O Confinador

PONTO ÓTIMO DE ABATE X DIAS DE LUCRO

Pedro Terêncio, Pedro Veiga Rodrigues Paulino e João Danilo Ferreira*

Responder à pergunta como definir o ponto ótimo de abate de forma a maximizar o lucro não é nada fácil. Porém, tirando proveito da pesquisa brasileira e mundial em Zootecnia, dos dados gerados em confinamentos experimentais e comerciais, além das informações agrupadas por empresas de nutrição, torna-se possível desenhar cenários interessantes que podem nos ajudar a tomar a melhor decisão.

É importante destacar que somente quem possui um certo nível de controle gerencial, com coleta efetiva de dados confiáveis e sua correta e profunda análise, se candidata a ser capaz de chegar a uma conclusão certeira. Portanto, implementar tecnologias e processos de coleta de dados e gerenciamento da informação é fundamental para auxiliar o pecuarista na tomada de decisão.

Sem dúvida alguma, precisamos ter em mãos certas informações importantes para se definir o ponto ideal de abate visando garantir a ótima lucratividade. Também é de conhecimento claro e notório que as duas variáveis que mais impactam o lucro de um animal confinado é o seu preço de compra, quando ainda magro, e o seu preço de venda para o frigorífico. Já se foi o tempo em que o preço de compra da arroba do boi magro era mais barato que o preço de venda quando pronto para o abate. Assim, é cada vez mais comum o pagamento de ágio na arroba do boi magro, o que já pressiona a lucratividade do sistema. A diferença tem que ser paga pelas arrobas colocadas no confinamento, que também ainda precisam gerar lucro. Quem consegue comprar a arroba do boi magro mais barata que do boi gordo e/ou adicionar valor na arroba vendida (boi rastreado, premiação Europa e Cota Hilton, etc), melhor ainda. Ou então, produzir o próprio animal de engorda, a custo competitivo no pasto, consegue, sem dúvida alguma, dar um grande passo para obter bom lucro. Mas, se deixarmos de lado essa questão da valorização monetária da arroba estocada e considerarmos somente o peso ganho dentro do confinamento, podemos fazer alguns exercícios para definir o ponto ideal de abate.

Pensando dentro dessa ótica, seria aquele no qual o valor do ganho se equipara ao custo do ganho. Enquanto o valor do ganho for superior ao seu custo, o animal estará trazendo lucro para o pecuarista. Quando os dois se equivalerem, será exatamente o ponto de equilíbrio. A partir daí, o lucro começa a decair, já que o gasto passa a ser maior que seu valor, até atingir zero, e em seguida, a conta começa a ficar vermelha, conforme pode ser visualizado na figura 1. Os pontos apontados pelas setas indicam o momento do confinamento em que o lucro é máximo, que, nesse exemplo, variou em função do custo da dieta. Quanto mais cara for a dieta, mais cedo o animal precisa ser enviado para o abate, se o objetivo é maximizar o lucro. A partir daí, começa a decair e, dependendo do custo da dieta, pode vir a se tornar negativo em um espaço de tempo não muito longo.

A maximização do lucro por cabeça ou curral de animais confinados pode não representar, todavia, o lucro máximo da operação. Pode ser que reduzindo o lucro por boi seja interessante, comparativamente ao máximo possível, desde que o cenário de engorda seja favorável ao ponto de rodar mais de um giro. O lucro por boi pode ser menor, mas, multiplicado pelo número de giros, ganha uma outra dimensão, maximizando o lucro da operação.

Para que seja possível construir essa curva de lucro apresentada na Figura 1, acima, torna-se imprescindível ter em mãos informações extremamente úteis e importantes para o próprio monitoramento cotidiano do confinamento. Dentre essas, o consumo de matéria seca por curral é fundamental. É preciso conhecer de forma certeira e acurada o histórico de consumo dos animais (por curral e não apenas por linha), o consumo atual e fazer projeções de como será o consumo ao longo dos dias, até o final do confinamento. Ou seja, é imprescindível ter uma curva de consumo construída ou modelada, levando em consideração algumas variáveis importantes, como peso de entrada e genótipo do gado. O custo da matéria seca da dieta e do operacional também deve ser conhecido. De posse dessas informações, o confinador pode, então, calcular o custo que cada curral de animais apresenta durante a operação. Ou seja, torna-se possível obter o custo da diária do boi dentro do confinamento, dia a dia. Como todos sabemos lucro é = receita – despesa. Através da curva de consumo e do custo da matéria seca da dieta e do operacional, chegamos à parte das despesas da equação do lucro, que é a mais simples. Evidentemente que embutida dentro da curva de consumo está a eficiência de trato (mensurar exatamente quanto de dieta foi fornecida por curral) e manejo de cocho (evitar ao máximo sobras, já que, além de representarem desperdício, podem ser computados como dieta ingerida, levando a superestimativas do ganho de peso).

