Raça do Mês

 

VERSÁTIL

Flexibilidade genética da raça Simental dá origem a novos cruzamentos e amplia o mercado da raça na produção de carne e leite

Cintia Rocha

Uma raça que vai bem com diversas outras, o Simental ocupa, sem dúvida, posição de destaque como uma das genéticas mais utilizadas no cruzamento industrial em todo o mundo. A versatilidade deste gado de dupla aptidão que está presente em todos os continentes é explicada por sua própria história: originário da Suíça, ele ultrapassou as fronteiras do país e formou linhagens distintas. Atualmente, é possível encontrar Simental de origem suíça, austríaca, alemã, francesa, canadense, sul-africana e americana. Esta última resultou em animais de cor preta, o Black Simental.

A raça de taurinos provados traz como principais características rusticidade, adaptabilidade e produtividade, que demonstram precocidade e fertilidade. Os machos cobrem a campo e estão, geralmente, prontos para o abate um ano mais cedo quando comparados a outras raças. Já as fêmeas têm mostrado seus principais atributos, sendo excelentes mães e boas produtoras de leite. Quanto à fertilidade, têm emprenhado a partir dos 14 meses e ganhado destaque como receptoras de embriões, alcançando preços superiores aos dos machos.

No Brasil, a história do Simental foi iniciada há exatos 110 anos, com exemplares importados pela Secretaria de Estado da Agricultura de São Paulo. Desde o início, os trabalhos de seleção foram voltados à adaptabilidade e à produtividade nos trópicos. Um capítulo importante desta trajetória no País foi escrito pelas mãos do Sr. Agostinho Caiado Fraga, que a partir da década de 1950 entrou para a raça, resgatando a genética dos animais remanescentes das importações e seus descendentes. Foi ele quem criou o Registro Genealógico e a Associação Brasileira de Criadores da Raça Simental (ABCRSS), fundada em 1963, entidade que faz a ele a referência de “Eterno Presidente”.

“Muitas de nossas conquistas são frutos de sua visão pioneira. Também foi ele quem iniciou os primeiros cruzamentos Simental x Guzerá, dando origem ao Simbrasil - raça sintética que já tem 50 anos de seleção”, lembra Alan Fraga, presidente da ABCRSS.

Levantamentos realizados junto aos criadores e divulgados pela associação apontam que é possível aumentar cerca de 25% os lucros do rebanho apenas fazendo cruzamento industrial com touros Simental/Simbrasil. E isso, dado apenas por conta da heterose, que pode garantir bezerros mais pesados na desmama, animais valorizados por apresentarem carne macia e marmorizada, que atendem ao mercado de exportação. O mesmo estudo afirma que é possível obter esta lucratividade sem a necessidade de se investir, por exemplo, em reforma de pasto, adubação, sal proteinado, confinamento ou qualquer outra tecnologia ou manejo que custe dinheiro.

De acordo com dados oficiais do “Grupo Simbrasil Amigos da Raça”, os novilhos Simbrasil têm atingido, em média, peso de 470 kg no abate entre os 16 e 20 meses de idade. Já as fêmeas apresentam alta fertilidade e produção leiteira. Possui alta conversão alimentar, tanto no sistema de criação a pasto quanto em regime de confinamento. Segundo o grupo, a raça é considera ideal para Brasil, com adaptação aos sistemas extensivos com pastagens de braquiária e altas temperaturas.

ASSOCIAÇÃO

Desde 2004, a ABCRSS incorporou a palavra Simbrasil ao seu nome. A entidade, que é sediada em Itapemirim (ES), hoje conta com mais de 2.570 membros, com selecionadores em todas as regiões do Brasil, responsáveis pela criação de 1,5 milhão de bovinos Simental/Simbrasil, sendo que mais de 390 mil exemplares Simental (Mestiços, PC e PO) e 37 mil da raça Simbrasil (dados até 12/2013) estão no registro oficial. Além de seu trabalho, ela conta com o apoio e o respaldo de sete associações e núcleos regionais na Bahia, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, São Paulo, Paraná, Santa Catarina.

