Leite

 

Pasto pós-soja para leite

Projeto de integração lavoura-pecuária completa nove anos no Arenito Caiuá

Fernando Ribeiro Sichieri*

Nestes últimos anos estamos sendo borbardeados pela expressão "Integração na Agropecuária", seja ILP, ILPF, Integração Silvipastoril, entre outras. Mas poucas informações de resultados a campo com medições e validações de tecnologias ano após ano estão "recheando" essas propagandas de integrações que muitos dizem ser milagrosas.

Um exemplo que mostra resultado é caso do Projeto Arenito, realizado na Estância JAE, em Santo Inácio/PR, onde são feitas pesquisas, validações e demonstrações conduzidas pela Universidade Estadual de Maringá com apoio da Fundação Agrisus e empresas parceiras. Por nove anos consecutivos vem se produzindo forragem para gado de leite no intervalo de duas culturas de Soja de Verão. É o que se chama de integração lavoura pecuária - ILP - em pequena propriedade familiar, onde "plantação e criação se alternam na mesma área".

O solo, da série Arenito Caiuá, tem de 70% a 80% de areia, tendo sido originalmente recoberto por mata alta de perobal denso, não muito grosso - porém, sem os padrões de alta fertilidade da figueira branca, por exemplo -, plantado na década de 1950, no limite da fertilidade inicial, com café, que durou poucos anos em consequência das geadas intensas. Seguiu-se com algodão, substituído por pastagem, devido à erosão. A braquiária cede hoje lugar aos cereais depois de adotado o plantio direto.

A fertilidade original é média, com teores de bases (2/3 cmol/ dm3) e MO (matéria orgânica - 1/2%) baixos, compatíveis com a textura arenosa com menos de 30% de argila e silte. O P (fósforo) extraído por resina é baixo, seguindo a regra da maioria dos solos tropicais. A acidez é média (pH 5/6- H2O), com toxidez por Al (Alumínio) inexistente ou muito baixa. A CTC (4/5 cmol/ dm3) e a saturação (50/60%) são médias, a primeira dentro da faixa das terras com mais de 70% de areia, como o solo em questão. CTC significa Capacidade de Troca Catiônica e é utilizada para avaliação da fertilidade do solo.

Nas medições realizadas durante os nove anos de projeto, as chuvas de abril a outubro somaram de 388 a 698 mm, a média das temperaturas máximas ficou entre 24,7 e 32º C, enquanto a média das mínimas variou de 10 a 18º C; e a mínima absoluta, de -2 a 13º C (Tabela 1).

CLIMA

O clima foi ameno de 2005 a 2013 (abril/set). Nota-se que nos períodos de outono-inverno dos nove anos analisados tivemos chuvas irregulares, mas suficientes para produzir forragem de qualidade, com volume adequado à alimentação do gado leiteiro. Comparado com culturas anuais, a pastagem nos traz uma maior segurança, em virtude de ter um maior poder de espera pelas condições de umidade para seu desenvolvimento. Foi o que aconteceu em alguns anos nos quais pouco choveu no outono, tendo assim os pastos um menor desenvolvimento, mas que foi compensado no inverno, visto que nesses anos elas vieram a compor a média histórica anual para a região.

A PASTAGEM

Após experimentos de 25 combinações de gramíneas com forrageiras perenes, anuais, temperadas, tropicais, leguminosas, etc., adotamos comercialmente o melhor resultado: capim Tanzânia consorciado com Brachiaria ruziziensis, utilizando sempre sementes revestidas na proporção de 1.200 pontos de valor cultural por ha, sendo metade de cada espécie.

Esta tecnologia foi iniciada em 2005 e, nestes nove anos, teve uma produção em qualidade e quantidade com poucas oscilações, ou seja, os animais precisam se alimentar e o produtor necessita ganhar dinheiro independente do clima e essa forma de integração vem atendendo essas demandas.

