Raça do Mês

 

SINDI

Raça reúne rusticidade e produtividade de uma seleção milenar

O Sindi é um gado milenar, originário do Paquistão, que consegue equilibrar o próprio tamanho, a área corporal, o metabolismo e a produtividade leiteira, resultando em um animal de formas harmoniosas, manso e de alto rendimento no abate. Com acabamento precoce, alto rendimento e qualidade de carne, pode ser criado em pequenas áreas, inclusive com baixa qualidade de forragem. É um gado que entra firme no futuro, por ser uma joia genética e importante ferramenta zootécnica, segundo definições do Brazilian Cattle Genetics.

Pesquisadores ressaltam que seu porte menor é considerado ideal para melhor aproveitamento da área, além do consumo reduzido de alimentos, a boa eficiência reprodutiva e, principalmente, a boa capacidade de produção de leite, tanto em quantidade como em qualidade. Por conta de tais atributos e do desempenho destes animais, o Sindi vem ganhando espaço na multiplicação como raça pura e nos cruzamentos com raças taurinas, obtendo-se animais produtivos, resistentes e de pequeno porte.

Definições à parte, não há como falar da raça sem citar sua chegada ao Brasil, que foi um tanto quanto curiosa, como descreve a Associação Brasileira dos Criadores de Sindi (ABCSindi). Apesar de relatos históricos que documentam presença na Bahia e no Rio de Janeiro em meados de 1850 e da importação de alguns exemplares por Francisco Ravísio Lemos e Manoel de Oliveira Prata, na década de1930, foi em 1952 que o “gado vermelho” enfrentou o grande desafio para entrar permanentemente no País. Os 31 animais da raça vindos diretamente de Karachi, estado de Sind (Paquistão), trazidos por Felisberto de Camargo, diretor do Instituto Agronômico do Norte (IAN), ficaram em quarentena na Ilha de Fernando de Noronha, por conta da rejeição dos Estados Unidos e do Governo Federal, que eram contra a introdução de gado na Amazônia. Somente dois anos depois foi que o lote, que já era de 50 cabeças, conseguira liberação para sair da ilha.

Mário Borba negocia uma nova importação de genética

Entre 1950 e 1990, o Sindi viveu altos e baixos, com transferências do rebanho, encerramento de pesquisas e pedidos junto à ABCZ. Entretanto, na década de 1980, quando muitos davam por perdida a criação da raça no Brasil, o criador José Cezário Castilho firmou uma parceria com a Universidade Federal da Paraíba, disponibilizando animais para pesquisa. Em seguida, foi a vez da Empresa Estadual de Pesquisa Agropecuária da Paraíba (Emepa) iniciar trabalhos com a raça. A partir disso, o gado partiu para outros estados e conseguiu, na década de 1990, virar o jogo. Com a ascensão dos criatórios, em 2001, a raça voltou a ser registrada pela ABCZ e, de lá pra cá, encontrou novamente grandes horizontes pela frente.

SINDI HOJE

A raça mostra eficiência na dupla aptidão de mães leiteiras, que, consequentemente, desmamam bezerros mais pesados. “O Sindi conquista o mercado cada vez mais por conta das qualidades funcionais, sobretudo, a rusticidade, imbatível. Em época de fartura de capim, todas as raças são boas. Mas, quando chega o período da seca, o Sindi se mostra superior às demais raças zebuínas e taurinas”, conta Adaldio José de Castilho Filho, criador com plantel localizado em Novo Horizonte (SP).

Ele ressalta ainda que o Sindi é um animal fértil, superprecoce e que apresenta uma habilidade materna muito grande. Os bezerros nascem pequenos, sadios e vigorosos e ganham peso rápido, pois suas mães produzem muito leite. “O tamanho do bezerro também é fundamental em uma pecuária extensiva, pois ele não tem dificuldade de levantar e caminhar. As primíparas enxertam normalmente, sem precisar desmamar os bezerros. Com uma média de 40 dias, elas já estão no cio novamente. Produtividade esta que começou a chamar a atenção do mercado para que testasse o Sindi na produção de carne”, acrescenta ele, que, para divulgar a viabilidade econômica da raça na pecuária de corte, começou a fazer abates técnicos todos os anos, convidando técnicos da ABCZ e a imprensa para monitorar e mostrar os resultados.