O diálogo e a união entre a nacional e as regionais têm rendido boas diretrizes. Um dos principais exemplos acontece com o Centro Paulista da Raça Simental, que foi fundado em 1990 e atualmente conta 20 sócios ativos. Sob a presidência de Marisa Saad, o Centro tem tido como principal função fomentar a Raça nas Exposições onde realiza o Ranking Simental e o Ranking do Torneio Leiteiro Simental. Para os próximos eventos, a entidade prevê a entrega dos troféus referentes ao ano de 2013.

De acordo com Alan Fraga, a ABCRSS tem realizado uma constante aproximação e integração de criadores através desses Núcleos, que auxiliam na promoção de eventos com ambas as raças. “As Exposições Regionais ranqueadas, durante todo o ano, e a Exposição Nacional têm sido as formas básicas de estimular os associados na dupla aptidão das raças Simental e Simbrasil”, destaca. Segundo o departamento de marketing da associação, como nos demais anos, a raça continuará com uma grande participação em exposições em todo o País, tanto para a carne como também as especializadas em leite.

Mais uma parceria de sucesso tem acontecido na região Sul, onde o criador Eduardo Borges de Assis dirige as ações da Associação de Criadores da Raça Fleckvieh e tem observado uma constante procura pelo Simental. “Pecuaristas que objetivam melhorar a produtividade dos seus rebanhos têm nos consultado. O gado Simental do Rio Grande do Sul caracteriza-se por ser produtivo, eficiente e econômico. E não pode ser diferente, considerando o atual momento que a pecuária nacional atravessa. Temos no estado dois grandes projetos de produção envolvendo cruzamentos com a raça e rebanhos puros de origem. Criadores têm desenvolvido um importante trabalho no desenvolvimento de uma linhagem voltada exclusivamente para a produção de carnes de alta qualidade. Entretanto, a grande maioria dos rebanhos tem explorado sua dupla aptidão e, assim, melhoram também o potencial leiteiro de seus animais”, conta ele, que destaca que o Simental nas condições de clima e manejo no RS consiste na raça que oferece o melhor desempenho para obtenção de bois para abate.

“Muitas de nossas conquistas são frutos do pioneirismo”, ressalta Alan Fraga

“A força genética deste gado faz toda diferença e os resultados têm sido excelentes, porque o Simental complementa o potencial existente de animais como o Angus, o Brangus, o Hereford, o Braford e a Charolesa. Com relação aos zebuínos, ele é campeão em melhoramento. No Rio Grande do Sul, a raça sofre uma concorrência grande de outras europeias que já são tradicionais e possuem núcleos muito fortes de criadores. Contudo, a Associação Gaúcha vem trabalhando no sentido de divulgar o Simental. A meta fundamental é difundir todas as características econômicas e melhoradoras que esta genética pode acrescentar à criação, objetivando um incremento na natalidade, na fertilidade, na precocidade, no ganho de peso, no desmame, na rusticidade, na qualidade de carne e leite e nos cruzamentos do rebanho gaúcho. Nós, criadores de Simental do estado, temos clientes em todo o Brasil, é uma demanda que valoriza nossos produtos”, resume Eduardo Assis, que é criador no município de Jaquirana, na Serra Gaúcha.

CERTIFICAÇÃO E DESENVOLVIMENTO

Outro destaque das atividades nos últimos quatro anos tem sido o intercâmbio de genética entre países latino- americanos, destacando-se Costa Rica, Panamá, México, Colômbia e Chile. Em 2012, a raça deu início ao projeto de certificação para marcas de carne dentro do conceito Top Beef Premium. “Estamos desenvolvendo um projeto-piloto coordenado por Roberto Barcellos, diretor da Beef&Veal Consultoria, para incentivar a criação de marcas de carne Simental-Simbrasil. Queremos incentivar as iniciativas que estejam no mercado e, ao mesmo tempo, normatizar todas as etapas do sistema produtivo, inclusive o processamento e a industrialização, seguindo um procedimento padrão para garantir a qualidade do produto final, condição fundamental para a utilização do ‘Simental Top Quality Beef’, que é o nosso selo”, explica o 1º vice- presidente da associação, Carlos Eduardo da Silveira.

