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SANIDADE levada a sério

Especialistas afirmam que muitos pecuaristas necessitam realmente mudar de atitude quando a questão é a saúde do rebanho e do consumidor

Luiz H. Pitombo

A sensível área da sanidade animal por vezes prega sustos como o recém-registrado caso atípico de EEB (Encefalopatia Espongiforme Bovina, a chamada “vaca louca”) no estado do Mato Grosso ou avança para perdas econômicas mais sérias. Em 2011, frigoríficos brasileiros tiveram mais de US$ 100 milhões de prejuízo nas exportações por rejeição de carne bovina com a presença de resíduos de antiparasitários à base de ivermectina acima dos limites tolerados pelas autoridades norte-americanas.

Questões que se relacionam a este último aspecto, além de várias outras, foram identificadas em pesquisa de campo que diagnosticou a situação das práticas sanitárias adotadas em 21 propriedades de pecuária de corte de quatro estados (SP, MT, MS e RO). Dentre elas estão a falta de assistência técnica, o uso de produtos de maneira indiscriminada e em grande parte escolhidos pelo próprio funcionário ou pecuarista, pouca utilização do diagnóstico laboratorial e deficiência na comunicação de ocorrências sanitárias nas propriedades, gerando dados de vigilância abaixo da realidade.

O estudo, divulgado em 2012, foi realizado pelos médicos-veterinários Fabrine Pereira e Iveraldo dos Santos Dutra, ambos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Araçatuba/ SP, que apontaram outra questão importante, que é a resistência de certos produtores às mudanças, inovações e novas opiniões, provavelmente por estarem há muitos anos na atividade e julgarem ter bom resultado, como avaliam. Ao final, a conclusão da pesquisa é de que, apesar dos grandes avanços em indicadores produtivos e sanitários, “ainda são necessários entendimentos e atitudes dos produtores quanto ao manejo sanitário, controle de risco, saúde animal, meio ambiente, gestão de pessoas e qualidade da carne como alimento”. Estas mudanças dependem, como reconhecem os pesquisadores, antes de qualquer coisa, dos próprios serviços de saúde animal, da ação governamental e do investimento em treinamento de pessoal.

A também médica-veterinária Paula de Almeida Miranda, responsável pela sanidade do rebanho da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS, reforça várias das posições destes pesquisadores e acrescenta que “a adoção das práticas sanitárias adequadas nas propriedades rurais torna-se imprescindível para que o País se firme como grande exportador de carne saudável e de qualidade”, salienta.

Algumas das melhorias que têm sido constatadas, como cita a veterinária, se relacionam à febre aftosa, enfermidade que está entre as que mais trazem impacto à saúde animal e ao mercado. No segundo semestre do ano passado, a cobertura vacinal divulgada pelo Ministério da Agricultura (Mapa) no País foi a de 99,51%, percentual que diz mostrar o envolvimento atual do produtor no combate a essa doença. Outra situação que igualmente demonstra uma melhor atuação do pecuarista, como observa, é quanto à vacinação contra o carbúnculo sintomático, doença do grupo das clostridioses e que embora não seja de imunização obrigatória como a doença anterior, foi adotada pela totalidade das fazendas da pesquisa.

Segundo Paula de Almeida, a adoção de práticas sanitárias adequadas torna-se imprescindível ao País

Um bom exemplo de manejo sanitário de qualidade pode ser constatado, entre muitos outros criatórios, na Wolf Agricultura e Pecuária, localizada em Dom Pedrito/RS, e que está detalhado nesta reportagem. Com rebanho puro de seleção e outro comercial, tem enfrentado o desafio do controle do carrapato e participa de pesquisa para a identificação de marcadores moleculares que possam ajudar no controle do parasita.

ORGANIZAÇÃO DO MANEJO

Uma prática para aprimorar o manejo dos animais é através de um calendário sanitário com atividades programadas por categoria. Para isso, a sugestão feita por Paula é que o pecuarista comece por implantar gradativamente uma estação de monta na propriedade. Por si só, ela já trará ganhos, por exemplo, pelo descarte de fêmeas improdutivas, mas também por redução na taxa de mortalidade dos bezerros e aumento no número dos desmamados pela melhor organização das atividades sanitárias, como enfatiza.

No chamado Brasil Central, diz que o período mais recomendado para que a estação de monta fique estabelecida ao seu final vai de novembro até janeiro. Isso irá permitir que os nascimentos se concentrem entre agosto e outubro, período seco do ano, quando a incidência de carrapatos, miíases e verminoses é menor. Por outro lado, lembra que a fase de maior exigência nutricional das vacas é no terço inicial da gestação, o que irá coincidir com o início das chuvas e assim com o aumento da oferta de forragem. A boa condição corporal da matriz fica melhor garantida.

