Leite

Pastejo ROTACIONADO

Sistema é uma excelente opção, mantendo os animais com conforto no ambiente natural e gerando bons resultados

Amanda Prudêncio Lemes, André de Faria Pedroso, Patrícia Perondi Anchão Oliveira e Teresa Cristina Alves*

Ciom a necessidade de recuperar as áreas de pastagens degradadas para melhorar as condições ambientais e disponibilizar área para a produção de alimentos e energia, o uso intensivo e o melhor manejo das pastagens tornam-se imprescindíveis.

Uma das formas de melhoria do manejo da pastagem, muito aplicada nos manejos intensivos, é o pastejo rotacionado, que nada mais é do que uma forma de pastejo em que são alternados com períodos de descanso. O período de descanso é o tempo em que a pastagem não é pastejada e permanece crescendo livremente.

O pastejo rotacionado pode ser utilizado para várias espécies, como as de bovinos, equinos, caprinos, ovinos, galináceos, animais silvestres, entre outros. As principais vantagens do sistema rotacionado são o melhor aproveitamento das pastagens, por meio de um controle mais efetivo da desfolha, sendo possível minimizar perdas, e o impedimento da degradação por meio do controle do tempo de pastejo, tempo de descanso e altura do resíduo das pastagens.

Para cada espécie animal existem períodos de ocupação mais indicados. No caso de bovinos leiteiros varia de um até três dias, sendo quanto menor, melhor. Assim, evita-se flutuação na produção de leite e pastejo dos animais sobre a rebrota inicial do capim.

Já o período de descanso depende da espécie forrageira, da fertilidade do solo e das condições climáticas, sendo que, quanto mais fértil, adubado, quente e chuvoso, maior será a velocidade de rebrota do capim e menor o período de descanso. De forma geral, os Cynodons (grama estrela, coast cross, etc.) requerem períodos inferiores a 21 dias, as braquiárias, períodos inferiores a 28 dias e os coloniões, inferiores a 35 dias. O mesmo ocorre com a altura do resíduo pós-pastejo. Cada espécie possui a sua indicada e, quanto melhores as condições edafoclimáticas e maior a fertilização, menor poderá ser essa altura, atentando- se ao fato que deve haver certa quantidade de folhas remanescentes na saída dos animais de forma a garantir a pronta rebrota da pastagem.

A escolha do local dentro de uma propriedade para montar uma unidade de pastejo rotacionado deve levar em conta a disponibilidade de água com acesso a todos os piquetes, de energia elétrica para as cercas, no caso de bovinos leiteiros, a distância até a sala de ordenha, que não deve ser superior a 500 metros; e, ao contrário do que muitos pensam, deve ser instalado em área com pastagens bem formadas e com melhor fertilidade, para diminuir a necessidade de investimento inicial.

Os produtores possuem muitas dúvidas no momento de montar um pastejo rotacionado, principalmente no que diz respeito à necessidade de área, ao número e ao tamanho dos piquetes. A necessidade de área para montar uma unidade de manejo rotacionado irá depender de fatores como a quantidade e categoria animal do lote de animais que irá utilizar a área, a fertilidade do solo e o uso de calagem e adubação. Imaginando um exemplo em que o produtor possua 50 vacas, com 450 kg cada uma, e que vá realizar uma correção e fertilização do solo capaz de suportar 10 UA/ha no verão (1 UA = 450 Kg de peso vivo), o tamanho de sua unidade de manejo deverá ser de 5 ha. Como se tratam de bovinos leiteiros, adotando- -se um período de ocupação de um dia e pastagens de coast-cross com 21 dias de descanso, seriam necessários 22 piquetes para completar o ciclo de pastejo, pela aplicação da fórmula: número de piquetes = (período de ocupação/ período de descanso) + 1. Dividindo- -se a área total de cinco hectares pelo número de piquetes, no caso 22, temos que cada piquete deveria possuir 2.273 metros quadrados.

A forma do piquete também é outro motivo de preocupação, devendo ser privilegiada a menor relação entre o perímetro e a área, gerando economia em cercas. Nesse quesito, a melhor forma seria a circular, mas, considerando que ninguém faria piquetes em forma circular, pois geraria grande perda de áreas nas divisas entre piquetes, a forma quadrada é a mais indicada. Recomenda-se, para evitar problemas de manejo das pastagens, especialmente o pastejo desuniforme, que um lado do piquete não seja três vezes maior que o outro, ou seja, os piquetes de formato fino e comprido são desaconselhados.

Para cada unidade de manejo é necessário instalar pelo menos uma área de descanso, com água, sombra e saleiro. Em alguns locais, onde não é possível colocar uma única área de descanso, ou naquelas propriedades em que se adota o lote de repasse, que são aqueles animais colocados para pastejar depois que as vacas em lactação saem do rebanho, haverá necessidade de mais de uma área de descanso.

Cuidados devem ser tomados para o sombreamento da área de descanso, a sombra deve ser posicionada no sentido norte-sul, sua projeção deve necessariamente ser realizada dentro da área de descanso para não privar as vacas do uso da sombra; deve possuir pelo menos quatro metros quadrados para cada vaca, e seria muito interessante ter mais de uma área de sombreamento para evitar lama nos períodos chuvosos. A sombra pode ser artificial com uso de sombrites, que são telas plásticas de baixa densidade, que diminuem o custo com estruturas de suporte e possuem interceptação de 80% da radiação, mas também pode ser natural.

