Raça do Mês

 

WAGYU

Kobe Beef da maciez e da rentabilidade mostra seu potencial

Uma raça curiosa, de animais de pequenas estaturas, que se mostram verdadeiros ‘gigantes’ quando o assunto é marmoreio. Não é a toa que o Wagyu produz, hoje, a carne mais valorizada do mundo. O taurino que chegou ao Japão em meados do século II apresenta duas vertentes, o Black Wagyu, que se desenvolveu, sobretudo, nas regiões de Tottori e Tajima, e o Red (Brown) Wagyu, de Kochi e Kumamoto. Foi com a abertura do Porto de Kobe, em 1868, para o comércio internacional que os estrangeiros puderam apreciar o sabor da carne bovina local, que ficou conhecida mundialmente como “Kobe Beef”, produto com extremo marmoreio, a gordura infiltrada entre as fibras musculares.

De acordo com Sadao Iizaki, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Bovinos da Raça Wagyu (ABCBRW), a variedade Black é mais vista que a Brown e o que diferencia uma da outra, além da cor, WAGYU Kobe Beef da maciez e da rentabilidade mostra seu potencial é que a primeira tem uma genética mais voltada para o marmoreio e a segunda imprime um maior tamanho de carcaça. “A raça Wagyu é especializada em produção de carne de extrema qualidade e tem se destacado na gastronomia internacional por sua maciez, suculência, sabor e aroma. A qualidade de gordura caracteriza-se por um alto teor de ácidos graxos insaturados, que conferem certa leveza à carne”, completa.

Esse gado, que em solos orientais recebe um tratamento diferenciado, com direito a cerveja e sessões de massagem ao som de música clássica - sendo essas para melhorar o marmoreio e a bebida para auxiliar o apetite e o aproveitamento de nutrientes na digestão -, tem uma história recente no Brasil. Os primeiros animais importados dos Estados Unidos chegaram ao País em 1992, por meio da Fazenda Yakult, localizada em Bragança Paulista (SP). Pouco tempo depois, a propriedade importou novamente lotes de embriões e sêmen da raça com origem 100% japonesa. O primeiro leilão em terras tupiniquins aconteceu em 2007 e, desde então, a raça vem conquistando espaço e conta com um rebanho superior a 5 mil animais PO e criadores espalhados pelos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais, Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul.

No último ano, o Wagyu, que teve registro de 481 cabeças no País, foi responsável pela comercialização de mais de 29 mil doses de sêmen (entre nacional e importado), segundo relatório oficial da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia). O documento também relata uma evolução de 89,7% no aumento das vendas entre 2009 e 2013. Contudo, houve um recuo de 16% entre 2012 e 2013.

“Atualmente, o rebanho de animais cruzados (1/2 sangue; 3/4 sangue; 7/8 sangue, 15/16 sangue; etc.) ultrapassa 30.000 cabeças. É importante ressaltar que os cruzamentos com fêmeas Nelore ou ½ sangue Nelore X Angus têm apresentado ótimos resultados, sendo pagos valores até 40% acima do índice Esalq/Cepea para bezerros desmamados, dependendo do desenvolvimento do animal. Com a expansão de um mercado consumidor cada vez mais exigente em termos de qualidade, a procura de cortes de carne com alto marmoreio é uma crescente. Com isto, a raça vem aumentando através de novos investidores para que, aos poucos, seja possível o abastecimento de restaurantes e butiques de carne de alta gastronomia”, observa o dirigente.

Segundo Sadao Iizaki, o interesse pela raça tem crescido bastante

Em resumo, no Brasil, além das duas linhagens convencionais, há uma terceira, a Black Mocho - oriunda do cruzamento com o Angus. Machos possuem altura média de 1,60m, podendo alcançar mil quilos de peso, estando prontos para o abate aos 30 meses com 750 kg. Dentro deste peso, aproximadamente 25 a 30 quilos são de contrafilé, o que gera um retorno financeiramente interessante, isso sem calcular os valores obtidos com os demais cortes. Sobre sistemas de criação, para animais puros é recomendado o confinamento da desmama ao abate, o que garante a qualidade diferenciada da carne, conforme pondera Elieu Marcos Palamin, médico veterinário da ABCBRW, em vídeo disponível no site da associação.

