Sanidade

 

Novo alerta

Forma atípica da doença da Vaca Louca volta a assombrar brasileiros

Após o susto em 2012, o Brasil volta a ficar alerta com uma nova suspeita de um caso atípico de Encefalopatia Espongiforme Bovina (EEB) ou doença da Vaca Louca, como é conhecida no mundo todo. Desta vez, foi no Mato Grosso, próximo à divisa com a Bolívia. A divulgação pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) coloca o País em estado de atenção e deve deixar os diplomatas de cabelo em pé nos próximos dias, pois o anúncio aconteceu em um momento extremamente inoportuno.

Aguarda-se ansiosamente a abertura de mercado dos Estados Unidos para a carne bovina in natura brasileira, o que seria um marco histórico. O país norte- -americano serve de passaporte para as exportações de proteína vermelha a outros grandes compradores que ainda mantêm barreiras técnicas ao produto nacional. Um bom exemplo são a Rússia, o Japão e a China. Ainda hoje o governo tenta, a duras penas, reverter o embargo chinês que já completou dois anos.

As investigações de campo indicam tratar-se de uma suspeita isolada e da forma incomum da doença, já que o animal foi criado exclusivamente em regime de pasto e foi abatido com idade avançada, cerca de 12 anos. Essas são as principais características de um caso atípico de EEB. Ocorre de forma esporádica e espontânea, não relacionada à ingestão de alimentos contaminados (entenda-se produtos de origem animal, principal causador do mal).

Os produtos derivados desse bovino não ingressaram na cadeia de alimentação humana, sendo o mesmo incinerado. Por precaução, todos os animais contemporâneos a ele foram identificados individualmente e colocados em observação. O bovino analisado foi enviado para abate no dia 19 de março de 2014, em virtude de problemas reprodutivos ocasionados pela idade avançada, mas sem apresentar sintomas de distúrbios neurológicos, que são evidentes em animais acometidos pela Vaca Louca na forma natural.

Durante a inspeção ante mortem, o fiscal federal agropecuário responsável pela fiscalização no frigorífico observou que havia um animal caído, ou seja, em “decúbito forçado”. Com esse quadro, o animal foi direcionado ao abate de emergência e submetido à coleta de amostras para detecção de possíveis doenças, entre elas a EEB. O resultado final dos exames realizados em laboratório agropecuário nacional (Lanagro) detectou a marcação priônica.

Seguindo os protocolos brasileiros e internacionais, foram tomadas as medidas necessárias para realizar a investigação epidemiológica a campo e envio da amostra ao laboratório de referência internacional da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), em Weybridge, na Inglaterra, para confirmação da suspeita. O sistema brasileiro de defesa sanitária animal relacionado à EEB já está consolidado há décadas e permitiu ao Brasil ser classificado como País com risco insignificante para a doença perante à OIE.

Essa classificação é a melhor que existe no mundo. Todas as informações sobre o ocorrido já foram repassadas pessoalmente por representantes do Mapa à OIE, que enalteceu a transparência e competência brasileira, colocando, inclusive, sua estrutura à disposição, assim como seus laboratórios de referência. A notificação oficial e novas informações sobre o caso serão repassadas quando sair o laudo definitivo do laboratório da OIE, que deve ocorrer após o fechamento desta edição. Agora, é aguardar.

CASOS NO PARANÁ

Em 2010, um bovino também com idade avançada, 13 anos, foi entregue por sua proprietária às autoridades sanitárias sob suspeita de raiva. Não foi detectada a doença e o animal morreu 24 horas depois. Conforme orientam os protocolos dos serviços de sanidade nacionais e internacionais, foi coletada amostra para análise no laboratório oficial do Governo do Paraná, que é o Centro de Diagnósticos Marcos Enrietti. Os exames deram negativos para raiva e a amostra seguiu ao Lanagro e, posteriormente, ao laboratório inglês de referência.

O resultado comunicado às autoridades brasileiras deu positivo para EBB, mas destacava que tratava-se de um caso atípico da enfermidade, o que pode ocorrer com qualquer animal sadio, seja no Brasil ou em qualquer outra parte do planeta. O caso teve seu desfecho apenas em 2012, quando 12 países cessaram imediatamente as importações da carne bovina oriunda do Brasil. À época, Antônio Carlos Alessi, especialista em Patologia Veterinária da Unesp de Jaboticabal, tranquiliza os pecuaristas reforçando que o caso fora caracterizado como não clássico, devido o animal a ter desenvolvido de forma espontânea, mas não ter morrido em virtude dela.

CAMA DE FRANGO

A Vaca Louca é caracterizada por uma reação particular do organismo dos bovinos à ingestão de alimentos de origem animal, nos quais também se enquadra a cama de frango, que pode conter fezes, urina e às vezes até restos de carcaças das aves, e é proibida por lei. O fato serve para reforçar a importância do assunto a alguns pecuaristas que insistem em alimentar seu rebanho com cama de aviário, prática a qual o Governo vem fiscalizando pesado. Os dois estados afetados, por exemplo, possuem fazendas que já foram interditadas pela prática ilegal. Em 2010, mais de 400 bovinos foram abatidos no Paraná. No mesmo ano em que ocorria a morte do animal que portava a forma atípica de Vaca Louca naquele território.

O fato veio a público apenas em 2012, resultando no embargo e redirecionamento das exportações da carne bovina brasileira, e também resvalando sobre o mercado interno. Coincidências à parte, uma propriedade mato-grossense teve 30 cabeças abatidas pelo mesmo motivo. E agora, dois anos depois, ocorre um caso atípico no estado. Mas vale ressaltar que o animal foi criado em regime extensivo, consumindo apenas capim e sal mineral, segundo investigou o Ministério da Agricultura.

Mapa disponibiliza manual para diagnóstico de EBB