Aplicação de produto para controle da bicheira

Especial atenção deve ser dada em relação às doenças da esfera reprodutiva, como brucelose, leptospirose, diarreia bovina a vírus (BVD), rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR), campilobacteriose e triconomose. A veterinária sugere que se faça o diagnóstico dessas doenças, principalmente quanto à brucelose, para que as vacas positivas sejam descartadas, evitando-se a contaminação das demais. Em função de particularidades de cada fazenda, a indicação inicial que dá é que se busque orientação técnica para avaliação da necessidade e o custo/benefício de se implantar um programa de vacinação para essas várias enfermidades. A veterinária lembra que o calendário de manejo sanitário deverá conter as vacinas obrigatórias, que, além da contra febre aftosa e brucelose, pode também contemplar a de raiva em municípios endêmicos.

Quando da aquisição de animais, sugere a verificação de alguns aspectos a depender de cada categoria. No caso de bezerros desmamados, diz que é preciso saber se já foram vacinados contra clostridioses, cuja primeira dose pode ser dada aos quatro meses de idade, com reforço em 30 dias. Em relação à compra de bois magros, deve-se também estar atento a este mesmo tipo de imunização e, se ela não tiver sido realizada na propriedade de origem, o reforço anual deverá ocorrer no local de destino.

Caso sejam bezerras, explica que a própria agência de defesa estadual só emitirá a Guia de Trânsito Animal (GTA) caso estas já tenham registro de vacinação contra brucelose, que acontece entre três e oito meses de idade, como indica o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e da Tuberculose Animal (PNCEBT). Para machos e fêmeas destinados à reprodução, esses também somente terão GTA com atestado negativo para brucelose e tuberculose. Assim, a correta documentação é sinal de boa prevenção.

QUARENTENA, ÁGUA E CARCAÇAS

Atualmente, segundo Paula, a quarentena de animais é prática corriqueira e obrigatória apenas em propriedades monitoradas e controladas para brucelose e tuberculose, de acordo com plano instituído pelo PNCEBT. No caso de compra de animais, antes da introdução no rebanho, eles já devem ter sido testados na origem e mais uma vez logo após a entrada no quarentenário da fazenda de criação, respeitando-se o intervalo mínimo de 60 dias entre os testes. A veterinária recomenda a aquisição de animais de propriedades livres, salientando que o risco de infecção é menor em rebanhos fechados.

A qualidade da água é outro ponto crítico, principalmente nos rebanhos de cria, pois diz que sua contaminação pode determinar o surgimento de surtos de diarreia nos bezerros. Por outro lado, aponta que a entrada de animais nas fontes de água (açudes ou represas) pode resultar em surtos de leptospirose, caso um animal portador urine e contamine a água do lote.

Quando do uso de bebedouros (pilhetas), indica que estes devem ser esvaziados para limpeza periodicamente para evitar a formação de lodo, uma vez que a presença de matéria orgânica favorece o desenvolvimento de micro-organismos indesejados. Já em relação aos cochos de sal mineral, é preciso evitar a formação de lama e acúmulo de água ao seu redor, pois algumas categorias animais, como os bezerros, se acostumam a beber água empoçada pela facilidade, o que os predispõe a diarreias por protozoários (coccidioses).

Em locais onde carcaças de animais mortos são equivocadamente deixadas a campo, a lixiviação e a sua decomposição dentro de fontes de água pode determinar a ocorrência de botulismo, clostridiose que é uma das principais causas de morte de bovinos no País. Inexiste uma legislação específica no Brasil quanto ao destino das carcaças e os métodos disponíveis possuem seus prós e contras.

Numa recomendação ampla, a veterinária sugere que se a morte do animal for de origem desconhecida, as opções mais econômicas são a compostagem ou enterro em vala sanitária. Se houver suspeita ou diagnóstico de doença infecciosa, as alternativas recaem sobre a incineração ou a compostagem, sendo esta última a mais correta ambientalmente. Para serem bem sucedidas, as três alternativas têm regras específicas de procedimento.

VERMINOSES

Se, por ventura, um animal estiver intensamente parasitado e mal nutrido, os vermes podem até causar a morte. No entanto, com a introdução de pastagens de maior qualidade, manejo mais adequado e melhorias na nutrição, hoje os prejuízos estão mais relacionados ao menor desenvolvimento e ganho de peso, como explica o médico-veterinário João Batista Catto, também da Embrapa Gado de Corte. Independente do sexo, comenta que os bovinos são mais parasitados e os prejuízos são maiores entre o desmame até os dois anos de idade. Após essa idade, quando bem manejados, diz que não necessitam mais ser vermifugados.

