Do Pasto ao Prato

 

REVOLUÇÃO TOTAL NO MERCADO DE INSEMINAÇÃO

Angus preto vende mais sêmen que Nelore no Brasil em 2013

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Para os produtores de genética e profissionais deste setor, o relatório da ASBIA (Associação Brasileira de Inseminação Artifical) é sempre esperado com ansiedade. Os dados nos dão um bom cenário do uso de genética, das preferências dos produtores e do mercado. Deve-se valorizar este trabalho e a disponibilidade pública das informações, pois neste quesito a ASBIA é exemplar. Países como a Austrália, admirada pela eficiência de sua pecuária, não possuem relatórios desta natureza e fiz questão de checar esta informação com contatos confiáveis que tenho naquele país. Ponto para nós! Sempre sou muito crítico em relação à falta de informação setorial na nossa pecuária, mas, neste tema, estamos bem servidos. Sempre em fevereiro/março recebemos o fechamento do mercado de sêmen do ano anterior e esta informação é muito bem-vinda.

Os dados do fechamento de 2013 da ASBIA são surpreendentes e históricos, pois a raça Angus volta a vender mais doses de sêmen no Brasil do que a raça Nelore e as demais raças zebuínas. Em 2013, a raça Angus (somando variedades preta e vermelha) vendeu 44% de todas as doses de raças de corte, na sequência a raça Nelore (padrão e mocho) participou com 38,1% do mercado. O número de doses vendidas pela Angus somou 3,36 milhões de unidades e o Nelore, 2,92 milhões de doses. A variedade preta da raça Angus comercializou, sozinha, mais que a raça Nelore e alcançou a marca histórica de 2,91 milhões de doses.

A polarização da genética usada no Brasil em Nelore e Angus é um fato que se consolida a cada ano. O relatório da ASBIA mostra que em 2013 todas as demais raças somadas (zebuínas e europeias) representam menos de 20% do mercado de inseminação no país. O gráfico publicado no ABS News (Março, 2014) mostra com clareza esta situação:

Em 2013, o mercado de gado de corte no País comercializou 7,65 milhões de doses de sêmen e o crescimento foi de 2,87% em relação a 2012. Esta taxa de crescimento pode ser considerada pequena se comparada ao período de 2009 a 2011, onde a inseminação crescia em margens anuais superiores a 20%. No último ano, a raça Nelore teve redução em vendas de 11%, o Angus (preto) cresceu 24,5% e o Red Angus teve redução de 15,8%.

Em relação às diferenças de evolução do mercado das variedades da raça Angus podem ser discutidas algumas questões. O Angus preto é predominante no mundo e sua população é muito maior do que a de animais vermelhos. Esta situação é simples de entender, pois a característica "pelagem preta" tem gene dominante. O Brasil viveu uma fase (final dos anos 90 e início dos 2000) de preferência por animais vermelhos, porém, a prática, a experiência obtida e os dados de campo direcionaram os produtores ao maior uso de animais pretos, conforme ocorre na grande maioria dos países onde a raça tem expressão. O receio da menor tolerância ao calor dos animais pretos comparativamente aos vermelhos foi um fato que no passado teve importância e, hoje, parece estar superado.

O crescimento da venda de sêmen de Angus no Brasil nos permite pensar em diversas questões da pecuária brasileira relacionadas ao cruzamento industrial: o aumento de uso de tecnologia, a busca por mais produtividade dos rebanhos, a maior popularização dos confinamentos e sistemas intensivos de engorda, a especialização de alguns pecuaristas para o mercado de carne de qualidade, o crescimento dos programas de carne de qualidade, etc. A Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) é uma das principais responsáveis pelo crescimento do uso do cruzamento no Brasil, pois a técnica popularizou e ampliou o volume de fêmeas prenhes via inseminação artificial.

NACIONAL OU IMPORTADO?

A velha discussão sobre genética nacional ou importada ainda está na pauta. No caso do Nelore, praticamente a totalidade do produto é nacional e a importação em alguns anos é igual a zero. Assim foi em 2013. Já para o Angus, somos fortemente dependentes da genética importada e a relação aproximada de 70:30 (Importado:Nacional) segue se repetindo nos últimos anos. Veja como ocorreu em 2013 especificamente na raça Angus:

Os principais fornecedores de genética Angus para o Brasil seguem sendo em ordem de importância: Estados Unidos, Canadá e Argentina. Existe para muitas pessoas a percepção que, após os EUA, o próximo país em importância seja a Argentina, mas, tanto para o Angus preto quanto para o vermelho, o Canadá vem em segundo lugar, com mais do dobro de doses importadas que a Argentina.

SINTÉTICOS: BRANGUS OU BRAFORD?

Um fato curioso ocorre na comercialização de raças sintéticas. Seria natural esperar que a participação do Brangus fosse muitas vezes maior que a do concorrente Braford, pois ambas as raças têm as mesmas finalidades e perfil de uso, porém, esta situação não se verifica na prática do mercado. Em 2013 a Brangus participou com 2,8% do mercado (218 mil doses) e a Braford, com 1,8% (139 mil doses). Logo, a carreira está parelha e ambas as raças vêm crescendo continuamente no mercado de inseminação nos últimos cinco anos. Para esta situação, que pode contrariar a lógica esperada, ficam os elogios e méritos para os criadores de Braford e para a Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), que vêm realizando um trabalho profissional e intenso nos últimos anos. O grande número de fêmeas ½ Angus nascidas a cada ano cria espaço para o uso das raças sintéticas como boa alternativa de acasalamento. Na maioria dos programas de cruzamento, as fêmeas cruzadas seguem para engorda (terminal), porém, a possível retenção destas matrizes na cria é um grande mercado para as raças sintéticas e adaptadas.

ADAPTADAS

Falando em adaptadas, as raças Senepol e Bonsmara seguem ocupando importante espaço e desbancando outras raças tradicionais no Brasil. As duas raças somam, em 2013, aproximadamente 165 mil doses (2,2% do mercado) e também vêm em ritmo forte de crescimento nos últimos cinco anos. As justificativas para uso destas raças são diversas: busca por adaptação, tolerância ao calor, pelo zero, temor ao carrapato, necessidade de opção genética para uso em fêmeas Cruza Angus, Bonsmara Beef, etc. Estou no grupo dos descrentes que poucos anos atrás achavam que essas raças eram "chuva de verão", mas comecei a morder a língua, pois elas permanecem firmes e fortes por aqui. Errando e aprendendo.