POR QUE É DIFERENTE?

Iizaki destaca que o Wagyu é um gado de temperamento dócil e fácil adaptação e que traz a precocidade sexual como uma de suas características mais marcantes. “Como todo Bos Taurus, ele requer atenção no manejo sanitário, relativo à ecto e endoparasitas. Quando criados em regiões muito quentes, fazem-se necessárias áreas de sombreamento, a fim de se evitar o stress térmico. Quanto à precocidade, como curiosidade, relatam-se casos de machos de oito a dez meses já cobrindo e emprenhando fêmeas adultas, assim como bezerras, na mesma faixa etária, encontrando-se prenhas. Mas, neste item, o que é interessante é que, com programas adequados, a raça vem apresentando ótimos resultados na produção de embriões, tanto pela TE tradicional, como na FIV”.

Vale lembrar que, conforme pontua a entidade, os objetivos da seleção da raça no Brasil seguem os moldes japoneses, priorizando a conversão alimentar e a busca por animais com alto rendimento de carcaça, precocidade e carne de qualidade (marmoreio) associados à estabilidade produtiva e viabilidade econômica. Os trabalhos visam intensificar o uso dos touros aprovados e aprimorar o controle e seleção das fêmeas, buscando seleção e padronização.

Na capacidade reprodutiva, a meta é que os animais tenham um parto por ano, associado à habilidade materna, outro ponto de destaque da raça. Nas fêmeas, preza-se por animais com alto volume muscular e que facilitam o manejo e alimentação, evitando-se exemplares muito grandes ou gordos. A seleção é baseada em informações de ganho de peso, rendimento da carcaça (teste de progênie das fêmeas) e na utilização de transferência de embriões para ampliar a genética selecionada das fêmeas. Já nos machos, a seleção dos reprodutores é baseada nos dados de qualidade e rendimento de carcaça, precocidade e conversão alimentar.

Para selecionar e promover o melhoramento genético da raça, a ABCBRW tem se dedicado à apuração de dados estatísticos junto aos criadores. “Dentre os pontos a serem melhorados, podemos citar um manejo mais criterioso dos animais nas diferentes fases da criação, para que a raça possa expressar todo seu potencial genético. Uma das principais metas é a padronização de carcaça. Priorizamos a busca de um rebanho nacional o mais harmonioso possível para que abates, em diferentes regiões, imprimam qualidade de carne similar”, conta o presidente, lembrando ainda que estão sendo realizados abates técnicos com a finalidade de garantir essa qualidade de carne.

Os trabalhos da associação, que foi fundada em 1994, compreendem também outras ações como a participação em feiras e eventos de âmbito nacional (Feicorte – atual ExpoCorte - e a Expoingá), o desenvolvimento de material de divulgação e orientação de manejo em folders e DVDs, além da promoção de ciclo de palestras com técnicos especializados. “Em março, foi realizado um Dia de Campo em Americana/SP, na fazenda do criador Daniel Steinbruch, com a presença de vários criadores de outras raças. Este mesmo criador já está partindo para seu 3° leilão da raça. Já há projetos para outros dias de campo neste ano, inclusive no Paraná”.

A entidade abriu o ano contando com 50 criadores em todo País. “O interesse pela raça tem sido bem positivo para a associação e esperamos continuar crescendo. Além do que, um produtor que se torna associado acaba tendo uma série de vantagens, como a interação com os demais criadores da raça e atualização das necessidades de mercado, agregação de valor ao animal registrado e a própria questão da assistência técnica”, explica.