Figura 1 - Curva de lucro por boi em função dos dias de confinamento e do custo da dieta

O próximo passo, e o mais desafiador, é chegar a uma estimativa do ganho de peso dos animais, dia a dia, ao longo do confinamento. A partir da curva de consumo e empregando modelos de crescimento desenvolvidos e validados no Brasil com dados do Feed Manager, torna-se possível estimar quanto cada animal ganhará de peso, de acordo com o tipo de dieta fornecida e o consumo esperado. A lógica desses modelos é bem simples: a partir da dieta fornecida e do consumo de matéria seca, calcula-se a ingestão de cada nutriente importante para o ganho de peso (energia e proteína, principalmente). De acordo com o tipo de animal em questão (raça, peso, sexo, etc), são geradas as exigências nutricionais. Se por um lado temos quanto o animal exige de cada nutriente e por outro quanto está consumindo, conseguimos determinar qual será o seu ganho e, ainda mais, identificar qual nutriente está sendo o mais limitante. O histórico nutricional prévio do animal antes de entrar no confinamento é outra informação importante, pois irá determinar a extensão do ganho compensatório, que modula o formato da curva de ganho de peso apresentada pelo animal ao longo do confinamento.

Nem sempre o animal que aparenta estar bem acabado realmente está

Na Figura 2, podemos observar o comportamento da curva de ganho de peso durante a fase de terminação em confinamento de dois animais que foram submetidos a planos nutricionais distintos durante a fase de recria. Aquele em crescimento contínuo foi suplementado a pasto para atingir ganho acima de 0,6 kg/dia, enquanto o animal que apresenta ganho compensatório foi recriado somente com sal mineral. O animal suplementado, por apresentar crescimento compensatório muito pouco intenso, ganha menos peso vivo ao longo do confinamento, já que vinha crescendo continuamente ao longo da vida. Ao contrário, aquele que foi restrito tenta compensar o ganho perdido ao longo de toda sua recria, que, aliás, foi demasiadamente longa, durante a fase de realimentação (confinamento).

Figura 2 - Curva do ganho de peso vivo diário de animais confinados de acordo com o plano nutricional prévio (durante a recria)

Entretanto, o que deixa receita não é o ganho de peso vivo, mas sim o ganho de carcaça! Dessa forma, é imprescindível determinar e conhecer a evolução da transferência de carcaça ou do rendimento do ganho de peso dos animais ao longo do tempo. Ou seja, quanto do ganho de peso vivo é transferido para ganho de carcaça, que é o que realmente interessa. Animais em ganho compensatório, por apresentarem crescimento muito intenso de tecidos não carcaça (vísceras e órgãos internos), apresentam menor rendimento do ganho do que animais em crescimento contínuo. Assim, é possível que, mesmo apresentando um menor ganho de peso vivo, um animal tenha maior ganho de carcaça.

Para exemplificar, imagine um animal de 400 kg, de 42 meses, que chega ao confinamento. Supondo que tenha nascido com 35 kg, apresentou, até chegar ao confinamento, um GMD (ganho médio diário) geral de 290 g/dia, fica claro que sofreu restrição nutricional muito intensa. Ao ser confinado por 60 dias, apresenta ganho de peso vivo diário de 1,8 kg/dia, o que pode parecer muito interessante. Entretanto, o rendimento do ganho, nesse caso, não ultrapassa 56-57%. Portanto, o ganho real de carcaça desse animal seria de 1 kg/ dia. Se tivermos, em um outro extremo, um animal também com 400 kg, mas que foi suplementado a vida toda, entrando no confinamento com 24 meses, o GMD apresentado durante sua vida, antes de entrar no cocho, teria sido de 630 g/dia. Ao ser confinado, pelos mesmos 60 dias, apresentou um ganho de peso de 1,4 kg/dia. Pode parecer menos que o outro animal, que ganhou 1,8 kg/ dia. Porém, transfere 75% do ganho de peso vivo para a carcaça, ou seja, ganha 1,05 kg de carcaça por dia. Exatamente o mesmo que o animal mais erado. Isso sem falar que permaneceu 18 meses a menos na fazenda, o que equivaleria a uma economia financeira de, no mínimo, R$ 360,00 (considerando um custo de R$ 20,00 por animal por mês em uma fazenda de cria / recria), que poderia ser investida no animal de 42 meses para antecipar seu abate através de uma nutrição mais avançada.

