Caindo na Braquiária

 

Antes ou depois da chuva

Alexandre Zadra

É maio, mês em que normalmente se inicia o período de estiagem no Acre, mas que dessa vez apresenta-se chuvoso como há muito não se via. Foram cinco dias tomando sol e chuva para atender criadores desse estado que atinge maturidade no quesito produção de carne.

Com a chegada da lavoura de milho, o Acre inicia o processo de intensificação nutricional, lançando mão de suplementação a pasto para incrementar o ganho em peso ou mesmo no sentido de melhorar o acabamento das carcaças da boiada inteira, como praticado pelo amigo Roque Jr, pecuarista que realiza o cruzamento de vacas comerciais com Angus provados de alta acurácia, a fim de buscar o potencial máximo da genética. Roque vem obtendo ganhos expressivos acima de 1 kg/dia nos F1 Angus.

Outro projeto não menos interessante que tomamos conhecimento se refere à produção de carne de qualidade para fornecer diretamente aos consumidores exigentes de Rio Branco, onde Marcelo, criador e mentor do arrojado empreendimento possuindo larga experiência em casa de carnes, estima montar sua butique de cortes especiais em data não muito distante. Como Marcelo pretende vender boa parte dessa carne tenra advinda, principalmente, do rebanho da família, recomendamos que a fonte dessa iguaria seja de animais tricross, sendo ao menos 75% taurinos. Dessa forma, ficou definido que utilizará matrizes F1 Angus no cruzamento com raças taurinas adaptadas para atingir esse intento.

Cada vez que piso em solo acreano, afirmo que o Éden, para um zootecnista, deve ter as mesmas características edafoclimáticas que as encontradas ali, pois há chuva, calor e solos de boa qualidade sustentando o dobro (ou mais) da lotação que o restante do País e ainda atingindo ganhos diários muito acima da média nacional, como ocorre na fazenda do engenheiro Manoel, que vem usando suplementação alimentar a pasto a partir da desmama na base de 1kg de proteinado industrial + 2,2 kg de milho, atingindo ganho médio de 1kg/dia. Após 365 dias nesse sistema, Manoel pretende, em 2014, levar todos os bois para o confinamento, terminando-os em 100 dias, para serem, então, abatidos inteiros com 530 kg.

Já quando observamos o rebanho acreano no tocante a matrizes, deparamos-nos com um Nelore que vem absorvendo, por diversas gerações, genes superiores através da Inseminação Artificial (IA) com touros melhoradores, tal como ocorre no rebanho da Família Celestino, no qual, apesar de produzirem animais F1 Angus através da IA de parte das vacas Nelore, não abrem mão do uso de sêmen de touros Nelore provados nas novilhas e melhores vacas do rebanho, com o objetivo de melhorar o rebanho matrizeiro Nelore.

E por falar em Nelore, o melhoramento da raça é fato, tendo como exemplo a Família Zamora, que vem usando há muito tempo a genética vencedora do Chico Ventania. Fernando Zamora, apaixonado pelo Nelore produtivo, vem dando atenção especial à formação de vacas com ótima habilidade materna, sem perder a fertilidade natural da raça. Cabe lembrar que Dirceu, seu pai, não abre mão do uso de sêmen Angus sobre as matrizes Nelore comerciais, com o intuito de produzir uma boiada pesada e precoce. O que vimos no Nelore “Z” foi uma padronização fora de série da vacada, com ótima estrutura óssea, profundidade corporal, habilidade materna fora do comum, bezerros com muita musculosidade e touros com o mesmo biótipo precoce.

Nem tudo são flores num estado que depende de uma precária estrada para escoar a produção para o resto do Brasil ou outra perigosa via para exportar a produção em direção ao Pacífico. Com apenas um frigorífico e um governo ditatorial há anos, o Acre poderia estar no topo da produção de carne de qualidade valorizada, pois a natureza foi pródiga ao produzir um animal jovem e, por si só, naturalmente macio, basta que seja garantido o escoamento dessa produção sem tarifas limitantes, mantendo-se, assim, um alto nível de competição por essa boiada de qualidade.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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