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Morte EMBRIONÁRIA

Uma ameaça à reprodução do rebanho

Carlos Antônio de Carvalho Fernandes*

A mortalidade embrionária em bovinos é um problema de grande importância em todos os sistemas de criação. Mesmo onde não ocorre em grandes proporções, é uma condição que carece de monitoramento constante, tal a possibilidade de perdas decorrentes de elevação na sua ocorrência.

A morte embrionária é geralmente referida como morte ou perda do produto da concepção, principalmente nas fases iniciais do seu desenvolvimento. Nas fases mais avançadas é caracterizada aborto.

Para que ocorra morte embrionária é necessário obviamente que aconteça a fecundação e formação do zigoto, o embrião. Nos casos de monta natural ou inseminação artificial, quando a perda ocorre antes de 17 – 18 dias após a cobertura ou inseminação, não é possível diferenciar entre uma falha de concepção e morte embrionária, pois em ambos os casos a fêmea retorna ao estro de 18 a 23 dias após o anterior.

Quando o zigoto é formado e permanece viável e com desenvolvimento adequado por um período que vai além dos 20 dias, geralmente a sintomatologia de perda embrionária é diferente de uma falha na concepção. Fêmeas que retornam ao estro em período não regulares, além de 23 dias podem ter apresentado casos de morte embrionária num período acima de 20 dias. Cuidado deve-se ter ao interpretar os casos de animais que retornam ao estro num número de dias múltiplos de 18 a 22. Neste caso pode nem ter havido concepção, a fêmea manifestou um cio anteriormente que não foi observado. O cio que está sendo detectado pode não ter sido o primeiro.

Quando ocorre morte embrionária nas fases iniciais da gestação costuma- se referir ao processo que se segue como “reabsorção embrionária”. Este termo é sempre utilizado quando a fêmea retorna ao estro e não se detectou qualquer sinal de perda, como corrimentos irregulares ou se localizou a presença do concepto expelido. Este termo não é correto quando a perda ocorre após 40 dias de gestação. O útero não tem condições de absorver todos os tecidos fetais após esta fase. A reabsorção pode ocorrer em fases mais precoces. Geralmente, o conteúdo expelido (concepto mais anexos) é tão pequeno que passa despercebido.

Quando a perda embrionária ocorre até o final do primeiro trimestre da gestação (+90 dias) ocorre um rápido retorno da fêmea anteriormente gestante à atividade reprodutiva. Isto acontece porque até este período ainda existem nos ovários as ondas de desenvolvimento folicular. Quando a morte do concepto ocorre após o período que cessou a atividade de crescimento folicular nos ovários, ou seja, após o primeiro trimestre de gestação, o retorno à atividade ovariana geralmente não é tão precoce.

As causas das perdas embrionárias nos bovinos são variadas. Embora quando ocorram, geralmente se suspeite de algum agente infeccioso. Porém, causas devido a problemas sanitários, em média, correspondem apenas a cerca de 25 a 30% do total de casos. Pode-se dividir as causas em três grandes grupos como os descritos a seguir.

AMBIENTE

Esta é uma das principais causas de perda embrionária em bovinos. Alterações no clima e na nutricião são os principais exemplos de etiologias ambientais de perda embrionária.

A temperatura ambiente pode prejudicar a fertilidade dos bovinos de diferentes formas. Efeito nos gametas, no desenvolvimento embrionário e no ambiente uterino. Temperaturas ambientais excessivas podem afetar diretamente o desenvolvimento e a viabilidade embrionária, e ainda atuar de forma indireta, modificando o microambiente uterino, necessário à manutenção da gestação.

O período no qual o embrião é mais susceptível a altas temperaturas é durante a primeira semana do seu desenvolvimento. O aumento da temperatura materna, causada por uma elevação da temperatura ambiente, retarda o desenvolvimento e aumenta a incidência de mortalidade embrionária precoce. Nestes casos a fêmea retornará ao estro num período regular, ou seja, 18 a 23 dias após cobertura ou inseminação.

Associada à temperatura ambiental, outra característica climática de extrema importância é a umidade relativa (UR). Quando elevada dificulta a dissipação de calor pelo animal, visto que os principais processos de perda de calor ocorrem através de evaporação de água, que ficam prejudicados quando a atmosfera já se encontra muito saturada. Assim, o efeito de uma temperatura elevada é ainda mais deletério quando existe alta umidade relativa.

Raças mais adaptadas como os zebuínos estão menos sujeitas a este tipo de problema, causado por características constantes em regiões de clima tropical. Estes animais têm, inclusive, pela sua origem, características que lhes permitem manter a homeotermia mesmo em condições de elevada temperatura. Raças de origem europeia, independente do manejo ou sistema de criação são bem mais sensíveis.

nutrição inadequada pode afetar a gestação e causar morte fetal. O principal efeito da nutrição no desenvolvimento do concepto é no início da gestação. Este efeito é particularmente delicado até o reconhecimento materno da gestação, que no bovino ocorre entre 17 e 28 dias após a concepção. Após esta fase, ocorre, na fêmea gestante, alteração na partição dos nutrientes, com maior prioridade para a gestação. Desta forma, variações nutricionais refletem menos no desenvolvimento do embrião.