Ele comenta que em sistemas mais tecnificados, voltados à produção de animais precoces e superprecoces, nos quais os bezerros, após o desmame, são confinados ou colocados em pastagem recém-formada para terminação (sistema lavoura-pecuária), o tratamento anti-helmíntico antes do desmame, aos três a cinco meses de idade, resulta numa positiva relação custo/benefício. Em sistemas de criação em que as fêmeas parem precocemente, recomenda que estas também sejam tratadas. O uso correto dos anti-helmínticos propicia ganhos de 20 kg a 40 kg de peso vivo a mais nos animais.

João Batista Catto informa que os prejuízos com parasitas são maiores entre o desmame e os dois anos de idade

Em se tratando de resistência a produtos, lembra que esta é uma característica hereditária nos parasitas e que o pecuarista deve evitá-la, usando esses medicamentos só quando forem realmente necessários, isto é, quando seu uso resulte em ganhos para o produtor. “Infelizmente, não é o que vem ocorrendo”, lamenta o veterinário. Por exemplo, diz que nos sistemas de criação superprecoce, os bovinos do nascimento até o abate deveriam ser tratados apenas duas a três vezes, no sistema precoce, de três a quatro vezes, e nos sistemas a pasto, com abate entre 30 e 34 meses, no máximo seis vezes, se a formulação não for de longa ação. A causa mais importante para o aparecimento da resistência em uma propriedade, como enfatiza, é o uso frequente e incorreto dos medicamentos.

É preciso estar atento, pois as orientações são oriundas de estudos sobre a biologia e epidemiologia dos parasitas em sistemas de criação mais predominantes nas principais áreas de criação de bovinos. Mas, como não existem dois sistemas de criação absolutamente iguais, o grau de parasitismo no rebanho e, consequentemente, o prejuízo e controle necessário são resultados de vários fatores a serem considerados, entre eles idade e raça, tipo e condução da pastagem, manejo do rebanho e nutrição.

CONTROLES SEM DISTINÇÕES

A Wolf Agricultura e Pecuária, empresa familiar localizada no Rio Grande do Sul, se destaca, dentre outros criatórios, pela qualidade do manejo sanitário que dedica a todo o seu rebanho bovino, sem distinções, quer seja o registrado Hereford como o comercial (composto por animais cruzados com predominância de sangue da raça britânica).

De bezerros a animais em terminação a pasto, são perto de 6 mil cabeças e mais 900 matrizes puras da seleção. Anualmente, seus abates giram em torno de 2 mil a 2,5 mil cabeças, com a cabeceira dos machos formada por gado próprio, sendo entregue ao frigorífico com 450 quilos de peso vivo aos 18-20 meses de idade. Também são comercializados ao ano perto de 120 reprodutores Hereford.

Com fazendas situadas na região de Dom Pedrito, extremo Sul do estado, dedica-se igualmente à criação de cavalos da raça Crioula e à produção de arroz e soja, atividades que crescem e predominam. Na propriedade-sede, a Fazenda Santa Ana, e em outras áreas arrendadas, a agricultura se integra com a pecuária, cedendo espaço no inverno para pastagens de azevém e leguminosas. As demais áreas são compostas por campos nativos utilizados no verão e, se a comida fica escassa em algum momento, por pressão da lavoura, os animais recebem suplementação no cocho.

A médica-veterinária Patrícia Guidoux Leal Wolf, esposa de Frederico Wolf, um dos sócios da empresa, é quem detém a responsabilidade técnica pela saúde dos rebanhos, contando, para isso, igualmente, com o apoio do marido e de assessoria. Também costuma manter parcerias com laboratórios veterinários, por exemplo, para o treinamento de pessoal e em aspectos técnicos, mas “procuramos ser independentes e mantemos nossa autonomia do que fazer”, comenta a veterinária.

Um aspecto importante é que pessoal das fazendas é treinado ou reciclado com certa frequência em diferentes áreas, mesmo porque podem haver mudanças nas equipes, com pessoal novo chegando. No setor de bem-estar animal, estão incluídos temas como a correta aplicação das vacinas, mas também existem treinamentos nas áreas de cuidados com os bezerros, controle da tristeza parasitária e do seu vetor, o carrapato, parasita que responde pela maior parte das preocupações do manejo sanitário das fazendas pecuárias.

