acordo com as condições de clima e solo. A identificação dessas características deve ocorrer antes do início da implantação de novas pastagens. É preciso ter dados sobre quantidade de chuva naquela região, qual é a temperatura média no verão, se faz muito frio no inverno, entre outros.

"Há regiões no Brasil em que a variação da produção ano a ano por conta de fatores climáticos é maior, então o pecuarista precisa estar preparado para tal situação, ter um plano B", recomenda Patrícia Menezes, da Embrapa. A prática de vedação de pasto é uma possibilidade, dependendo do planejamento do pecuaristas. "É um manejo bastante utilizado e relativamente simples. O produtor fecha alguns pastos no final das chuvas e faz um estoque de pastagem", explica a pesquisadora. No entanto, deve- -se lembrar que, para conseguir vedar algum pasto no verão, é necessário ter condições de distribuir o rebanho pelo restante da fazenda.

As forrageiras também vão enfrentar desafios como plantas invasoras e pragas, que podem ser de fácil ou difícil controle. Essa é outra informação importante para avaliar a integração entre o capim e o ambiente e projetar os índices de produtividade, seja da pastagem ou do rebanho. "Na verdade, apenas a fisiologia das plantas forrageiras é comum às diversas regiões do País, pois isso é genético. Já as variáveis que as influenciam, essas são diferentes em cada lugar e devem ser monitoradas e controladas para o melhor desempenho", explica Paulo Araripe, da Boviplan.

Há ainda outro fator tão ou mais impactante do que todos os já citados que é a atuação do homem em relação aos recursos naturais. Os efeitos podem ser surpreendentemente positivos, ou não, dependendo de como se lida com a questão da sustentabilidade. "Ser sustentável em pecuária significa desenvolver uma atividade economicamente viável, socialmente justa, ambientalmente correta e culturalmente aceita. A degradação acaba por exigir que mais terras sejam exploradas para que tenhamos a mesma pecuária. Ao evitá-la, incrementamos nossos sistemas pecuários e abrimos áreas para reflorestamento", analisa Araripe. E completa: "Por outro lado, de nada adianta sermos corretos do ponto de vista ambiental, se nossa atividade é inviável do ponto de vista econômico". Equilíbrio parece ser a palavra que melhor define a conexão entre todos esses fatores.

Nas próximas páginas, o leitor terá acesso a mais informações sobre a importância da diversificação de pastagens e os cuidados na escolha das sementes forrageiras. Fatores como qualidade são primordiais para o sucesso na produção de massa verde, bem como a necessidade de saber as opções mais interessantes para a integração lavoura-pecuária (ILP) ou lavoura-pecuária-floresta (ILPF).


Informações ajudam a planejar o manejo de pastagens

A Embrapa Satélite e Monitoramento (Campinas/SP) desenvolveu um projeto que ajuda a identificar áreas com pastagens degradadas em todo o País. Trata-se do GeoDegrade, um sistema de custo reduzido que utiliza tecnologias geoespaciais e oferece maior precisão e agilidade no planejamento da recuperação das pastagens danificadas. Para conhecer o sistema, basta acessar o site www.geodegrade. cnpm.embrapa.br.

Outra contribuição da Embrapa na questão do planejamento de pastagens é o sistema chamado de "Cenários Agrícolas Futuros para Forrageiras Tropicais", que apresenta simulações para o cultivo de cinco culturas – capim-braquiarão, capim-tanzânia, palma forrageira, capim- -bufel e azevém anual – considerando cenários com altas e baixas emissões de gases de efeito estufa em três períodos distintos (atual e nos anos de 2025 e 2055). Essas informações devem servir como subsídio para produtores e técnicos na elaboração do planejamento estratégico da exploração pecuária e também para a elaboração de políticas públicas, inclusive relacionadas à preservação de recursos naturais. O sistema está disponível gratuitamente na Internet pelo endereço scafforragem.cppse.embrapa.br.


A hora é de repensar o MONOCULTIVO

Diversificação de pastagens aumenta produtividade do rebanho, ajuda controlar pragas e fixa nutrientes no solo

Adilson Rodrigues
[email protected]

Há tempos a Embrapa insiste para que os pecuaristas adotem a diversificação de pastagens. A preocupação é justificável e pode ser interessante economicamente. No Mato Grosso, por exemplo, a morte da braquiária ainda causa grande dor de cabeça a milhares de produtores, bem como a cigarrinha, praga que causaria menos prejuízos alternando-se cultivares mais resistentes a ela. Se por um lado pode requerer algum investimento, por outro, retornaria com áreas recuperadas, maior quantidade de massa verde e um gado mais pesado ao abate.

