Caprinovinocultura

 

Planejamento e rentabilidade

Produtor precisa conhecer a atividade e definir seus objetivos para ter sucesso na criação

Denise Saueressig
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Como toda atividade econômica, a ovinocultura requer um planejamento disciplinado e consistente para a obtenção de bons resultados. Nos últimos anos, com a valorização da carne de cordeiro, o setor tem recebido atenção especial por parte de antigos e de novos criadores, mas a falta de informação e a negligência em aspectos básicos da criação pode comprometer o sucesso do negócio.

Para criadores iniciantes, o recomendável é buscar o máximo de informações sobre a realidade da atividade e as demandas e expectativas do mercado. “Muitas pessoas começam tendo uma ideia errada de como e quando o retorno financeiro vai ocorrer. Isso pode levar a decepções que terminam com a decisão de sair da atividade. É importante realizar um estudo meticuloso do futuro sistema de produção, preferencialmente com a orientação de um profissional da área para estabelecer as diretrizes técnicas e econômicas”, aconselha a zootecnista e criadora Camila Raineri.

Nessa etapa, algumas perguntas precisam ser respondidas com clareza: quantos cordeiros devo produzir para a criação ser viável? Como fazer isso? De quantas matrizes preciso? Quais insumos pretendo usar? Quantos funcionários terei? Onde vou comercializar os animais? Qual o custo de produção estimado desses cordeiros, e quais os indicadores técnicos que preciso para isso? “Depois de estabelecido o sistema de produção, é necessário manter uma escrituração zootécnica rígida. Ou seja, é preciso manter um sistema de registro dos dados da criação para ser possível analisar os indicadores zootécnicos, como taxas de prenhez, parição, prolificidade, mortalidades, desfrute e ganho de peso. Não existe planejamento econômico sem planejamento técnico. Não dá para separar as duas coisas”, ressalta a zootecnista.

Entusiasta da ovinocultura, Camila é doutora em Nutrição e Produção Animal e professora na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Uberlândia (Famev/UFU). Em Leme/SP, no sítio Paraíso Ovinos, a família Raineri mantém um rebanho de 300 fêmeas, com foco na criação e comercialização de borregas para reprodução e cordeiros para abate. “Nossa seleção tem como objetivo produzir boas mães: fêmeas rústicas, leiteiras, com facilidade de parto, prolíficas e saudáveis. Os cordeiros que vendemos para abate são consequência”, declara Camila.

A base do rebanho foi um lote de fêmeas deslanadas sem raça definida que foram cruzadas com machos Dorper e White Dorper. Hoje, restam entre 20 e 30 dessas matrizes iniciais, e todas as outras são nascidas na propriedade. “Optamos por aumentar o rebanho apenas com fêmeas produzidas exatamente para manter o status sanitário sob controle, evitando introduzir animais que pudessem trazer problemas que não existiam na propriedade, como podridão de cascos e vermes resistentes. Também com esse objetivo, todos nossos reprodutores são adquiridos de apenas um criador, em cujos cuidados sanitários confiamos muito”, relata.

ROTINA DE ATENÇÃO

Manter o planejamento da atividade pode ser mais difícil do que formatá-lo, e é normal que alguns ajustes precisem ser feitos entre a programação inicial e o que vai acontecer na prática. No entanto, com o controle e os registros da rotina da criação, o processo se torna mais fácil. “É importante calcular periodicamente os indicadores técnicos e econômicos, como o custo de produção do cordeiro ou a receita gerada. Comparando-os com os números desejados, o criador tem como acompanhar a sua trajetória e tomar as medidas necessárias para continuar dentro dos parâmetros planejados. Nesse momento, é possível, por exemplo, alterar algum aspecto do manejo ou substituir um insumo por equivalente de preço mais acessível”, detalha Camila.

Entre os “inimigos” da rentabilidade, estão justamente a falta de controle rígido sobre a rotina técnica e financeira e a baixa eficiência zootécnica. “Muitos criadores têm dificuldade em dizer ao certo qual a quantidade de alimento ingerida pelo plantel, ou quanto tempo seus funcionários gastam no trabalho diário com os animais. É também comum encontrar produtores que não sabem exatamente quantos animais possuem ou não utilizam identificação individual nos rebanhos. Sem estes dados aparentemente simples não é possível realizar um controle econômico adequado da criação”, observa a zootecnista.

Abate intenso de fêmeas provoca escassez de matrizes para reprodução, fazendo com que o valor desses animais suba no mercado

Outro equívoco bastante comum é cortar investimentos em alimentação, sanidade, pastagens ou outros itens básicos da criação com o intuito de baixar custos de produção. “Dependendo da forma como isto é feito, podem ocorrer ainda mais prejuízos ao invés de ganhos financeiros”, acrescenta Camila.

Na etapa da nutrição, o primeiro cuidado é não deixar os animais passarem fome. “Parece óbvio, mas estimamos que grande parte do rebanho brasileiro tenha seu desempenho produtivo e reprodutivo prejudicado pela falta de alimento. Em segundo lugar, é importante lembrar daquele ditado, de que ‘a saúde entra pela boca’. Animais bem nutridos apresentam muito menos problemas sanitários, são menos afetados por verminoses e produzem mais leite”, sustenta.

PENSAMENTO NO FUTURO

A definição de investimentos também é parte fundamental de um planejamento. Na maioria das vezes, os custos elevados não são causados por gastos, mas pela falta de eficiência técnica. “A forma como os insumos são utilizados impacta muito mais no custo do que o preço que se paga por eles. Assim, investir em reprodutores de genética melhor pode reduzir o custo de produção, desde que eles tragam um melhor ganho de peso dos cordeiros. Gastar dinheiro com fornecimento de suplementação alimentar ou na melhoria das pastagens compensa, desde que ocorram melhorias na fertilidade das ovelhas, ou no aumento da capacidade de suporte”, enumera Camila, lembrando que o importante é realizar esses investimentos seguindo recomendações técnicas, sem exageros e sem superar a capacidade de resposta do sistema.

Zootecnista Camila Raineri: a forma como os insumos são utilizados impacta muito mais no custo do que o preço que se paga por eles

No momento de tomar decisões sobre o futuro do rebanho, é importante que o criador tenha cuidado com atitudes imediatistas. Um exemplo é o intenso abate de fêmeas realizado para aproveitar um momento de preços favoráveis ou para tentar atender a demanda por carne. “Além de prejudicar a expansão do setor, que ainda sofre com a pequena escala de produção, o abate intenso e prolongado de fêmeas provoca escassez de matrizes para reprodução, fazendo com que o valor desses animais suba no mercado”, analisa a zootecnista.

O criador ainda deve pensar que a maior parte dessas fêmeas poderia ser vendida por valores mais interessantes para reprodução do que para abate. Além disso, dependendo da proporção de fêmeas jovens abatidas, pode ser prejudicada a reposição das matrizes mais velhas (descartes) pelas borregas. “Esta situação pode gerar envelhecimento do rebanho, que pode causar diminuição dos indicadores produtivos e atrasar o melhoramento genético, já que o princípio básico da seleção e do melhoramento é que a geração mais nova seja superior à anterior”, argumenta Camila.