Patrícia Wolf adota na propriedade quarentena e um rigoroso calendário sanitário

Outros pontos dos treinamentos estão na própria organização dos equipamentos e dos materiais utilizados no cotidiano do trabalho, incluindo as farmácias com produtos para o tratamento do gado, instaladas em cada uma das propriedades. Patrícia conta que, para abastecê-las, pesquisa e procura os melhores preços e oportunidades, mas que não vai atrás de produtos desconhecidos. Os estoques e variedades que procura manter não são elevados e são integrados basicamente por dois tipos de antibióticos, um ou dois de anti-inflamatórios, antitérmico, antitóxico, quimioterápico para tratamento da tristeza e mata-bicheiras. A médica-veterinária adota como posturas amplas do manejo sanitário a pouca interferência no dia a dia dos animais e a manutenção da menor lotação possível dos pastos nas diferentes situações, pois considera que, com as aglomerações, os problemas de saúde aumentam, tanto pelo estresse como pelo maior contágio devido à proximidade. Ela lembra que em certa ocasião passou a adotar a recria semiconfinada após a desmama dos bezerros, mas diz que a abandonou pelo aumento dos casos de pneumonia e de ceratoconjuntivite. Hoje, diz que os animais ficam soltos em potreiros amplos e enfatiza toda a atenção dispensada a uma desinfecção e cura bem feita do umbigo dos bezerros, para um bom desempenho em seus primeiros meses de vida, evitando-se problemas maiores.

SINAIS INDICATIVOS

Um dos procedimentos adotados por Patrícia para o monitoramento da saúde dos animais é realizado através do romaneio dos frigoríficos, onde avalia possíveis problemas identificados durante a inspeção no abate. Por exemplo, cita que nunca teve limitações nas carcaças por cisticercose, zoonose que acarreta, no geral, mais malefícios à saúde dos humanos do que à dos bovinos. Contudo, diz que, por vezes, é identificado o verme causador da fasciolose hepática, outra zoonose que se caracteriza por lesões no fígado dos animais. Estes, como lembra, normalmente integram lotes que permanecem nas zonas de baixada das propriedades, adotando nessas situações duas aplicações de produtos à base de albendazole nos animais.

Quanto aos bovinos adquiridos de terceiros para a engorda, diz que como são de fornecedores conhecidos têm segurança do seu bom estado de saúde, dispensando medidas como a quarentena. Nestes animais, antes de sua incorporação às propriedades, procede como rotina o banho de imersão com piretroide associado à aplicação oral de ivermectina para o controle de carrapatos e vermes, além de vacinações contra clostridioses e, especificamente, contra carbúnculo hemático.

Para os animais que são cria da propriedade, também adota como rotina a aplicação destas duas últimas vacinas como medida profilática para todo o rebanho. Já com as fêmeas em reprodução, estas também recebem vacina contra leptospirose e são seguidas as indicações oficiais de combate à brucelose com a vacinação. Seguindo o calendário obrigatório, são igualmente aplicadas as vacinas contra febre aftosa e, em função do surgimento de surtos de raiva em regiões do estado, passou a ser necessária a vacinação dos animais contra esse problema, o que não ocorria antes. Especificamente com os touros Hereford comercializados para a monta, a veterinária conta que estes também recebem vacinas contra IBR/ BVD, respectivamente, rinotraqueíte infecciosa bovina e diarréia viral bovina, que são doenças infecciosas que afetam a reprodução.

Para o controle dos vermes, em geral, todo o rebanho é tratado no mês de maio, com as vacas podendo receber mais uma ou duas dosificações com produtos de princípios ativos diferentes, dificultando o estabelecimento de resistência. Quanto à realização do exame OPG (contagem de ovos por grama de fezes) para avaliação das infestações, diz que somente o adota quando o desempenho de ganho de peso dos animais está abaixo do esperado, sugerindo algum possível problema nessa área.

Brasil avança na erradicação da febre aftosa e tenta o mesmo com Brucelose, Tuberculose e Raiva

Em relação aos diferentes tipos de mosca, Patrícia diz não enfrentar problemas com a dos estábulos, que têm afetado propriedades em outras regiões do País, nem com a vetora do berne. No entanto, a depender do ano, trazendo maior ou menor infestação, diz que poderá ser necessário o combate à mosca-dos-chifres. Também em função da intensidade da infestação, diz que o combate ao piolho poderá ser necessário no inverno, com a pulverização de todo o rebanho com produto específico em julho. “O ácaro incomoda muito os animais, que se coçam, e afeta seu desempenho”, aponta a veterinária.

