Entrevista

Por ventos melhores

Cotação da arroba em alta, consumo da carne bovina em baixa, eleições presidenciais e Copa do Mundo. A economia brasileira, como um todo, vive um momento de apreensão e os reflexos são sentidos na pecuária brasileira. O que esperar até o fim do ano? Quem responde é José Carlos O’Farrill Vannini, pecuarista e sócio-consultor da MB Agro.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Soja, milho ou cana, qual desses produtos agrícolas será o algoz da pecuária daqui para frente?

José Carlos O’Farrill – Realmente, vai continuar o avanço da agricultura sobre as áreas de pastagem, provavelmente a soja será a cultura que vai tomar mais área da pecuária, principalmente, na região Centro-Oeste. A crise do setor sucroalcooleiro deverá reduzir os investimentos e não vemos um crescimento significativo neste setor. No entanto, o que temos observado é uma crescente integração entre os sistemas de produção, aonde a produção de grãos ajuda a intensificar a produção de carnes, seja através do suprimento de ração, seja nos sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP), que acabam elevando a produtividade e compensando a perda de área da pecuária.

Revista AG - Em relação ao consumo interno de carne bovina, o que devemos esperar até o fim do ano?

José Carlos O’Farrill – Em um cenário de baixo crescimento econômico e da renda da população, a demanda por carnes não deve crescer de maneira significativa. Além disso, a carne bovina está com os preços elevados, o que limita o consumo e favorece a substituição por carne de frango, que está com preço relativamente bem menor. Por enquanto, o consumo interno tem evoluído bem, mas é difícil ver um crescimento significativo neste contexto atual.

Revista AG - O consumo de carne bovina no Brasil se manteve alto quando se esperava queda. Há risco de acontecer o contrário?

José Carlos O’Farrill – Desde 2009, vemos uma recuperação do consumo interno de carne bovina, invertendo a queda ocorrida nos anos anteriores. Isso está muito relacionado com o aumento da oferta de carne proporcionada pelo ciclo pecuário que passamos neste período. Nossa expectativa é de que, com a virada do ciclo que estamos vivendo, será mais difícil manter um nível tão elevado de consumo, até porque os preços devem ser mais elevados e algum ajuste no consumo deve ocorrer nos próximos anos.

Revista AG - No final de 2013, havia muito entusiasmo para 2014, por ser ano de eleições e Copa do Mundo. Por que agora parece ter se tornado motivo de apreensão?

José Carlos O’Farrill – A atual situação econômica brasileira não permite um grande otimismo. O setor produtivo tem um descontentamento grande com o atual governo, além disso, os atrasos nas obras de infraestrutura, os gastos excessivos com os estádios e os indícios de corrupção transformaram a Copa em um problema para a atual gestão. Este descontentamento ficou claro nas manifestações que temos visto. Isso também trouxe grandes incertezas para o futuro, uma vez que a reeleição, apesar de ainda ser mais provável, não é mais tida como certa como há algum tempo. Toda esta situação trouxe um clima de pessimismo ao setor produtivo, que não consegue enxergar um cenário positivo para o futuro.

Revista AG - A arroba subiu a patamares históricos e a alta dos custos de produção finalmente deu uma trégua. Porém, estamos no meio do ano e isso ainda não se reflete em investimentos por parte dos pecuaristas. Você consegue explicar esse fenômeno?

José Carlos O’Farrill – Nossa avaliação é de que já estamos vivendo uma reversão no ciclo pecuário, provocada pelo aumento de preços do boi e do bezerro. Esta situação deve provocar um aumento na retenção de matrizes, que ficará mais evidente conforme os números de abate forem sendo divulgados. Infelizmente, os dados estatísticos no Brasil são precários e atrasados, por isso ainda não vimos este movimento mais claramente.

Revista AG - Acompanhamos que a arroba patinou em boa parte de 2013, entretanto já atingia e até superava margem dos R$ 100/@, inimaginada dez anos atrás, mas, mesmo assim, continuavam a investir. Por que agora não?

José Carlos O’Farrill – Acreditamos que neste ano devemos verificar uma maior retenção de matrizes e o produtor voltará a investir no aumento da produção. As condições para isso estão dadas, pois os preços dos bezerros e do boi gordo estão bastante elevados e a rentabilidade, principalmente da atividade de cria, melhorou muito

Revista AG - Muitas empresas de insumos relataram queda nas vendas, talvez uma explicação seria que o pecuarista estaria trabalhando com estoque?

José Carlos O’Farrill – Não acredito que o pecuarista tenha feito estoques significativos de insumos. Os altos preços do boi gordo e o crescimento esperado no rebanho devem fazer com que neste ano a situação esteja melhor. Neste sentido, já vemos uma recuperação nas vendas de alguns insumos, como os suplementos minerais, em relação ao ano passado.

Revista AG - Quanto ao confinamento, podemos esperar surpresas ou as intenções de confinar permanecerão nos patamares de 2013, ano de queda?

José Carlos O’Farrill – O confinador terá dificuldade de elevar o nível de confinamento com as margens atuais. Os recentes aumentos nos preços do boi magro e da ração complicaram a rentabilidade esperada, uma vez que os preços do boi gordo no mercado futuro não acompanharam estas elevações. Recentemente, observamos uma retração nos preços do milho e do farelo que podem ajudar a rentabilidade, mas, para confinar hoje, o produtor que ainda não adquiriu os animais terá de apostar na elevação da arroba na entressafra. Portanto, será uma atividade de maior risco, o que deve inibir um crescimento mais significativo no número de animais confinados.

Revista AG - Abrindo para as exportações de carne, 2014 tem tudo para repetir o sucesso de 2013?