A vinda de variedades da soja de ciclo mais curto (precoces), de colheita antecipada, possibilitou substituir, desde 2008, o sobressemeio pelo plantio direto, com melhor germinação e maior densidade de touceiras. O pasto formado, que recebeu 30 kg/ha de N (Nitrogênio) por ano, mostrou, na sequência dos nove anos, de 6,7 a 17,1 touceiras por m2, com proteína bruta (PB) de 10,6% a 12,8% e nutrientes digestíveis totais (NDT) de 62,2% a 69,4%.

Calculando uma ingestão diária de 3% de matéria seca (MS) sobre o peso vivo, somada à matéria seca aferida no final do pastoreio, pode-se estimar a produção de forragem em 3,6 a 7,4 t/ha durante 150 dias, a partir da colheita da soja até o fim do pastoreio.

Pasto e soja se alternam na mesma área

A PRODUÇÃO DE LEITE

O pastoreio de vacas cruzadas girolandas em regime exclusivo de pasto perdurou por 35 a 61 dias nos meses de agosto e setembro, com 125 a 234 diárias e uma pressão de de 2,5 a 6,3 cabeças/ha, proporcional à duração do pastoreio. A produção diária de leite durante o período de pastoreio variou entre 8,2 e 12,3 litros/cabeça/dia, Correspondentes, respectivamente, a 1.927 e 2.356 litros/ha, exclusivamente a pasto.

Pasto e soja se alternam na mesma área

A FITOMASSA

Findo o pastoreio, a área teve um período médio de 30 dias para regeneração do capim, que, após dessecação, mostrou uma fitomassa de 4,1 a 6,9 t/ha (Tabela 4), sobre a qual foi semeada nova cultura de soja em novembro e início de dezembro. A aferição da cobertura morta aos 90 dias indicou uma persistência de 35% a 47% da quantidade inicial, o que proporciona grandes benefícios à cultura da soja, como menor evapotranspiração, temperatura do solo mais baixa, menos infestação de plantas daninhas, etc.

Segundo Fernando Sichieri, a produção diária de leite durante o período de pastoreio variou entre 8,2 e 12,3 litros-cabeça-dia

PÓS-PASTOREIO

A produção de soja após a produção indicada de leite e de fitomassa foi de 48,9 a 62,0 sc/ha durante o período, sendo que em 2008 alcançou o dobro das lavouras sem cobertura morta no solo da região, devido aos 40 dias sem chuva após a germinação.

Pesquisa conduzida anteriormente (2005), cotejando a produtividade da soja sobre fitomassa de diferentes origens, mostrou certa vantagem em favor da Brachiaria ruziziensis, admitindo-se um efeito sinérgico favorável dessa espécie.

DESEMPENHO ECONÔMICO NO INVERNO

Os custos obtidos, seja pelas diárias (R$ 1,30 a R$ 3,5/dia) ou por kg de matéria seca – MS (R$ 0,10 R$ 0,27/kg/MS), se comparam favoravelmente com os preços vigentes no mercado para confinamento ou para feno. A elevada produtividade da soja comprova que está sendo mantida a alta fertilidade do solo e, consequentemente, a sustentabilidade da produção e do sistema.

A ILP descrita está comprovada tanto na dimensão da pequena propriedade familiar, na qual vem sendo realizada, como em estabelecimentos de qualquer escala, pois os princípios técnico-administrativos envolvidos são universais.

A viabilidade econômica da pecuária, seja ela de corte ou leite, comparada à Agricultura, está voltando a preocupar a todos, mas a diferença é que hoje temos mais ferramentas e tecnologias disponíveis, assim como maior conhecimento e conscientização dos benefícios das possíveis sinergias e segurança que os resultados da ILP nos trazem. Esta atividade pode nos ajudar a enfrentar o desafio do futuro, de melhorar a cada dia o bem que apenas tomamos emprestado de nossos sucessores, a terra.

* Fernando Sichieri é engenheiro-agrônomo e responsável pelo Projeto Arenito desde 2003