Sobrevoando

 

Angus, quebrado um paradigma

Toninho Carancho
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Aconteceu em 2013 e só agora, com o lançamento do aguardado relatório da ASBIA (Associação Brasileira de Inseminação Artificial), tivemos contato com esta realidade.

O Angus vendeu mais sêmen que o Nelore.

Isto é um acontecimento de enorme relevância. Muda o cenário da pecuária brasileira. Esta notícia já tinha sido dada em primeira mão, no mês passado, na coluna Do Pasto ao Prato, aqui da AG, escrita pelo competente e bem informado Fernando Velloso. Mas resolvi, pela importância do fato, escrever sobre o mesmo assunto. Vou mais devagar, mas chego lá.

O relatório da ASBIA, que representa cerca de 91% do mercado brasileiro de venda de sêmen, mostra que a venda de Angus (de cor preta) aumentou de 2.338.097 doses, em 2012, para 2.910.997 doses em 2013, aumento de 24,5%. E de 2011 para 2013 o aumento acumulado foi de significativos 61,15%. No Red Angus (que no Brasil é a mesma raça Angus), a comercialização em 2013 foi de 455.589 doses, uma diminuição de 15,8% em relação a 2012 e diminuição de 21,11% no acumulado 2011 e 2012. Ou seja, no total a raça Angus (pretos e vermelhos) vendeu 3.365.586 doses em 2013, contra 2.879.188 doses em 2012. São 486.398 doses a mais. É dose que não acaba mais.

Já o Nelore caiu de 3.057.464 doses, em 2012, para 2.698.491 doses, em 2013, queda de 11,74%. Se somarmos o Nelore Mocho ao Nelore, teremos um número total de 3.320.598 em 2012 contra 2.921.807 doses negociadas em 2013. Uma diminuição de 398.791 doses. É muita dose a menos.

Ou seja, os Angus cresceram bem mais do que a queda dos Nelores. A diferença foi de 443.779 doses em 2013. Este número é muito significativo e me parece que a tendência é aumentar nos próximos anos.

Para um país tropical como o nosso, e acostumado com a hegemonia do Nelore por muitos anos, realmente é uma quebra de paradigma muito grande esta venda de sêmen expressivamente superior da raça Angus. É uma mudança de conceito. É o boi precoce entrando na jogada, e com força total. É o cruzamento voltando com força total depois da ressaca dos anos 2000.

Estes números nos fazem pensar o que vai acontecer daqui para frente. Será que a vacada Nelore vai diminuir e no lugar dela começarão a aparecer mestiças meio-sangue?

Será que depois de ser inseminada com Angus esta vacada, branca ou não, vai ser repassada por touros em grande escala por raças sintéticas, compostas ou adaptadas? Qual raça vai ocupar este espaço? O Braford? Brangus? Montana? Senepol? Bonsmara?

Tem touros melhoradores suficientes destas raças para cobrir um milhão de vacas meio-sangue que nascem todo o ano? – Para cobrir um milhão de vacas precisamos de 40.000 touros (1:25).

E as marcas de carne, será que vão se antenar com esta imensa quantidade de meio-sangue e tentar puxá-las para seu assado? As fêmeas estão aí. Quem se habilita a cobri-las? Ou ainda, quem se prontifica a convencer (com números, grana) os produtores a não matarem estas fêmeas?

Parece-me que este é um mercado que está caindo de maduro para algumas raças realmente crescerem e tomarem corpo.

Ou será que foi só um soluço? Um sonho? Um devaneio?

O tempo e as atitudes dos fazendeiros dirão para onde vamos.

Os dados estão lançados.