Sobrevoando

Leite

Toninho Carancho
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No Rio Grande do Sul, mais uma vez o leite é destaque nas manchetes de jornais, televisão e rádio por motivos negativos. A Polícia Federal, na operação com nome bastante criativo e sugestivo, Leite Compen$ado, flagrou novamente industriais e transportadores colocando outras substâncias no leite, tipo água oxigenada, ureia, soda cáustica, soro, etc.

Este é um problema reincidente e, o mais preocupante, parece ser bastante comum. Estas notícias vêm dos gaúchos, mas tenho a impressão que deve ser um problema nacional e de muito tempo.

Parece-me que desde o dia que chegou uma vaca leiteira por estas paragens alguém já resolveu dar uma “melhorada” no leite.

Lembro de uma história que meu pai contou sobre o que aconteceu uma vez com meu avô. Naquela época, uns 70 anos atrás, meu avô recebia o leite em garrafas de vidro entregues em casa por um carroceiro que produzia este leite numa chácara perto dali. Era leite in natura, tirado no mesmo dia e entregue o mais rápido possível. Num destes dias, meu avô achou o leite com gosto e aspecto um pouco estranhos e correu na calçada e alcançou o leiteiro. Naquele dia o leiteiro não estava fazendo a entrega e, sim, o seu filho, que ficou muito surpreso com a corrida do meu avô, um cara grande e muito alto. O diálogo foi mais ou menos o que segue.

- Menino, avisa o teu pai para não colocar mais água da sarjeta no leite!

O menino nervoso e assustado respondeu:

- Não é água da sarjeta não, é do poço. É do poço! E saiu em disparada. Ou seja, “batizar” o leite é coisa corriqueira neste nosso brasilzão. Dá pra dizer que é o normal. Infelizmente.

Quem nunca viajou para o Uruguai, Argentina, Estados Unidos ou Europa e notou que o leite deles é muito melhor que o nosso? Assim como o queijo, iogurtes e todos os derivados. As vacas são as mesmas, ou parecidas. A alimentação varia um pouco, mas não é o que faz a grande diferença.

Nós que tomamos leite direto na fazenda sabemos que um leite de vaca não tem nada a ver com o leite que tomamos da caixinha.

O da caixinha está “batizado” com todo o tipo de substância.

Chega a dar saudade da época em que o batismo era só de água do poço.

Eta brasilzão! Nós temos muito que melhorar, não só na qualidade do nosso leite e derivados, mas sim nas nossas atitudes em geral. De alguma forma, temos de deixar de lado este “gene” do infrator. Se tem leite, mete água nele. Se tem farol (semáforo, sinaleira) fechado, vamos passar mesmo assim. Se tem limite de velocidade, vamos ultrapassá- lo. Se não pode beber, bebemos mesmo assim. Se tem cartão corporativo, põem umas contas pessoais, que não dá nada. Se tem jatinho à disposição para o trabalho, não custa nada levar a família e o cachorro. Se tem helicóptero para o serviço, o que é que custa ir ao cabeleireiro

Talvez o início de tudo seja este maldito leite “batizado”. Ele deve entranhar nas pessoas quando pequenas e vai estragando-as aos poucos.

Muitos de nós não bebemos deste leite e temos o dever e o compromisso de combater estas atitudes e esta gente.