Caindo na Braquiária

O Nortão sendo reformado

Assim que desembarquei em Alta Floresta/MT, Pedro Dalpasqualle, veterinário que presta assessoria de alto nível técnico em reprodução e manejo a muitos criadores do Nortão, já me aguardava para passarmos uma semana visitando pecuaristas usuários da inseminação. Foi com alegria que visitamos Alex, em sua conceituada loja agropecuária, a fim de rever um amigo, parte de uma família muito querida por mim, já que seu pai Wilson foi um dos pioneiros daquelas bandas e um dos produtores, que desde minha primeira visita na cidade, depositou confiança no meu trabalho.

Através do crescimento do número de lojas na região, muito bem administradas pelo herdeiro, se nota que Wilson vem passando seus adágios ao filho com maestria. Em nosso bate-papo Alex fez uma descrição do momento vivido pelos pecuaristas locais, detalhando o problema da morte súbita do braquiarão em toda região, onde o movimento das lojas vem caindo, apesar dos excelentes preços atuais da arroba, jamais recebidos anteriormente. “Zadra, os criadores me parecem estagnados para novos investimentos, sendo a preocupação com a “morte súbita da braquiária” questão de sobrevivência para se manter na atividade, pois os mesmos têm gado e estão sem capim. Algumas fazendas da região já perderam a maior parte do pasto da propriedade por esse mal que vem afligindo nossa região desde 2010, se intensificando nos últimos anos."

Um trabalho de pesquisa desenvolvido pela Embrapa estuda as causas do problema, no qual um dos pesquisadores afirma: “Esta área era ocupada por floresta há 10, 20, 30 anos. À medida que a gente retira a floresta e passa a trabalhar com pastagens, começamos a utilizar uma área de solo menor, e com os altos índices pluviométricos de Mato Grosso, caminhamos para uma condição de mudança do uso dessa terra”, diz. Segundo ele, esta combinação de fatores reduz a quantidade de infiltração da água no solo e o torna menos oxigenado para as raízes da planta, abrindo portas para a entrada de fungos. A melhor solução é a reforma da terra, com calcareamento adequado, adubação e plantio de cultivares de capins diferentes na reforma, tais como mombaça, estrela e humidícula, sendo que a área degradada pode ser recuperada em 120 dias.

Após muita chuva e condições de pavimento, por vezes intrafegáveis, como sobre o Rio Teles Pires, o qual abrigará duas Usinas Hidroelétricas, chegamos a Itaúba, na fazenda administrada pela paranaense Elza. Mulher observadora do comportamento animal, sagaz no trato com seus funcionários e adepta à tecnologia moderna disponível, vem se especializando na venda de bezerros meio-sangue Angus pesados, por meio de uma parceria com um frigorífico que fomenta o uso da IATF com a raça, garantindo a compra dos mesmos por preço já fixado de mercado, parceria que vem sendo usada por diversos pecuaristas da região.

No caso do rebanho gerenciado pela Elza, deparamo-nos com algumas práticas desenvolvidas ali mesmo, como a Inseminação Artificial por Tempo Fixo (IATF), ao longo do ano (não há estação de monta), por até três vezes (1 IATF + 2 Ressincronizações) no mesmo lote e repasse das vazias após as 3 IATFs com sêmen sexado de machos Angus através da inseminação convencional. Dessa forma, vem conseguindo, em 72 dias de monta, mais de 90% de prenhez, sem possuir bezerros produtos de touros de repasse, afirmando que com a diferença de preço entre R$ 300,00 e R$ 350,00 obtida com um macho em relação à fêmea desmamada, vale a pena o investimento em sêmen convencional e sexado-macho de qualidade genética superior.

Contrariando as recomendações dos consultores da região, Elza adotou o desmame precoce com 3 a 4 meses de idade, sendo que aos 90 dias de vida inicia a alimentação dos bezerros no creep-feeding, ministrando silagem e ração. A separação dos bezerros ocorre aos 120 dias, quando os mesmos permanecem com comida e água dentro do curral por cinco dias no momento do desmame.

Ela relata que após esse período difícil para a vaca e o filho, tudo se normaliza, levando a vacada que por ventura esteja vazia a ciclar e se recuperar, aumentando os índices de prenhez do rebanho.

Como Elza tem compromisso de entregar ao parceiro bezerros pesados, os mesmos são mantidos no confinamento até os seis meses, consumindo silagem à vontade + 2% do PV em ração na quantidade de 2% de seu peso vivo, manejo do qual a mesma afirma que até os guaxos ficam bons. Outra vantagem enumerada pela administradora é o aumento de lotação das vacas no pasto, por estarem sem bezerro ao pé.

Era julho de 2009 quando escrevi nesse mesmo espaço que torcia para que os frigoríficos da região trabalhassem em harmonia com a classe pecuária, valorizando os animais de qualidade da região através do incremento de preços. Pois bem, hoje, já estamos vivendo essa valorização. Precisamos agora dar total atenção à renovação do solo, para que o Nortão volte a ter a lotação de 2 a 3 cabeças por hectare/ano.

Alexandre Zadra - Zootecnista
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