PROGRAMAS E MERCADO

Daniel Steinbruch, diretor de marketing da associação e criador da raça desde 2007, conta que a entidade desenvolve várias ações para divulgação da raça em exposições pelo Brasil, além de prestar serviços através de seus técnicos para o esclarecimento de dúvidas e apoio a novos criadores. “Estamos desenvolvendo um selo de certificação de carne de animais puros para diferenciar esse produto dos demais. Para possuir esse selo, os animais devem ser comunicados para associação e possuir exame de DNA. Fora isso, criadores vêm trabalhando com a divulgação de seus plantéis e da raça como um todo. Nós, da Kobe Premium, vamos fazer nosso terceiro leilão neste mês de maio. Recentemente, fizemos um Dia de Campo, sendo que em todos os eventos obtivemos um grande sucesso. Fomentamos a entrada de novos criadores via diversas parcerias como a garantia de compra de animais desmamados, de boi gordo ou de confinamento, modalidade na qual criadores que não possuem infraestrutura confinem em parceria com a marca”, diz.

Questionado sobre o destino da carne do Kobe Beef, Steinbruch destaca que definir o mercado nacional da carne de Wagyu é muito fácil, isso porque a demanda é infinitamente maior que a oferta. Como exemplo, ele cita que neste ano a grife Kobe Premium vai fazer mais de 1.000 prenhezes com o intuito de suprir essa lacuna e que esse volume tende aumentar todo ano. “No momento, estamos trabalhando para atender o mercado nacional. Em um futuro próximo, vamos exportar, pois esse produto diferenciado está em falta no mundo todo. Vendemos para os melhores restaurantes de diversas cidades, assim como para lojas de carne nobre”.

Sobre como está a valorização dos produtos Wagyu no País, Sadao Iizaki comenta que os criadores, de forma geral, estão satisfeitos com os preços obtidos, pois a remuneração pode chegar ao dobro do valor da arroba definido pela Esalq. Entretanto, Daniel Steinbruch pondera que, se comparado a outros países, os preços alcançados no Brasil podem melhorar. “Não se compra Kobe Beef por menos de 300 euros na Europa e no Japão esse valor é ainda maior. No Brasil, o mercado varejista chega a R$ 580 reais. No caso de animais, não se compra por menos de 20.000 dólares no exterior, valor que ainda não alcançamos no Brasil. Uma vaca que produz bois gordos de R$ 7.000 a R$ 10.000 tem que ter valor de, no mínimo, R$ 40.000. Vamos supor que o criador aspire essa vaca por um ano: ela irá produzir 30 prenhezes, sendo 15 produtos machos. Só nesta conta, o faturamento seria de R$ 130.000”, exemplifica.

O diretor de marketing conta que a marca Kobe Premium tem o interesse em expandir a oferta de animais para abate. Com isso, começaram a vender algumas doadoras com o intuito de aumentar o número de criadores que possam fornecer animais para o grupo. “Dez novos nomes entraram para a raça nesse sistema”, comemora.

Para Daniel Steinbruch, cada vez mais os frigoríficos remuneram melhor por qualidade

Wagyu possui linhagens Red, Black e Mocha

 

“Como temos dificuldade de fazer uma escala de abate, já que só trabalhamos com animais PO, criamos um programa de parcerias para que outros criadores possam comercializar seus animais. Compramos animais desmamados por duas vezes a @, compramos boi gordo de acordo com o marmoreio e pagamos até duas vezes a @ e também confinamos o boi de outros criadores”. Segundo ele, uma produção em escala pode ser uma alternativa para alavancar ainda mais a raça no Brasil.

Carne valorizada: quilo do contrafilé custa mais de R$ 500

Analisando a contribuição da raça Wagyu à pecuária brasileira e o futuro da raça no País, Steinbruch acredita que os frigoríficos bonificarão mais pela qualidade de carne. “Com o aumento das exportações, a exigência por qualidade só cresce. A raça tem um grande potencial em melhorar o rebanho nacional através de cruzamento industrial. É, sem dúvida, uma forma do pecuarista aumentar sua renda sem fazer investimentos na reforma de pasto ou aumentar área. Além do cruzamento industrial, o Wagyu possui um nicho de carnes com valor agregado sendo pagos R$ 580 por um kg do contra-filé de um animal PO no varejo. Portanto, o rebanho puro tende a aumentar”, conclui.