Bem-Estar Animal

 

Temple Grandin vem ao Brasil

Autoridade máxima em bem-estar animal no mundo, ela fez tour no Brasil e palestrou em workshop

Adilson Rodrigues
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Rodeada por fãs e capturada por mais de mil câmeras, Mary Temple Grandin parecia até estrela de cinema. Ela causou furor pelas cinco cidades por onde passou. E uma dessas paradas foi o Beef Summit Bem- -Estar Animal, organizado pelo portal Beef Point em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, no dia 8 de maio, que também contou com a participação do professor Mateus Paranhos - o papa do bem-estar animal no Brasil - entre outros palestrantes. Temple Grandin tem 66 anos, é bacharel em Psicologia, mestre em Zootecnia, professora na Universidade Estadual do Colorado e revolucionou o manejo dos animais de produção nos Estados Unidos.

Temple Grandin mostrou como ações simples promovem bem-estar animal

Diagnosticada com autismo de alto funcionamento, também conhecido como Síndrome de Asperger, aos quatro anos de idade, a norte-americana desenvolveu uma sensibilidade única que a permitiu entender o comportamento dos bovinos, ajudando a projetar instalações mais apropriadas e adaptadas a eles, além de colaborar no desenvolvimento de manejos menos aversivos. O leitor pode conferir a entrevista exclusiva que a Revista AG fez com ela na edição de setembro de 2013, para o Especial de Bem-Estar Animal, onde terá acesso a informações mais aprofundadas sobre o assunto.

Temple Grandin veio dividir um pouco de sua experiência com os pecuaristas brasileiros, que apenas no final da década de 1990 começaram a ter contato com o tema nos primeiros estudos realizados pelo professor Mateus Paranhos, hoje coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (ETCO). O Brasil tem muito a melhorar, mas Grandin gostou de muitas coisas vistas por aqui, como o uso das bandeiras e pisos antiderrapantes nos currais. Para ter êxito no manejo e, ao mesmo tempo, proporcionar melhor qualidade de vida ao gado, o homem precisa se colocar no lugar dele para conseguir entendê-lo. “Se tratá-los mal, eles vão fazer o mesmo com você”, garante a especialista.

E as complicações no manejo ocorrem justamente quando as pessoas tentam forçar alguma situação. Gritar e bater só piora. Aliás, o ato de empurrar por trás é algo desastroso. Afeta o ponto de equilíbrio do animal, que fica na altura da paleta. O desejável é que se descubra o motivo pelo qual o animal se recusa a prosseguir ao curral. Muitas vezes, de tão simples, é difícil de acreditar no motivo. Pode ser uma sombra, um objeto metálico que esteja refletindo luz nos olhos do animal naquele momento ou até mesmo a lama. “A luz refletida no aço inoxidável, uma bota de cor amarela, uma corda pendurada na cerca ou o contraste gerado na transição do ambiente claro para o escuro são alguns fatores que podem causar refugo”, afirma a especialista.

Isso acontece porque o gado não tem a percepção de profundidade, então, quando enxerga uma sombra acha que é um buraco, bem como se assusta com objetos pendurados por serem estranhos a ele. É por esta razão que os currais com paredes sólidas (totalmente fechadas) apresentam melhor eficiência. Já o corredor circular estimula o animal a sempre avançar, pois ele acredita estar voltando para o local de origem. Já as porteiras dentro dos corredores, quando vazadas, permitem que ele veja que existe caminho à frente. Bovinos também não gostam de luminosidade forte, como a gerada pelo sol a pino, especialmente quando colocados contra a luz, mas precisam dela para se guiar. Colocar lâmpadas nos currais escuros ajuda o lote a progredir. “Os bovinos sempre caminham em direção à luz”, esclarece Grandin.

Os bois são de uma espécie que não gosta de ficar sozinha; conduzi-los em duplas ou em pequenos grupos vai os encorajar a responder aos comandos, tornando a lida menos estressante tanto ao homem quanto para o animal. Para que não haja paradas abruptas, garanta espaço de dois corpos à frente para facilitar a movimentação, uma distância de segurança necessária a eles. O bovino também possui uma zona de fuga em sua visão, que precisa ser entendida e depende de três fatores: genética, contato e agressividade. Esta última característica está relacionada diretamente à forma como ele tem sido tratado pelos peões. “Caminhando na direção contrária ao animal, ele vai para a frente”, conta Temple Grandin, que ressalta o uso de bandeiras no manejo e adverte para que os movimentos sejam feitos vagarosamente.

Além dos benefícios gerados ao rebanho, o bem-estar animal proporciona ganhos econômicos aos pecuaristas. O professor Mateus Paranhos acompanhou o transporte de bovinos de 120 fazendas para um frigorífico. “Com o trabalho adequado, reduzimos o índice de hematomas de 20% para apenas 1,3%. Isso é treinamento”, informou o professor ao abrir sua palestra. Segundo ele, mudanças abruptas no manejo das fazendas são impossíveis de se conseguir. As pessoas não entendem a razão de ter de mudar ou como fazê- -lo. “Os funcionários absorvem melhor os conhecimentos se aproveitarmos o manejo que eles estejam realizando no momento, como uma vacinação ou desmama, por exemplo”, alerta. “Bem-estar animal não é só filosofia, uma coisa bonita. É uma forma de reduzir acidentes e melhorar a qualidade do produto. Gera vantagem financeira”, complementa o médico-veterinário e CEO da Kontentor, André Dayan, que há dois anos já negociava a vinda de Temple Grandin ao Brasil.

Revista AG saiu na frente com Especial sobre Bem-Estar Animal em 2013

O Beef Summit Bem-Estar Animal contou com palestras de profissionais, pesquisadores e cases de sucesso na pecuária, além de premiar personalidades reconhecidas no segmento, tais como Marcos Chiquitelli Neto, na categoria Professor/Pesquisador em Bem-Estar Animal; Beatriz Biagi Becker (Produtor Referência em Bem-Estar Animal) e Stavros Platon Tseimazides (Profissional Referência em Bem-Estar Animal). “Esse é um prêmio para celebrar as pessoas que fazem a diferença na pecuária de corte brasileira”, conclui o organizador Miguel Cavalcanti.