A prova trouxe 20 animais meiosangue Sindi/Nelore, com idade entre 30 e 36 meses. Os exemplares entraram no confinamento com 15,3 arrobas e saíram com 24,[email protected], o que representa mais de 59% de rendimento de carcaça, sendo o ganho líquido de 1,524 kg/dia, mais que [email protected] por mês. “O cruzamento do Sindi com o Nelore é um dos melhores, sem contar que o Sindi também vai muito bem no F1. O rendimento de carcaça da raça Sindi em animais que ficaram de 90 a 100 dias em confinamento é superior à média de todas as outras raças. Foi uma surpresa geral. Bom, eu nunca vi um boi ganhar nove arrobas e nove quilos em 92 dias. Esses resultados mostram a lucratividade dentro de um confinamento”, explica o criador.

A exemplo da produção de carne, o gado paquistanês mostrou em 2013 que também está mais eficiente quando o assunto é leite. Em novembro, o concurso leiteiro da raça na Interláctea 2013, em Avaré (SP), terminou com dois novos recordes para a raça. Na avaliação coordenada pelo Programa de Melhoramento Genético de Zebuínos (PMGZ/Leite), da ABCZ, a campeã Vaca Adulta produziu 97,87 kg/leite e média de 32,62 kg/leite. Com essa produção, o recorde de 95,83 kg/leite registrados na Megaleite, também de 2013, foi superado. A Reservada campeã apresentou produção total de 69,91 kg/leite e média de 23,30 kg/leite. E entre as fêmeas jovens também houve novo recorde.

A produtividade merece mais um capítulo, já que o Sindi consegue apresentar fêmeas que aos nove anos de idade já tiveram sete partos naturais, com intervalo de parto de 11 meses e 16 dias. Essa vaca foi uma das revelações do prêmio “Cláudio Sabino de Carvalho”, instituído pela ABCZ durante a ExpoGenética. “É um índice muito difícil de ser obtido e a raça Sindi, no universo de todas as vacas do Brasil, consegue atingir este alto patamar. A matriz em questão já estava prenha. Na competição, mostramos uma vaca parida com 390 kg e outra com 410 kg; o bezerro da primeira estava com 265 kg e o da outra pesando 286 kg. É simples, basta fazer a porcentagem. São resultados assim que a pecuária moderna e produtiva busca.”

BEZERROS PESADOS

Adaldio Filho conta que é possível produzir bezerros Sindi com peso a desmama de 200 a 300 kg. Em sua propriedade, a média obtida tem sido de 230 kg para machos e 216 kg para as fêmeas. A variação é justificada pelo período (que pode ser de seca ou de estiagem, fartura de pasto ou de produção de leite). Entretanto, vale ressaltar que os animais estão sendo desmamados aos nove ou dez meses de idade.

Bezerros nascem pequenos, sadios, vigorosos e ganham peso rápido

“Essa é outra qualidade da raça que estamos pesquisando e, inclusive, fizemos uma proposta à ABCZ para aumentar a idade à desmama. Hoje, o mercado de produção de carne encontra dificuldades com a recria de bezerros, pois os desmama aos oito meses. Geralmente, se estipula essa idade para que, teoricamente, a vaca gere melhor o animal que está na barriga dela, mas no Sindi estamos mostrando para o mercado que é possível separar o filho da mãe aos 10 meses, pois, mesmo que a vaca esteja prenhe, ela está gorda e sadia. Ela é diferente, pois traz uma rusticidade milenar vinda do deserto do Paquistão, onde chove 250 mm por ano, e aqui no Brasil, ainda que ela esteja na pior região, é uma condição muito melhor que a de onde ela foi selecionada”, pontua o criador.

De acordo com ele, está sendo trabalhada uma linha que, com o tempo, permitirá desmamar o bezerro e confiná-lo diretamente, diminuindo a recria e o estresse emocional do momento da separação. Além disso, foi também encaminhada uma proposta para acompanhamento do ganho de peso aos 12 meses, que irá permitir monitorar quantos animais atingem o abate precocemente.

MERCADO

Em 2011, os zootecnistas Marcio Mitsuishi e Luiz Antônio Josahkian desenvolveram o estudo “As origens e parâmetros populacionais dos animais registrados da raça Sindi no Brasil”, que descreve a distribuição do rebanho, usando como base de dados o registro genealógico de animais nascidos entre 2000-2010 e as informações de 127 sócios da ABCSindi. O Nordeste concentrava mais de 77% dos criadores, com 98 dos associados; seguido por Sudeste, com 19 criatórios (15%); Centro Oeste, com nove (7%), e Norte, com um (1%).