Segundo ele, a proposta é que pecuaristas e frigoríficos tenham liberdade de oferecer marcas próprias, enquanto a entidade estabelece critérios para garantir origem e o produto final. “Nada impede que uma entidade de pecuaristas tenha uma marca própria. Porém, se definiu que os objetivos eram conciliar rentabilidade e qualidade, além de agregar valor ao produto Simental e Simbrasil, zelando pela reputação das raças em todo o Brasil”, pontua.

A raça sempre está um passo à frente quando o assunto são as novas tecnologias, sendo a primeira a ter utilizado Fecundação in Vitro e Transferência de Embriões. O primeiro clone do Brasil, a vaca Vitória, produzida pela Embrapa, em 2001, também foi descendente de um exemplar Simental. Temos contado com os convênios com as entidades de pesquisas e incentivo aos criadores para participação nas provas de melhoramento genético. Os próximos passos visam reforçar os investimentos em informatização de processos e serviços, melhorar a comunicação da ABCRSS com os criadores das raças e o relacionamento com os públicos de interesse. Estamos trabalhando para a realização de um leilão virtual das raças, possivelmente durante a 23ª Exposição Nacional, onde serão ofertados lotes de animais puros e também de cruzamento industrial”, sinaliza o presidente.

“O gado Simental caracteriza-se por ser produtivo, eficiente e econômico; e não poderia ser diferente”, acrescenta Eduardo Assis

Vale lembrar que, em 2011, o Simental voltou a participar da Prova de Ganho de Peso de Sertãozinho, promovida pelo Centro de Pesquisa de Bovinos de Corte, do Instituto de Zootecnia do Estado de São Paulo. Na avaliação, sete criadores de São Paulo e Minas Gerais apresentaram 22 garrotes nascidos entre agosto e novembro do ano anterior. Desses, quatro se classificaram como elite, após mensurados os ganhos de peso em 112 dias de prova, com média de 1.317 gramas/ dia. Durante os testes, a dieta dos animais compreendeu ração à vontade, com 44% de feno de Jaraguá e braquiária, 32,2% de quirera de milho, 21,4% de farelo de caroço de algodão, 0,5% de ureia e 1,4% de sal mineral.

“Os resultados práticos no campo e o bom comércio com alta demanda de animais para reprodução têm sido a melhor ferramenta para atrair os novos associados. Outra forma de fomentar e manter a adesão nas raças é o Sumário de Touros, que elabora a 17ª Edição. Esse Catálogo de Valores Genéticos é resultante do amplo Programa de Melhoramento Genético da ABCRSS, iniciado na década de 1970, onde são publicadas as DEPs dos touros Simental e Simbrasil de maior acurácia, bem como os líderes genéticos de ambas as raças”, acrescenta Alan Fraga.

SIMLANDÊS E SIMANGUS

No começo deste ano, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) autorizou o controle genealógico dos animais 1/4 de sangue, que formarão a base dos puros sintéticos (PS) das novas raças de bovinos Simlandês (Simental X gado Holandês) e Simangus (Simental X Aberdeen Angus). Conforme determina o Ministério, a emissão dos registros dos animais PS somente ocorrerá após análise de pelo menos duas gerações, tanto para o Simlandês quanto para o Simangus.

“A ABCRSS promoverá reciclagens e atualizações do corpo técnico, visando ao perfeito andamento na coleta de informações das referidas raças com o objetivo de promovê-las em prol de sua eficiência de produção e qualidade dos produtos”, explica José Carlos de Souza Passoni, Superintendente do Serviço de Registro Genealógico da associação. As pesquisas na formação da raça sintética Simangus têm a participação do criador e professor Flávio Krebs Ramos, (Lages/SC) e do pecuarista Paulo de Castro Marques (Fama/MG), criador de Simental e atual presidente da Associação de Criadores da raça Angus no Brasil, que vem realizando os cruzamentos entre as duas raças. Segundo o Superintendente da ABCRSS, o cronograma para o registro das novas raças dependerá do número de animais controlados e dos dados e características assentados junto à entidade, possibilitando aos técnicos do MAPA uma análise conclusiva do processo. Hoje, os maiores plantéis das raças Simlandês e Simangus estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste do Brasil.