A Embrapa Pecuária de Corte orienta para que os pesquisadores plantem diferentes tipos de capins, segundo a qualidade de solo de cada área da propriedade. Faz todo o sentido, considerando que uma fazenda pode não ter apenas um tipo de terreno ou uma categoria animal específica e, ainda raramente, um único objetivo de produção. Outra frente de pesquisadores sugere também a mescla de forrageiras ou até o cultivo simultâneo de leguminosas que poderiam alavancar o ganho de peso dos bovinos em 20%. No consórcio de capins, poderia-se alternar plantas de rápido estabelecimento com outras mais tardias.

A escolha dos pastos acompanharia a qualidade do solo. Onde a fertilidade é maior, seriam colocadas as forrageiras mais exigentes; caso do Panicum maximum (coloniões) e dos Cynodons (tiftons). Além disso, para locais com drenagem ineficiente existe a opção da Brachiaria humidicola. O interessante da diversificação também é a possibilidade de se explorar o florescimento diferenciado das cultivares para fornecê-las às categorias animais mais exigentes. "É possível rotacionar os bovinos em engorda ou em final de gestação entre os pastos não florescidos – que possuem melhor valor nutritivo – enquanto os demais se alimentariam daqueles em florescimento", explica a pesquisadora da Embrapa de Corte.

B. decumbens e B. brizantha BRS Paiaguás florescem em dezembro, logo depois é a vez da BRS Piatã, em janeiro e fevereiro; cv. Marandu em março e a cv. Xaraés em maio. "Monocultivos expõem o sistema de produção a todos os imprevistos, desde climáticos a pragas, deixando o produtor sem alternativa. Por isso insistimos na diversificação", alerta Cacilda Borges do Valle, pesquisadora da Embrapa Gado de Corte (Campo Grande/MS). O engenheiro-agrônomo, consultor e professor aposentado Jurandir Melado reforça que a diversificação favorece o desenvolvimento dos inimigos naturais das pragas, potencializando o controle biológico, além de levar ao uso de capins não atacados pelas cigarrinhas.

O controle de cupins também é um benefício extra. "Os cupins estão sempre associados a um desequilíbrio ambiental e, com toda certeza, a incidência será tão menos significativa quanto mais a pastagem imitar um ambiente natural", atesta o professor e consultor. E as vantagens não param por aí, os efeitos recaem também sobre o controle de parasitas. "Há mais de 15 anos não aplicamos nenhum tipo de vermífugo no nosso gado", informa o professor Jurandir, que também é criador de gado. Em pastagem diversificada, ele segue os conceitos do sistema de pastejo Voisin, cujo gado é trocado de piquete a cada 40 dias, quebrando o ciclo de vida dos vermes. Soma-se o fato de a pastagem dele ser formada sem a supressão do cerrado nativo, onde o gado consome uma grande variedade de plantas nativas, muitas da quais com efeitos terapêuticos.

Jurandir Melado chama a atenção também para o consórcio com leguminosas

Mas, não existe fórmula mágica. A diversificação implica em planejamento e tecnificação da propriedade, como a adoção de análises periódicas de solo. "Ainda trabalhamos para calcular os gastos, mas, posso afirmar, não é nada astronômico. A diversificação é menos onerosa que uma reforma de pastagem completa", garante o agrônomo. O pasto para ser perene precisa receber de volta, no mínimo, os nutrientes que foram retirados dele na produção de carne ou leite. Dependendo do sistema adotado, até a reforma de pastagem pode ser descartada. "Com o manejo sustentável, com base no Pastoreio Racional Voisin, a reforma das pastagens nunca é necessária", garante Jurandir Melado. Para ele, o maior exemplo é a Fazenda Conquista, em Bagé/RS, da família Rossell Romero, que possui pastagens manejadas com Voisin há 50 anos, sem a necessidade de qualquer reforma.

Evitar a monocultura de pastagens melhora a ocupação da área produtiva. Capins cespitosos, como tanzânia, mombaça ou andropogon tendem a deixar parte do solo descoberto, mas quando diversificados com as leguminosas calopogônio, amendoim forrageiro ou mesmo gramíneas estoloníferas (grama estrela africana ou tifton), promove-se uma melhor utilização do solo e, consequentemente, uma maior produção de forragem, além de proporcionar um controle razoável da erosão laminar. O criador também pode optar por trabalhar o conceito multiestrato, acrescentando os "andares" arbustivo e arbóreo à pastagem, permitindo melhor aproveitamento da radiação solar e criando quebra-ventos.