O período de ocupação para bovinos leiteiros é de um a três dias

No caso de sombra natural recomenda- se:
• Árvores adaptadas às condições ambientais da região;
• Rápido crescimento;
• Não ter taxa de desfolha acentuada;
• Não possuir frutos grandes, tóxicos e com espinhos;
• Ser resistente a pragas e doenças e ao acúmulo de esterco e umidade; • Ser de madeira resistente para evitar galhos nas áreas de descanso;

Árvores de folhas largas, copa densa e baixa não são recomendadas para sombreamento, devido à dificuldade da ventilação e renovação do ar embaixo da área sombreada, proporcionando umidade excessiva e formação de lama, condições propícias ao desenvolvimento de problemas sanitários, como mastite, podridão dos cascos e dificuldade de higienização dos tetos das vacas para ordenha.

Com relação aos corredores que dão acesso aos piquetes e às áreas de descanso, devem ser de preferência em nível, possuir de, no mínimo, 3,6 metros, para rebanhos pequenos (menor 50 cabeças), até oito metros, para rebanhos maiores, ser livres de pedras e adotar sistemas de conservação para evitar erosão. Interessante se for levemente sombreado, entretanto, não confundir a necessidade de sombra para o caminhamento com a necessidade de sombra para o descanso e para evitar o estresse térmico na área de lazer. A presença de uma não elimina a outra.

Os bebedouros e saleiros devem ser preferencialmente centralizados nos sistemas de pastagens rotacionadas e instalados na área de lazer. Para vacas em lactação, o ideal seria existir um bebedouro e um saleiro por piquete, mas isso poderia ser oneroso, a menos que se adotassem bebedouros e saleiros móveis.

A água é um importante nutriente para vacas em lactação. Deve ser limpa, potável e fornecida em quantidade. Vale ressaltar que o consumo de uma vaca em lactação facilmente atinge 50 litros por dia, havendo necessidade de o bebedouro estar conectado a um reservatório que garanta vazão para saciar todos os animais do lote. Reco- Leite menda-se quatro cm de perímetro por animal por dia nos bebedouros. Então, para as 50 vacas do lote de exemplo, haveria necessidade de um bebedouro de dois metros de perímetro (50 cm de lado, se for quadrado).

Os produtores têm muitas dúvidas no momento de montar um pastejo rotacionado, principalmente no que diz respeito à necessidade de área, ao número e tamanho dos piquetes

Quanto aos saleiros, também se deve prever o consumo, de forma a deixar a quantidade adequada disponível aos animais. Uma vaca em lactação deve receber suplemento mineral de forma forçada no concentrado, mas isso não exclui a necessidade do saleiro, uma vez que vacas em final de lactação ou com produção menor que 12 litros por dia não recebem concentrados (ração). O consumo diário em sistemas rotacionados intensivos costuma ser entre 50 a 250 gramas/dia, sendo tanto menor o consumo quanto mais fertilizada for a pastagem. Recomenda- -se dois cm de perímetro por animal no saleiro, então, no exemplo anterior, um pequeno saleiro retangular com 50 cm de comprimento seria suficiente para fornecer sal para as vacas em lactação.

Finalmente, o manejo adequado da planta forrageira associado a um bom programa de correção e fertilização do solo, baseados em recomendações técnicas utilizando a análise de solo, são essenciais para garantir a persistência dos sistemas intensivos de produção de pastagens. Existem sistemas de produção com mais de 40 anos que nunca foram reformados, nunca receberam nenhum tipo de revolvimento do solo, quer seja aração, gradagem ou subsolagem, permanecendo a pastagem original por mais de quatro décadas sem sinais de degradação. Devido à complexidade do manejo da planta forrageira e do estabelecimento de um programa de nutrição mineral de plantas forrageiras, a ajuda técnica é imprescindível e deve ser procurada pelos produtores rurais. Mesmo que seja da iniciativa privada, trata-se de um investimento com retornos econômicos garantidos, pois evitará gastos desnecessários com correções do solo e fertilizações inadequadas e com a necessidade de roçadas mecânicas para corrigir o manejo da pastagem.

O sucesso da adoção dessa tecnologia depende de um bom gerenciamento rotineiro da pastagem, muitos incorreram em fracasso por falta de gestão de suas unidades de manejo, por não visitarem seus sistemas de produção todos os dias. Às vezes, há uma confusão grande por parte dos gestores das propriedades agrícolas, que menosprezam a importância das pastagens em suas propriedades agrícolas, relegando-as em segundo plano e não reconhecendo a importância desse recurso forrageiro de alto potencial nos trópicos. Enfim, o pastejo rotacionado para bovinos leiteiros é excelente opção, garante conforto aos animais em seu ambiente natural, gera bons resultados, contribui sobremaneira com a sustentabilidade dos sistemas de produção, mas necessita de conhecimento técnico e dedicação.

*Pesquisadores da Embrapa Pecuária Sudeste