Assim, conhecer a evolução do rendimento do ganho de peso é fundamental. Normalmente, espera-se que o rendimento de carcaça aumente à medida que o animal permaneça mais tempo no confinamento, quando vai ficando mais pesado e mais bem acabado. Portanto, conhecendo o consumo de dieta (e por consequência o potencial de ganho de peso) e a evolução do rendimento do ganho, temos condições de estimar o ganho diário de carcaça. Considerando um valor de @ específico ou projetando- o com base no mercado futuro, conseguimos estabelecer um valor econômico para o animal dia a dia ao longo do confinamento, defininindo, portanto, o momento exato em que o valor do ganho se iguala ao seu custo. Ponderações podem ser feitas para possíveis descontos e premiações de acordo com o peso de carcaça que o animal apresentar. Por exemplo, enquanto tiver menos de 240 kg de carcaça, o valor do ganho de carcaça deve ser multiplicado pelo valor da arroba de vaca, ao passo que, se tiver acima desse limite, emprega-se o valor da @ do boi gordo. Embora não tenha sido, ainda, modelado de forma mais eficaz no Brasil, é possível, também, construir curvas de deposição de gordura subcutânea, com base no ganho de peso apresentado pelo animal ao longo do confinamento. Nesse caso, possíveis premiações advindas de carcaças mais pesadas e acabadas podem também ser computadas no momento do cálculo do valor do ganho de carcaça.

Sistema de gestão de dados é fundamental para descobrir o ponto ótimo de abate

Pazdiora (2011) e Mello et al. (2009) computaram o saldo deixado a cada dia por bovinos confinados abatidos a diferentes pesos e ambos detectaram que houve uma redução linear no valor de produção diária para cada aumento no peso de abate, e manutenção do custo diário, que o consumo se manteve constante ao longo dos dias de confinamento. Consequentemente, o saldo com a alimentação por dia reduziu linearmente, embora não tenha sido negativa em nenhum momento no trabalho de Pazdiora, que abateu animais de 455 kg a 580 kg de peso corporal. Portanto, embora ocorra redução no ganho de peso vivo e elevação no custo de alimentação com o aumento do período de confinamento (Mello et al., 2009), não necessariamente significa que a rentabilidade do sistema esteja sendo prejudicada. Enquanto o valor da produção for superior ao seu custo, o lucro por boi estará sendo maximizado.

Atenção a alguns pontos interessantes

• Quando o animal visualmente já apresenta um bom nível de gordura de carcaça, nem sempre corresponde à realidade desejada;
• Se a curva de consumo começa a decair, depois de ter passado pela fase de estabilidade, a eficiência alimentar do bovino piora muito;
• O ponto de abate é definido com base no momento em que o lucro por animal é máximo;
• Geralmente, se adequa a nutrição para um porte médio. Desta forma, parte dos animais podem estar recebendo nutrientes além do necessário e outra aquém;
• Está ocorrendo uma mudança de conceito bastante emblemática. Hoje, existem confinamentos no Brasil que abatem animais de mais de 25 @ e com garantia de que o sistema é econômico.


Encontro de Confinamento da Scot Consultoria

Da redação

Entre os dias 23 e 25 de abril, a consultoria realizou a nona edição do seu Encontro de Confinadores. Foram 18 palestras e quatro mesas-redondas em Ribeirão Preto/SP e 12 preleções no dia de campo realizado em Barretos/SP, que dividiu o grupo de visitantes em cinco estações. Estavam representadas na plateia 167 cidades, de 15 estados brasileiros mais o Distrito Federal, além da presença de profissionais da Venezuela e dos Estados Unidos. Foram dias intensos, extrovertidos e carregados de conhecimento. Segundo Alcides Moura Torres, promotor do encontro, a diversidade de origem dos pecuaristas, dos palestrantes e dos debatedores permitiu que as discussões fossem descontraídas, férteis e interessantes. “A pecuária de corte é fascinante”, exclama.

“O confinamento de bovinos não é essencial para o sucesso na pecuária, mas ajuda muito. Sucesso, grana, produtividade e racionalização. Na pecuária de corte, tudo isso é possível, mas fica mais palpável com o confinamento de bovinos”, destaca Sérgio De Zen, professor e coordenador do Centro de Estudos Aplicados em Economia Avançada (Cepea), um dos palestrantes do Encontro de Confnadores da Scot Consultoria. Para ele, o confinamento com grandes dimensões sofre certa “deseconomia” de escala. “Fica difícil comprar grandes quantidades de animais homogêneos e, com isso, os estabelecimentos maiores sofrem com a grande dispersão de resultados entre os animais confinados”, explica. Esse e outros assuntos estiveram na pauta de debates.

*Pedro Terêncio, Pedro Paulino e João Danilo
são especialistas da Nutron/Cargill