Por outro lado, alguns componentes da dieta também podem provocar perdas embrionárias quando em excesso. Os efeitos deletérios da proteína dietética ocorrem, principalmente, quando existe excesso de proteína degradável no rúmen, pois esta é rapidamente convertida em amônia, absorvida e reconvertida em ureia pelo fígado. O aumento da ureia circulante poderia alterar o ambiente uterino e prejudicar o desenvolvimento do embrião.

FATORES GENÉTICOS OU ENDOCRINOLÓGICOS

As causas de morte embrionária em bovinos também podem estar relacionadas a problemas genéticos e transmissíveis, que podem levar à alteração de fertilidade e perda do embrião durante o desenvolvimento uterino. Estas alterações podem ocorrer em produtos de animais aparentemente normais. O percentual de perdas devido a esta variável não é fácil de ser calculado, mas estimado como baixo. Este percentual pode se elevar quando se utiliza na reprodução animais sabidamente com alguma alteração genética ou quanto se cruza indivíduos de uma mesma família (parentes próximos), favorecendo a consanguinidade.

O estabelecimento e manutenção da gestação dependem da produção e manutenção das concentrações circulantes dos hormônios dentro de parâmetros bem definidos. Dos fatores endócrinos, a taxa de progesterona durante o início da gestação, é tida como decisiva na manutenção da mesma. A atividade funcional do corpo lúteo é essencial para instalação e manutenção da gestação. Em vacas leiteiras, principalmente de elevada produção, o metabolismo hepático da progesterona é mais acentuado. Dessa forma, mesmo havendo produção suficiente, às vezes a concentração não é adequada para a manutenção da gestação, ocorrendo perda.

O tratamento aleatório de fêmeas visando aumentar os níveis de progesterona podem levar animais com níveis normais deste hormônio a apresentarem um excesso, o que não é desejável, pois ao invés de auxiliar, pode prejudicar o desenvolvimento e provocar morte embrionária. A manutenção de um ambiente uterino adequado depende de quantidades normais de progesterona. Assim como a deficiência, o excesso também é deletério.

PROBLEMAS PATOLÓGICOS OU SANITÁRIOS

Estas causas, segundo vários estudos geralmente representam menos de 30% dos casos de perdas de gestação em bovinos, nas diferentes fases. As doenças que causam morte embrionária ou fetal em bovinos podem ser divididas em problemas clínicos e doenças infectocontagiosas. Entre os problemas clínicos, qualquer doença sistêmica pode potencialmente provocar perda da gestação. Isto pode ocorrer por ação direta do agente no útero ou indiretamente, pela hipertermia materna ou pela produção de toxinas que possam atingir o embrião ou feto. Outra forma de efeito indireto das infecções na manutenção da gestação ocorre quando há produção de grande quantidade de prostaglandinas. Estas substâncias, principalmente a PGF , que é um mediador químico de qualquer processo inflamatório pode, em determinadas situ- Leite Controlando a morte embrionária garante-se um maior número de nascimentos ações, provocar regressão do corpo lúteo e queda na concentração circulante de progesterona, hormônio que mantêm a gestação.

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As infecções uterinas também são causas de morte embrionária, neste caso geralmente no início do desenvolvimento do embrião, quando este chega ao útero. Em bovinos, o produto da concepção já está no útero de quatro a seis dias após a fecundação. Caso a infecção uterina não tenha impedido o transporte e capacitação espermática e com isso a fecundação, ela pode interferir na sobrevivência uterina do embrião. Pode ocorrer pela ação direta das bactérias no embrião ou pela alteração do ambiente uterino adequado ao desenvolvimento do mesmo.

As principais causas de perda embrionária em bovinos de origem infecciosa estão relacionadas a doenças infectocontagiosas específicas. Os agentes infecciosos causadores destas doenças têm certa predisposição para os órgãos genitais, principalmente útero. As principais causas infecciosas específicas de morte embrionária precoce em bovinos são a Rinotraquíte infecciosa bovina (IBR), a Diarréia viral bovina (BVD), a Tricomoníase e a Campilobacteriose. As outras infecções como Leptospiroses, Brucelose, Neosporoses e infecções fúngicas estão relacionadas, geralmente, a perdas em estágios mais tardios da gestação ou mesmo abortos.

Como apresentado, as causas de morte embrionária em bovinos são variadas. E podem ocorrer em períodos distintos da gestação. Devido a estas características a determinação exata do motivo de cada perda talvez não seja uma tarefa das mais fáceis. Vale lembrar que a maioria dos prejuízos ocorre em fases iniciais da gestação e pode sequer ser detectada. Ao contrário do que se imagina, a maior parte das perdas não acontece por causas infecciosas, específicas ou não. Independente da causa, sempre cabe o monitoramento, para que se possa, quando este valor estiver acima do aceitável, proceder as devidas providências, tanto para identificação da causa, como para a implementação das medidas de controle.

*Carlos Antônio é médico-veterinário PhD
e Diretor Técnico da Biotran
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