Genética

 

Ano de ajustes no Corte

Pela primeira vez, Angus ultrapassa o Nelore nas vendas de sêmen. Mesmo com um primeiro semestre ruim, setor tem crescimento de 5,5%

Bruno Santos
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Após muito suspense e ansiedade por parte de todos do setor, finalmente a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia) divulgou no final do mês de março, em São Paulo/SP, os dados da comercialização de sêmen de 2013. Contudo, o que o mercado já especulava realmente se confirmou: o Angus ultrapassou o Nelore firmando-se absoluto na primeira colocação.

Segundo o Index Asbia, que representa 91% do mercado brasileiro, em 2013, foram comercializadas 13 milhões de doses, um crescimento de 5,5% em comparação a 2012, quando foram vendidas 12,3 milhões de doses. Esse crescimento de 5,5% foi bastante comemorado, pois todos se surpreenderam com as vendas do segundo semestre, já que o primeiro foi um dos piores já vistos no histórico.

Para entender o quão ruim foi o primeiro semestre do ano passado, o presidente da Asbia, Lino Rodrigues, lembra que o setor sinalizava queda de quase 7%, situação impensada nos últimos anos. “O primeiro semestre nos deixou preocupados, em maio, pois tivemos ainda a desvalorização do real. Mas, no geral, o resultado não foi ruim para a inseminação. Se compararmos ao PIB, por exemplo, foi expressivo. Viemos de um crescimento fantástico em 2011, e mantivemos em 2012, mas em 2013 começou a sinalizar um ajuste de estoque tanto dos produtores quantos nos preços praticados no leite e no corte”, conceitua.

Em 2014 o estoque estará ajustado e deveremos ter um crescimento superior a esses 5%, pontua Lino Rodrigues

Esse crescimento no segundo semestre foi alavancado pelas raças leiteiras, com 5,3 milhões de doses, um incremento 9,59% diante das 4,8 milhões de doses de 2012. “O leite teve uma demanda crescente e deve continuar em ascensão, apesar dos insumos terem aumentado. Mais uma vez fica claro que os preços do leite e da carne, impactam diretamente na inseminação artificial. Por isso, tivemos um crescimento expressivo no leite, e tímido no corte”, salienta Rodrigues.

Esse crescimento tímido citado pelo presidente da Asbia no corte foi de 2,87%. O setor passou de 7,4 milhões de doses comercializadas para 7,6 milhões. “É de conhecimento de todos a valorização do preço da arroba e o bom momento que temos observado, porém, se deu apenas no final de 2013, ou seja, durante todo o ano ficou estável e isso impactou diretamente nosso negócio”, completa o comandante da Asbia.

RAÇAS

A grande novidade do relatório ficou por conta da notícia de que o Angus (Abeerden + Red) ultrapassou o Nelore (Padrão + Mocho) na comercialização de sêmen em 2013. A raça taurina vendeu 3.366.586 de doses, alcançando 44% no mercado de corte, enquanto o Nelore comercializou 2.921.807 doses, REVISTA AG - 33 respondendo por 38% desse segmento. Mesmo com a queda de 15,80% na variação vermelha do Angus, o Abeerden, com 24,50% de crescimento, foi o grande destaque.

O crescimento do Angus sobre o Nelore, segundo os especialistas, ocorreu por vários motivos. Talvez o principal deles seja pelo crescimento da IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo), que alavancou o crescimento do cruzamento industrial, principalmente, no Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Brasil. Essa demanda por sêmen da raça britânica pode ser atribuída ao bom trabalho de marketing nacional e internacional que a associação da raça vem fazendo, mostrando e comprovando a qualidade dos produtos para a produção de carne. “Isso seria um dos motivos da queda do Nelore de 11,74% no Padrão e 15,13% no Mocho. A grande base que utilizou o sêmen Angus foi o criador de Nelore. Mas o zebu também não deixou de ser usado porque não podemos esquecer da reposição”, destaca Welington Shiroma, gerente de área da CRV lagoa.

Já o gerente de mercado da Alta Genetics, Tiago Moreira Carrara, é mais cauteloso sobre o crescimento do Angus e não credita ao Nelore esse avanço. “Eu acredito que o Angus cresceu em cima do touro que fazia monta natural e que até podia ser Nelore, mas são mercados que estão sendo abertos; pessoas novas estão ingressando na atividade, pois o mercado é muito dinâmico”, pontua.

Para Sérgio Saud, diretor-executivo da CRI Genética, esse crescimento do Angus não foi surpresa. Segundo ele, teve a questão do grande estoque de sêmen por parte dos Neloristas e isso se atribui ao fato da raça estar passando por um momento de transição. “Existe a questão do mercado de elite e de produção, o que, na verdade, seria uma coisa só. Agora, começa a se avaliar a característica que se busca num reprodutor”, enfatiza.

O executivo destaca ainda que já está acontecendo essa mudança na mentalidade no criador de Nelore, que começam a buscar animais focados na produção e que realmente vão contribuir para a produtividade do rebanho. “A tendência agora é dos criadores realmente focarem nos animais que entreguem produtividade, ganho de carcaça, precocidade e peso com baixo consumo”, finaliza Saud.

Quanto às outras raças, não houve muita alteração, mesmo com queda de 6,74% e 165.787 doses comercializados, o Brahman continua na terceira colocação. Já o Brangus vislumbra um bom momento e chegou à marca de 146.944 doses vendidas, um incremento de 31,09%, bem como o Braford, que cresceu 5,54% no relatório da Asbia, com a comercialização de 139.452 doses.

Já no mercado leiteiro as raças com maior representatividade foram: o Holandês, que segue absoluto, com 3.123.885 doses comercializadas, seguido pelo Jersey, que evoluiu 21,11%, ao vender 888.931 doses. Já o Gir Leiteiro, que em 2012 amargou queda de 11,81%, voltou a crescer; e, em 2013, comercializou 683.984 doses.

NACIONAL E IMPORTADO

O crescimento de 5,5% da Inseminação Artificial em 2013 foi alavancado pela importação: avanço de 11,55%, com 6.430.721 de doses, perante o tímido 0,27% do mercado nacional, que registrou 6.593.312 doses. “O sêmen nacional praticamente permaneceu estável. Isso porque a presença do sêmen nacional é mais forte no gado de corte. Já o sêmen importado cresceu 11,55% porque está bastante relacionado ao mercado do leite”, pontua o presidente da Asbia.

Lino Rodrigues acrescenta, ainda, que esse crescimento do importado se atribui ao avanço do Angus. A raça (Abeerden + Red) movimentou a quantia de 2.386.129 de doses, o que representa a expressiva participação de 90% no corte.