O aumento da biodiversidade que ocorre acima do solo reflete no subterrâneo, potencializa a fertilidade com a disponibilização de nutrientes antes pouco acessíveis ao capim e sua transferência para o gado. Nessa mesma linha de raciocínio, existem plantas com capacidade de extrair elementos importantes, como é o caso da Tithonia diversifolia (botão de ouro ou margaridão), que consegue disponibilizar fósforo, e outras capazes de absorver elementos existentes na atmosfera, como as leguminosas ao fixar Nitrogênio. "Conheço poucas pesquisas sobre diversificação de pastagens e apenas relacionadas com o consórcio com leguminosas. Alguns resultados já encontrados mostram um acréscimo de 20% no ganho de peso por hectare no consórcio de pastagem com o Estilosantes", afirma Jurandir Melado.

Quem chegou próximo a uma resposta foi o Centro para la Investigación en Sistemas Sostenibles de Producción Agropecuaria de Colombia (Cipav), que apresentou resultados muito interessantes no denominado Sistema Silvopastoril Intensivo (SSPI), que faz uso intenso da diversificação das pastagens. Em uma comparação realizada na região do Caribe seco da Colômbia, obteve-se uma carga animal de 3,9 UA/ ha e uma produção de leite de 16,1 kg/ ha/dia no SSPI contra uma carga animal de 0,9 UA/ha e a produção de leite de 3,2 kg/ha/dia no sistema extensivo tradicional. Aliás, o aumento da carga animal é o maior benefício da diversificação de pastagens.

Normalmente, as sementes mais baratas do mercado são as piores escolhas

Agora, por onde começar? Como todos sabem, não existe uma receita única para todas as realidades. As diferentes regiões do Brasil possuem grandes variações internas, mas a boa notícia é que há pontos de partida. O melhor capim é aquele comprovadamente adaptado às condições climáticas da propriedade e manejado apropriadamente. Dessa forma, veja no mapa a seguir alguns capins que podem ser usados para começar o trabalho.

Centro Oeste – B. brizantha , B. humidícola, andropógon (A. gayanus) e capim pojuca (Paspalum atratum Sw.) são boas opções para o Cerrado, que podem ser consorciados com leguminosas estilosantes (Estylosanthes capitata e Estylosantes Macrocephala) e calopogônio (Calopogonium muconoides).

Norte, continuam os capins Brachiaria, acrescentando mombaça e tanzânia (variedades do Panicum maximum), estrela africana (Cinodon dactylon), o tifton (Cynodon spp) e as leguminosas colopogônio, puerária e amendoin forrageiro.

No Rio grande do Sul, os mais usados são o trio maravilha, formado pelo trevo branco (Trifolium repens L.), o cornichão (Lotus corniculatus L.) e o azevém (Lorium multiflorum Lam.)

Escolha das sementes

Saber qual semente usar ao estabelecer o pasto é importante para atender os objetivos traçados. Hoje, muito se ouve em relação à integração lavoura-pecuária (ILP) e à integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), o que pode interferir diretamente na escolha da semente que será utilizada. A ILP exige pasto durante todos os dias do ano. Dentro dessa premissa, todos os cultivares de capim têm utilidade, incluindo a aveia e o milheto, principalmente em consórcio com uma forrageira perene, seja ela braquiária ou panicum. Hoje, a menos utilizada na pecuária tradicional é Brachiaria ruziziensis, porém, alguns agricultores apostam nela após a colheita de soja, entre fevereiro e março, direcionando- a ao pastejo de maio a setembro e retornando com a soja em outubro.

A Brachiaria decumbens ainda é utilizada, principalmente, nos solos de baixa fertilidade, mesmo assim, quando em ILP, cede espaço para a B. brizantha, com destaque aos cultivares Xaraés e Piatã. A escolha do Xarés deve-se ao fato de crescer melhor no período de seca. Marandu predomina nas pastagens convencionais e é um bom capim para integração, segundo a Embrapa Agropecuária Oeste (Dourados/MS). Dentre os cultivares de Panicum, pode-se destacar a mombaça, por ter rápido crescimento; a Aruana, por se adaptar melhor em regiões de temperaturas amenas, e o Zuri, recentemente lançado pela instituição. Todos esses capins podem servir também para a ILPF, desde que com baixa densidade arbórea, entre 30% e 50 % de sombra.