José Carlos O’Farrill – A atual conjuntura externa favorece as exportações. A situação de escassez existente nos EUA – que tem elevado os preços da carne bovina a patamares recordes – e a fase de recuperação dos rebanhos na Austrália são muito positivas para o Brasil, pois limitam a oferta. Por outro lado, os preços internos elevados e o câmbio mais valorizado tiraram competitividade da carne brasileira em relação a outros competidores internacionais. Apesar disso, temos condições de manter um nível elevado de exportações e repetir os bons resultados observados no ano passado, principalmente se o câmbio ficar mais favorável.

Revista AG - O registro de caso atípico de Vaca Louca no Mato Grosso pode ser um fator de risco? Quando do caso do Paraná, em 2010, que veio à tona em 2012, 12 países embargaram. Até o momento quatro países já cessaram importações de carne do Brasil.

José Carlos O’Farrill – Em princípio este caso não deveria provocar grandes repercussões nos mercados de exportação, pois, ao contrário da ocorrência no Paraná, desta vez o controle exercido foi rápido e eficiente. Além disso, a ocorrência de casos atípicos de Vaca Louca não é considerada um motivo para o bloqueio dos mercados, uma vez que estes casos não estão relacionados ao consumo de ração com produtos de origem animal e acontecem espontaneamente em uma porcentagem muito pequena de animais mais velhos dos rebanhos. No entanto, alguns países bloquearam a carne do Brasil ou do estado do Mato Grosso, mas, por enquanto, não devem afetar seriamente as exportações brasileiras, especialmente porque a maior parte dos países bloqueou o produto proveniente apenas do MT e ainda existe condições para realocar os volumes exportados para outros estados.

Revista AG - Ainda em relação ao mercado externo, o acordo para venda de carne in natura brasileira vai vingar ou não? A proposta foi para consulta pública e depois nada mais se falou...

José Carlos O’Farrill – O acordo para a venda de carne bovina in natura para os Estados Unidos está sendo negociado, mas ainda não existe nenhuma definição sobre o assunto. Apesar do otimismo da indústria brasileira em relação a sua aprovação, temos sido conservadores a este respeito, uma vez que existe muita resistência dos produtores americanos. Esta negociação não será fácil.

Revista AG - Mas os estoques em baixa e seu principal fornecedor - a Austrália - ainda enfrentando os resquícios da seca os pressionam a colocar esse acordo em prática no curto prazo?

José Carlos O’Farrill – Sim, a baixa oferta de carne australiana associada à baixa produção americana ajuda na realização do acordo. O mercado de carnes dos EUA está muito pressionado, pois, além da carne bovina, a oferta de carne suína também está prejudicada pela doença PEDV – sigla em inglês para vírus da diarreia epidêmica suína – e os preços desta carne também estão muito altos. No entanto, temos de entender que o acordo visa um horizonte de tempo longo e os norte-americanos sabem que a abertura também facilitará a entrada do Brasil em outros negócios onde eles atuam como fornecedores, portanto o que está em jogo é muito mais que somente o mercado americano.

Revista AG - O registro da variante atípica da Vaca Louca pode pôr em risco também essa negociação?

José Carlos O’Farrill – Acho difícil. Os EUA tem normalmente um comportamento mais técnico na avaliação destas ocorrências, até porque eles sofreram com bloqueios a sua carne por causa da Vaca Louca e sabem que estão sujeitos ao mesmo problema que estamos passando. Um eventual bloqueio da nossa carne poderia ser usado como exemplo contra eles mesmos, numa eventual ocorrência. Na verdade, acredito que este registro da forma atípica da doença foi positiva no sentido de mostrar que temos um sistema eficiente de controle e tirar a péssima impressão que havia sido deixada na maneira como lidamos com o caso ocorrido no Paraná, quando demoramos quase um ano para confirmar que era um caso atípico de Vaca Louca.

Revista AG – Vemos o Brasil caminhando para melhorar a qualidade e agregar valor à carne bovina. Será possível realizarmos, no futuro, o antigo sonho de não negociar mais a carne bovina como commodity?

José Carlos O’Farrill – O produtor brasileiro tem condições de produzir um produto de alta qualidade, mas dificilmente recebe incentivo suficiente para produzir este tipo de produto. Por este motivo, conseguir agregar valor à carne bovina não é uma tarefa fácil e já vimos diversas tentativas frustradas neste sentido. No entanto, nos últimos anos temos visto um movimento mais forte nesta direção. A elevação da renda da população tem ajudado estas iniciativas, pois permite pagar um prêmio maior sobre o produto diferenciado. Todavia, no mercado externo, não conseguimos agregar valor. A maior parte dos países que poderiam pagar mais pela carne está fechada para o produto brasileiro. A abertura do mercado norte-americano seria um passo bastante importante neste sentido, facilitando acesso aos mercados japonês e coreano de carnes premium no futuro.

Revista AG – A verdade é que o mundo sempre vai depender da carne bovina brasileira ou a carne de búfalos da Índia é uma real ameaça a nós?

José Carlos O’Farrill – Não tenho dúvida que o mundo sempre vai precisar da carne bovina brasileira e devemos aumentar nossa participação na oferta mundial. Entretanto, a produção da Índia é uma ameaça nos mercados de carne de baixa qualidade, nos países mais pobres da África e da Ásia. O que se valoriza é o preço, pois a população tem baixo poder aquisitivo. O potencial de produção da Índia ainda é uma incógnita, mas existe muita dificuldade para que haja uma melhoria de qualidade, devido ao sistema de produção altamente pulverizado e à ocorrência de doenças endêmicas no rebanho, mas sua produção e suas exportações têm crescido consistentemente nos últimos anos e sua carne tem uma penetração grande nos mercados onde atua.