Caprinovinocultura

 

Potencial para crescer

A produção do leite de ovelha ainda é pequena, mas, se depender dos criadores e do mercado, pode evoluir muito

Denise Saueressig
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O consumidor está acostumado a relacionar os ovinos à carne e à lã, mas esses animais têm ainda mais a oferecer. A produção do leite de ovelha, mais frequentemente usado para a fabricação de queijos, é incipiente no Brasil, mas reúne criadores dedicados e chama a atenção para um mercado interessante e diferenciado.

O produtor Márcio Aguinsky iniciou os investimentos no leite na década de 1990, com a importação de reprodutores e matrizes da raça Lacaune, originária da França. Hoje, a Cabanha Dedo Verde, em Viamão/RS, além da produção própria de derivados do leite, é fornecedora de animais a produtores interessados em investir no negócio.

O rebanho atualmente é formado por 700 animais, e um dos objetivos do criador é ampliar os índices de produtividade entre 30% e 35%. Para isso, novidades e tecnologias vêm sendo incorporadas. Uma delas é o melhoramento genético a partir da importação de sêmen de ovinos da Inglaterra. A outra está relacionada ao manejo, com a adoção de um amamentador automático para os cordeiros recémnascidos. “Com a utilização do equipamento, o filhote mama o colostro já na mamadeira e conseguimos um ganho de 70 litros de leite em cada ovelha com esses 23 dias da não mamada”, explica Aguinsky.

Além de fornecer animais para criadores que também produzem leite, a Cabanha Dedo Verde vem recebendo procura para cruzamentos “tricross” com raças de carne. “O interesse vem crescendo porque o Lacaune é um ovino de boa estrutura corporal e as mães têm uma grande oferta de leite”, observa o criador gaúcho.

A produção diária de 400 litros de leite da Dedo Verde é utilizada para a fabricação de queijos finos na Confer Alimentos, unidade industrial que fica junto à cabanha. Entre os projetos para os próximos meses está produção e comercialização de um sorvete sem lactose. Segundo Aguinsky, o mercado consumidor para os queijos feitos no Brasil está em expansão. Além de atestarem a qualidade da produção nacional, os consumidores buscam um preço mais baixo em comparação com os queijos importados. “Nossos maiores compradores estão no Sudeste, com destaque para o estado do Rio de Janeiro, onde acreditamos que será interessante o investimento em uma bacia leiteira”, destaca.

Rebanho leiteiro é estimado em 7,5 mil animais no País

INVESTIMENTOS NA ATIVIDADE

Em Santa Catarina, o produtor e empresário Erico Tormem é um entusiasta da produção do leite de ovelha. Ele iniciou seus investimentos em 2006, quando adquiriu 30 fêmeas e um macho da Cabanha Dedo Verde. Empolgado com a atividade, comprou ainda 43 machos e entregou para outros produtores do oeste do estado para formar uma bacia leiteira na região.

No entanto, um problema com a empresa que adquiria o leite fez com que muitos criadores desistissem no meio do caminho. Agora, na região, ele e outros quatro produtores permanecem na atividade e conseguem obter bons resultados.

Na Cabanha Chapecó, em Chapecó, Tormem mantém um rebanho de 1.250 animais. Da produção de 250 litros/dia, 200 litros são comercializados para a empresa Gran Paladare, que paga R$ 3 pelo litro do leite e fabrica queijos nobres a partir do alimento. O restante é aproveitado na sua própria sorveteria, Caprinovinocultura onde ele produz e vende iogurte, sorvete, milk shake, pão de queijo, leite, queijo e outros alimentos, todos derivados do leite de ovelha.

Um dos próximos planos do empresário é comercializar o iogurte em pó, o que será conseguido por um processo de desidratação por liofilização. A intenção é reduzir o peso e aumentar a validade do produto para a venda em outros estados. “Existe o leite em pó, mas o iogurte é uma novidade. A vantagem é que, se tivermos 100 quilos de iogurte, teremos 20 quilos transformados em pó, além do fato de que não é necessário resfriar o alimento”, detalha.

Na Cabanha Chapecó, a produção diária é de 250 litros

Tormem também está investindo na estrutura da sua cabanha, onde está sendo instalada uma estação de tratamento de efluentes. “Na parte interna, a sala de ordenha foi envidraçada para receber a visita de crianças das escolas da cidade”, conta. Em maio, com o nascimento de um lote grande de cordeiros, o produtor pretende ampliar a produção para entre 500 e 600 litros/dia.

Ex-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos Leiteiros (ABCOL), Tormem estima que o rebanho nacional voltado à produção de leite seja de aproximadamente 7,5 mil animais. Há criadores nos três estados da Região Sul, em Minas Gerais, em São Paulo, na Bahia e no Ceará. “Percebemos que há mais produtores interessados e estamos tentando criar uma organização para a classe produtora, mas também precisamos ampliar o conhecimento que existe sobre o setor, além de apoio e incentivo dos governos para a atividade”, salienta.

Ao contrário do que ocorre em alguns países da Europa que têm tradição na produção do leite de ovelha, o Brasil ainda está no início do caminho para construir uma cultura desse consumo. “É importante que as pessoas provem o alimento e tenham acesso à informação”, considera o empresário, citando que o leite de ovelha tem 50% mais cálcio do que o alimento derivado da vaca.