Atualmente, a raça se expande por todo o território nacional e conquista novas praças, como Pará, Rondônia e Pantanal, onde tem chamado atenção por conta de sua rusticidade e longevidade. Esta última característica, inclusive, é mais um dos grandes atributos da raça, como descreve o Adaldio Filho, que em seu criatório possui vaca parida com 22 anos de idade. “Mas, se você olhar, vai pensar que ela tem oito ou nove anos”, brinca. O segredo, segundo ele, é que esta é uma raça que não se desgasta. Em exames de DNA realizados por uma renomada empresa do segmento, um médico geneticista chegou a encontrar genética de animal selvagem no gene de um exemplar encaminhado para teste.

“O mercado, à medida que está conhecendo as qualidades do Sindi, tem experimentado. A raça já começou a valorizar. Temos clientes que compram nossos touros todos os anos, por exemplo. E por quê? Porque são touros que aguentam fazer a monta a pasto, resultando em um ótimo custo/benefício”, garante Adaldio.

Durante a última Expozebu, o 3º Leilão da Raça Sindi atingiu R$ 672.480, com uma média de R$ 25,8 mil para 26 produtos, entre fêmeas, touros e embriões. Em outra importante vitrine da raça, o 10º Leilão Sindi Estrelas (que acontece na Festa do Boi em Parnamirim, RN), rendeu R$ 251.240 mil para 30 animais da raça, com média de R$ 9,7 mil para fêmeas e R$ 3,3 mil nos machos.

Sindi bate recordes nas provas de controle leiteiro dos zebuínos

PERSPECTIVAS

Defesa, promoção e divulgação da raça têm sido os objetivos da Associação Brasileira dos Criadores de Sindi, que, com dez anos de atuação, está localizada em João Pessoa, na Paraíba. A entidade, que hoje é presidida por Mário Antônio Pereira Borba, tem cadastrado criadores de todo o País, buscando uni-los em torno dos interesses da raça. Dentre suas ações mais promissoras, está a negociação de uma nova importação de genética.

“A ABCSindi é a única associação de zebu fora de Uberaba, o que nos traz muito orgulho, mas também a grande responsabilidade em fazer com que esta raça ganhe cada mais força e cresça muito mais. Vamos começar o novo teste de progênie da raça e temos uma visita agendada às embaixadas do Paquistão e da Índia no mês de novembro. Como não tivemos mais importações de embriões e de animais da raça, essa será uma oportunidade para trazer renovação, dar um choque de sangue no nosso rebanho. Já estamos verificando os protocolos de sanidade junto ao ministério e aos governos, para que possamos fazer algum trabalho nesse sentido”, conta o presidente.

Sindi conquista espaço na ExpoZebu, principal mostra dos zebuínos

Uma das novidades para 2014 é a inauguração do escritório da ABCSindi em conjunto com a Associação do Indubrasil, no Parque de Exposições Fernando Costa, em Uberaba, que está prevista para o dia 8 de maio, durante a Expozebu. “Temos uma grande parceria e admiração pela ABCZ, que promove uma das maiores feiras de zebu do mundo. Realizaremos na Expozebu 2014 nossa 11ª Nacional da raça, que, além da inauguração do escritório, vai trazer, no dia 9 de maio, o 4º Leilão Essência da Raça Sindi, no Tatersal Rubico Carvalho. Estamos acertando os preparativos para uma grande mostra” acrescenta Mário Borba. Vale lembrar que, em 2013, o Sindi esteve bem representado na feira, levando às pistas quase 200 animais.

Sobre as perspectivas do Sindi para os próximos anos, o dirigente acredita que a raça continuará crescendo. “Ela já tem se projetado muito nos últimos anos por todo o Brasil, ganhando força no cruzamento, com excelentes resultados. Os neloristas, por exemplo, estão procurando muito o Sindi para receptoras. Essa não é somente uma raça de dupla aptidão, se destaca por uma série de atributos. É rústica, precoce e vem contribuir muito com os anseios da pecuária moderna.”

Para finalizar, ele deixa um convite para que todos os interessados e os novos produtores e investidores que estão entrando na raça para que procurem a ABCSindi. “Temos muita gente nova chegando. Podemos fazer um trabalho ainda melhor para que a raça Sindi se engrandeça cada vez mais no Brasil”, conclui.


MAIS SOBRE A HISTÓRIA DO SINDI

O Livro “Sindi, O Gado Vermelho para os Trópicos”, de autoria de Rinaldo Santos, relata a história da raça Sindi e apresenta pesquisas realizadas sobre a raça em várias regiões do Brasil e do mundo. A publicação, destinada a técnicos, pecuaristas e estudantes, aborda relatos históricos desde o ano 7.000 a.C.; relaciona estudos realizados no Paquistão, na Índia e no Brasil. O conteúdo traz uma análise sobre o desempenho da raça na produção de carne e leite.