O Confinador

 

FALTA ÁGUA NO BEBEDOURO

Tiago Fernandes*

A água assume papel fundamental no desempenho e na nutrição animal, seja a pasto ou no confinamento, e até pode-se dizer que se trata de uma estratégia comercial, pois é tão essencial quanto qualquer outro elemento utilizado na dieta dos bovinos. Também se trata de um elemento do qual o organismo vivo menos tolera falta. A partir desses argumentos, pode-se concluir que a falta d'água pode comprometer todo o potencial desempenho da nutrição animal. Ela "ainda" é de graça e, por enquanto, abundante na natureza, mas, em caso de escassez, pode influenciar negativamente o resultado de outros ingredientes com custos elevados.

Muitas vezes os pecuaristas focam nos custos de alimentação e esquecem de traçar um planejamento específico para o fornecimento de água. Diversos fatores influenciam seu consumo pelos animais, mas é sabido que raça, idade, peso e porte do animal vão determinar diretamente grande parte da sua necessidade fisiológica, além de outros fatores zootécnicos que também influenciam, tais como a dieta e as condições ambientes de temperatura, a umidade relativa do ar, a velocidade do vento e até a poeira.

Nos confinamentos, a falta d'água pode ser comumente notada por bebedouros com baixa lâmina d'água e boias com baixíssima pressão, circunstância na qual haverá espera para beber água, o que é ruim, pois vai impulsionar a ocorrência de dominância de alguns animais sobre outros. O prejuízo recairá sobre a conversão alimentar, aumentando o custo da arroba produzida.

Numa condição normal, a pasto, em propriedade bem servida de água, o animal vai de encontro às fontes existentes na propriedade e mata a sede conforme suas necessidades fisiológicas, ou seja, no seu horário ideal. Todavia, quando ele é fechado em um piquete de confinamento, o abastecimento dever ser tratado com muito cuidado, pois tiramos a liberdade do animal buscar água noutro local. A qualidade e a quantidade de água demandada nos bebedouros dos piquetes devem ser atendidas plenamente para que se torne possível otimizar toda estratégia de ganho de peso.

Para tanto, é necessário conhecer as peculiaridades do confinamento, os fatores limitantes, a planta atual e as suas ampliações futuras, pois o sucesso, em todas as fases do projeto hidráulico, está diretamente relacionado à qualidade da água e, principalmente, ao volume, que precisa atender a demanda total do plantel. Então, após se determinar o consumo máximo dos animais, o próximo passo é calcular a quantidade utilizada no sistema de irrigação para que possa ser utilizado no controle de poeira. Com os valores estimados, é possível evoluir para os estudos hidráulicos do bombeamento da fonte até o reservatório d'água do confinamento. Essa etapa do processo é bem simples, pois consiste em dimensionar a vazão máxima a ser bombeada e o período de trabalho diário do equipamento, resumido de acordo com o seguinte exemplo esporádico:

• N° de animais confinados atualmente: 5.000 ua

• N° de animais confinados futuramente: 8.000 ua

• Consumo de água por animal: 60 litros/ dia

• Consumo de água para irrigação por animal: 36 litros/dia

A partir dessas premissas, é possível calcular o consumo total máximo de água, que neste caso é dado por:

• Água para Bebedouros: 400.000 litros por dia (8.000 animais x 60 litros)

• Água para Irrigação: 288.000 litros por dia (8.000 animais x 36 litros)

• Vazão a ser Bombeada: 38.222 litros por hora (688.000 litros/18 horas)

• Vazão necessária na fonte de água: 28.667 litros por hora, em 24 horas por dia

• Período de descanso estratégico: 6 horas (3 horas para evitar operação do equipamento em horário de pico da energia e mais 3 horas de segurança para falta de energia e manutenções de pequena complexidade no sistema).

O estudo deve compreender uma margem de segurança de, ao menos, três vezes o consumo estimado. Para o exemplo sugerido anteriormente, com consumo de água de 8 mil animais, o ideal seria projetar um reservatório de com capacidade de pouco mais de 2 milhões de litros de água (água para bebedouros e irrigação). Desta forma, garante-se maior segurança operacional e folga técnica para manutenções mais complicadas. Também é pertinente contar com um conjunto de bomba reserva, para não ficar à mercê da falta de peças em situações de feriados prolongados, por exemplo.