Uma questão de origem metabólica que a propriedade precisa estar atenta é quanto ao timpanismo, caracterizado pela dificuldade do animal em eliminar gases acumulados no processo de fermentação ruminal. Por vezes, em algumas áreas de solo mais fértil o trevo branco se desenvolve muito, abafando outras forrageiras, fazendo com que o consumo em demasia traga o problema em função da presença da substância saponina em sua constituição. Para controlar o problema, uma alternativa que tem sido adotada é o fornecimento de ionóforos via suplementação alimentar.

CARRAPATO E MAIS PESQUISAS

Como acontece com outros produtores, Patrícia considera que os maiores desafios que enfrenta estão relacionados ao carrapato e à tristeza parasitária transmitida por ele. Pelo fato de também realizar a integração com agricultura, uma preocupação adicional importante aparece, pois a carga do parasita no campo fica menor nas terras onde ela é praticada e é necessária atenção quanto ao trânsito de animais dessas áreas para outras de campos nativos, por exemplo. “A presença do carrapato cai para praticamente zero, o animal perde sua imunidade natural e, quando volta a ter contato com o parasita, ele adoece”, explica a criadora e veterinária. Por vezes, diz que se acredita que a área esteja livre do parasita e, de repente, um animal adoece com a tristeza parasitária. Ela considera que seriam necessárias mais pesquisas em relação a todo o problema e que os estudos têm mostrado pouca evolução em auxílio ao pecuarista.

O período de maior infestação do carrapato a campo para os Wolf acontece de novembro até junho, sendo mais preocupante quando atinge as categorias jovens, pois Patrícia lembra que os adultos vão ganhando imunidade. Também aponta que não existe uma fórmula mágica de controle do parasita, pois existem alterações, por exemplo, no clima e no ambiente, e o que se fazia há uma década não funciona mais. Ela lembra que passaram por um período de três anos de seca forte, quando diminuiu a população do ácaro e se relaxou no controle. Aí veio um ano chuvoso e voltou a infestação e seus problemas.

Atualmente, a indicação básica é verificar o nível de infestação nos animais bem cedo, pelos peões mais treinados. Ao serem identificados de três a quatro carrapatos de tamanho grande, os animais são encaminhados para o banho de imersão. Para controle, a calda é analisada em laboratório duas vezes ao ano e também são feitos biocarrapatogramas, quando se verifica a eficácia da própria calda e de outros princípios ativos. A veterinária acredita que, no futuro, os banhos de imersão devem ser substituídos por outros métodos por questões ambientais e pela sujeira que se acumula na calda do tanque, reduzindo o poder dos produtos.

Já foram utilizadas algumas vacinas na propriedade, mas Patrícia conta que tem restrições, pois estas mostraram resultados diferentes e teve preocupação com relação à reação. O que conta que tem experimentado há dois anos é a premunição, com a inoculação de sangue de animais do próprio rebanho em bezerros ainda mamando ou nos desmamados até um ano. Ela conta que tem ficado muito satisfeita com os resultados desta última categoria.

Para serem doadores, os animais passam por uma bateria de exames, evitando que contaminem os animais com outras doenças (leucose, salmonelose, IBR/BVD, leptospirose, brucelose e tuberculose). Patrícia conta que uma limitação que tem encontrado é a ausência de laboratórios habilitados a analisar a carga existente ou não no sangue dos doadores de anaplasma e babésia, agentes causadores da tristeza parasitária carregados pelo carrapato. No entanto, diz que a unidade da Embrapa Pecuária Sul, em Bagé, está se estruturando para fazê-lo, o que espera que aconteça em breve.

Quando as categorias mais jovens adoecem, conta que costuma gastar com medicamentos R$ 30,00/cabeça para animais pesando cerca de 300 kg, o que avalia ser um custo bem alto, ao qual se soma à perda de peso do animal. No tratamento também estão inclusos antitérmico e protetor hepático, em função dos medicamentos.

Patrícia Wolf salienta que, através do grupo de criadores Conexão Delta G e Embrapa, participa do trabalho de validação dos marcadores moleculares para carrapato com os animais puros Hereford do rebanho. Ela conta que sabidamente existem os que acumularam uma carga bem maior que outros, dando como exemplo neste ano, quando num grupo de 30 touros houve os que não apresentavam nenhum carrapato, enquanto outros tinham 200 no corpo. É uma pesquisa bem dispendiosa, como reconhece, mas que no futuro deverá trazer resultados em seu uso.