Sobrevoando

 

Atraso

Toninho Carancho
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Nestes dias, estive sobrevoando uma feira agrícola e conversei com muita gente. Gente interessada tanto na agricultura quanto na pecuária. Gente ávida por conhecimento em todas as áreas. Querendo saber mais. Querendo fazer melhor. Foi realmente impressionante ver todo este pessoal babando nas máquinas, subindo em cima, pilotando. Realmente, fantástico. É a soma da fome com a vontade de comer. Por muitos anos, os pecuaristas e agricultores brasileiros viveram um tempo ruim, com baixo valor de seus produtos, financiamentos caros e máquinas e tecnologias defasadas, mas, agora, vivemos um tempo diferente, no qual temos a soma de vários fatores jogando a nosso favor. São os preços da commodities em alta, do boi em alta, com financiamentos de máquinas e insumos em patamares muito bons, com juros baixos, carência boa e um bom tempo para pagar. É o clima ajudando na maior parte de nossos estados. Enfim, vários fatores somados que nos dão um otimismo que só não é maior porque quando a esmola é demais até o santo desconfia.

Outro fator de estímulo a nós que trabalhamos no campo e para o campo é a nossa demanda reprimida por muito tempo. Nós sempre gostamos de gado e máquinas, mas não tínhamos dinheiro (ou crédito) para comprar. Agora temos! E agora é que nos damos conta de quanto atrasado estávamos. Percebemos que temos que nos renovar em todos os sentidos. Renovar nosso parque de máquinas, renovar nossos conceitos, nossa forma de trabalhar. Somente agora parece que nos damos conta que estamos realmente vivendo em um mundo globalizado, onde temos de competir com (ou contra) o resto do mundo (além de competir internamente entre estados, municípios e, principalmente, com o nosso vizinho, aquele *#@$+).

E, por isso, também nos damos cada vez mais conta de nossas estradas precárias, portos ineficientes, logística totalmente equivocada, etc. e tal, e acabamos nos sentindo mal, impotentes para mudar esta realidade tão ruim. Temos muito o que melhorar dentro da porteira, mas estamos caminhando em ritmo acelerado. Já fora da porteira, estamos muito mais atrasados, mas é um caminho que teremos de percorrer, mais cedo ou mais tarde. E quanto mais cedo for, melhor para todos.

Uma das conversas que tive na feira foi com um pessoal amigo meu relacionado com a pecuária leiteira. Conversávamos sobre um produtor muito bom e eficiente que ordenha uma quantidade de vacas muito grande com total mecanização, utilizando apenas três funcionários. Um negócio incrível. Quando este amigo comentou sobre a alimentação das vacas, totalmente automática, com comedouros que forneciam mais ou menos ração, dependendo da vaca, pois estas têm um colar que as identifica, e, através de um chip, informa-se o quanto ela pode comer, eu disse a ele que tinha visto na Itália este mesmo processo no ano de 1986, ou seja, há quase 30 anos. Imaginando que os italianos já devessem ter este sistema instalado há mais tempo, podemos dizer, sem medo de errar, que estamos atrasados 30 anos. E tenho certeza que em vários segmentos de nossos negócios devemos estar atrasados na mesma proporção. Precisamos avançar mais rápido, e na direção certa, para sermos competitivos globalmente. Gente nós temos pra isso.