"O sombreamento eleva as taxas de alongamento de folhas e colmos, assim como aumenta o comprimento final das lâminas foliares. No entanto, maiores cuidados devem ser tomados no período de menor incidência de luz, no sentido de ajustar a lotação animal, evitando a degradação de pastagem ou a diminuição de ganho de peso dos animais", lembra Gessí Ceccon, pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste. Quando em ILP, a melhor época de plantio é depois de uma colheita de verão, normalmente a soja. O grão proporciona bom retorno econômico e facilita a uniformização do terreno para semeadura no final do período chuvoso, fazendo com que a forrageira se estabeleça melhor, obrigando as raízes a crescerem em profundidade e estarem mais preparadas para suportar períodos de seca, ocasiões nas quais faltaria pasto no manejo convencional.

As sementes incrustadas têm menor quantidade de sementes por peso, o que facilita a distribuição em pequenas quantidades, como é necessário no caso do consórcio com milho. As semeadoras de milho e soja poderiam ser utilizadas para o capim – com pequenas adaptações –, mas o processo ocorre mais fácil com a incrustada, desde que o revestimento proporcione pelotas uniformes e não se desprenda facilmente das mesmas. "Atualmente, existe semente incrustada de alta qualidade, o que torna possível a inserção de um inseticida para controle de lagartas e outros insetos", destaca o pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste. De acordo com ele, as sementes incrustadas apresentam melhor custo- -benefício quando utilizadas em pequenas quantidades e desde que apresentem altíssima pureza e germinação.

O cuidado maior deve ser em relação à pirataria, pois se usa desde spray a cola para falsificar o revestimento. "Para evitar a aquisição de sementes de baixa qualidade, é importante que o pecuarista ou agricultor exija que o vendedor lhe forneça amostras e faça testes de pureza e germinação, além de exigir que a compra seja certificada por um órgão competente", alerta Ceccon. Mais informações sobre esse protocolo podem ser obtidas na Associação Brasileira de Sementes e Mudas (www.abrasem.com.br). O resultado final do produto pirata será a menor quantidade de pastagem e a inserção de pragas e plantas invasoras onde deveria existir um pasto verde e produtivo. "Produtos piratas podem conter baixa germinação e muitas impurezas, como sementes de plantas daninhas e pragas, o que significa maior custo para eliminar essas infestações da lavoura posteriormente", adverte Ceccon.

Além da questão da pirataria, o especialista afirma que o principal erro do pecuarista é sempre a opção mais barata do mercado. Normalmente, é a pior de todas e culmina na má formação do pasto. É importante, durante o processo de implantação, observar a necessidade de aplicação de inseticida para eliminar lagartas que comam plantas recém-emergidas. E no decorrer do crescimento do capim, é importante ajustar a quantidade de animais por área para mantê-lo em condições de fornecer folhas suficientes para alimentar os animais e, assim, obter maior lucro na atividade pecuária. "É importante escolher a cultivar mais adaptada à região e à fertilidade do solo, visto que aruana se adapta melhor ao clima ameno e massai em clima quente, por exemplo", explica o pesquisador, que preconiza o uso dos mesmos equipamentos utilizados na semeadura das culturas anuais.

Para Cacilda do Valle, os monocultivos expõem o sistema de produção a todos os tipos de imprevistos

Muitos pecuaristas optam por distribuir as sementes com avião ou outro equipamento, deixando-as apenas sobre a superfície do solo, que, neste caso, gera uma demanda maior. "As sementes precisam ser incorporadas ao solo para que sua germinação e emergência sejam maximizadas", explica. Em regra, um espaçamento de 40 cm entre linhas é suficiente para formação da pastagem, mas pode ser menor. Em relação à quantidade necessária de sementes, vai depender do grau de pureza, germinação e peso. Mas, de maneira geral, entre 2 e 3 kg/ha são suficientes para a formação de uma boa pastagem. Hoje, a Brachiaria brizantha cv. Marandu, também conhecida apenas por marandu ou braquiarão, tem a preferência nacional dos pecuaristas brasileiros, mas existem outros cultivares do próprio gênero Brachiaria capazes de gerar ótimos resultados econômicos, possibilitando a diversificação e os benefícios que ela gera.