Agora, é necessário prosseguir com o estudo do projeto da distribuição d'água do reservatório até as boias dos bebedouros, e esse processo não é tão simples quanto a etapa anterior, na qual tínhamos uma vazão fixa d'água (bombeamento). Aqui teremos de considerar uma variável importante, o "pico de consumo d'água", ou seja, a demanda vai variar de acordo com o comportamento animal, quando consumirão grande quantia de água em um curto espaço de tempo no dia.

É fundamental considerar o pico de demanda de água para o cálculo das tubulações que vão abastecer os bebedouros, pois esse é base para todo o projeto, contudo, não é a única premissa a ser considerada. O desnível compreendido entre o reservatório de água e as boias dos bebedouros é deveras importante, bem como a distância entre o reservatório e a última boia de bebedouro. Diante disso, temos os três fatores necessários para cálculo de atrito das tubulações (pico, desnível e distância até as boias).

Existem duas formas de se dimensionar o sistema de distribuição d'água para os bebedouros; uma delas é a convencional, que consiste em canalizar a água por uma linha principal de tubulação até as derivações (ramificações da linha principal). Veja na figura 1.

Há outra forma, não convencional, porém, muito eficaz, se bem dimensionada, pois se trata de um circuito fechado e se diferencia do sistema convencional por ter um equilíbrio hidráulico melhor, uma vez que permite a água encontrar o caminho mais fácil (com menor atrito possível) para escoar nas boias. Esse sistema de circuito fechado pode ou não ter uma linha principal. Suas ramificações são fechadas e interligadas entre si, e, normalmente, utiliza uma metragem linear de tubos um pouco maior que o sistema convencional. É mais complexo para determinação de cálculos, mas permite o melhor equilíbrio hidráulico possível, especialmente, quando o desnível do terreno é pequeno. Confira exemplo na figura 2.

Estimo que oito em cada dez dos confinamentos em operação no País apresentem problemas de falta de água nos bebedouros ou dificuldade na reposição do consumo d'água, que, mesmo em menor grau, se remete a um erro de dimensionamento e implantação do projeto hidráulico.

Os custos de bombeamento de água da fonte para o reservatório e a irrigação para o controle de poeira são mais onerosos quando comparados aos gastos do sistema de distribuição de água do reservatório até as boias dos bebedouros, normalmente o mais penalizado em planejamento. O erro de dimensionamento do projeto de água dos bebedouros acontece por não ser ajustado com seriedade, pois os pecuaristas pensam tratar-se de algo muito simples. Ao mesmo tempo que é a parte do processo menos exigente em investimento, é a que mais impacta no desempenho do confinamento, quando mal planejado.

O custo final é caro, porque o impacto recairá diretamente sobre o desempenho dos animais, devido à queda na conversão alimentar em consequência da falta de água nos bebedouros. Sem solução, os prejuízos tornam-se recorrentes a cada novo lote de bovinos que adentrar o confinamento.

Para ilustrar a situação, tomemos como exemplo um confinamento com capacidade para 15.000 bois, numa situação de subdimensionamento, que será apresentada na figura 3. Os erros são muitos, destacando-se as falhas no dimensionamento de diâmetro de tubulação, no equilíbrio do atrito da água nas tubulações com o desnível do solo e, por fim, o cálculo de pico de demanda de água, que é refletido com queda na vazão das linhas "B", "C" e "D" do modelo, que mostram incapacidade para escoar todo o fluxo d'água demandado pelos bebedouros.

A reestruturação desse sistema hidráulico seria possível readequando cada trecho deficiente em vazão, uma vez que o cálculo de pico possibilitaria uma mudança considerável no diâmetro dos tubos, pois a figura 3 ilustra a tubulação principal com 150 mm (6") até a primeira linha de bebedouros, e, em seguida, o diâmetro é reduzido para 100 mm (4"). Contudo, os cálculos de pico de vazão e perfil de desnível do solo mudaram todo esse cenário, que podem ser melhor analisados na figura 4, que ilustra o atrito da água ao passar pelas tubulações e o desnível disponível no perfil do solo calculado para o pico máximo de vazão d'água para 15.000 bois.

Cada situação exige um estudo. O exemplo mencionado na figura 4 não pode ser aplicado a nenhuma outra situação sem prévio estudo. A redução de um tubo de 150 mm (6") para 100 mm (4") não caracteriza o erro principal, pois o tubo de 150 mm já estava, anteriormente, subdimensionado até a linha "A" e, para correção, foi necessário estender o diâmetro da tubulação principal de 150 mm até a linha "C", e não se utilizou tubo de 100 mm, neste caso, até a implantação da linha "F", substituindo-a por 125 mm (5").

*Tiago Fernandes é técnico agrícola e projetista da Rocha Irrigações [email protected]