Feno & Silagem

 

Estabilidade aeróbia da silagem

Afinal, o que é e como controlar?

Sérgio Toledo Filho*

As empresas de tecnologia no setor agropecuário, em especial as que trabalham com inoculantes para silagem, sempre falam da importância de se controlar a estabilidade aeróbia das silagens. Entretanto, durante visitas a propriedades, muitos produtores e técnicos não sabem exatamente o que vem a ser estabilidade aeróbia (EA), apenas dizem que tem alguma relação com "silagem quente". Embora esteja correto, é necessário aprofundar um pouco o assunto e elucidar o que é e como manejá-la.

Estabilidade aeróbia de silagem é definida pelos pesquisadores como sendo o tempo em que a silagem leva para aquecer e superar a temperatura ambiente em 2o C. Nessa temperatura, estudos de microbiologia mostram que a silagem está tomada por microorganismos espoliadores que consomem todos os nutrientes preservados durante a fase fermentativa, gerando grandes perdas, especialmente de energia. Isso pode ser traduzido pelo aquecimento da massa de forragem exposta ao ar e pelo aparecimento de fungos, levando a elevadas perdas de matéria seca (MS), redução de consumo por parte dos animais e queda na produção. Levando em consideração que cerca de 70% do custo de produção são apenas com alimentação, a EA passa a ser um fator a se prevenir veementemente.

Figura 1: Silagem acumulada no chão para uso posterior

Figura 2: Poliamida é menos permeável ao oxigênio

Independente do tipo de cultura, toda silagem está suscetível a perder a EA, mesmo silagens oriundas de forragens com maturidade, teor de MS e tamanho médio de partícula adequados. Vale lembrar que o processo ocorre mesmo com silo fechado, desde que haja rasgos, aberturas na lona ou mesmo pelo uso de uma lona intacta, mas de má qualidade.

CATALISADOR

A instabilidade aeróbia é desencadeada pelo rápido crescimento de leveduras, tanto no fechamento do silo como na abertura. Essas leveduras ocorrem naturalmente nas forragens e podem se desenvolver e multiplicar Assim, são vitais o rápido enchimento do silo, a compactação eficiente e a vedação adequada, para que esse processo de latência seja acelerado.

Entretanto, o grande problema da EA está relacionado à abertura do silo, pois a silagem fica exposta ao oxigênio por muito mais tempo. Quando isso ocorre, há o rápido consumo do ácido lático que preserva a silagem em condição anaeróbia (sem oxigênio) pelas leveduras, quando o silo é exposto ao oxigênio, deixando a silagem disponível para bactérias e bolores que levarão à degradação da mesma, além do risco de aparecimento de micotoxinas que podem causar danos à saúde dos animais e dos que consomem seus produtos. Esse problema se agrava quando não existem taxas adequadas de remoção da silagem, quando o consumo de silagem é baixo ou quando a silagem removida permanece por muitas horas sem ser consumida, como ocorre em fazendas onde a silagem é retirada uma vez ao dia para ser usada várias vezes ou mesmo em vários dias seguidos (figura 1).

Muitas vezes, o produtor opta por utilizar aditivos, mas deve-se atentar para o tipo usado. Vale lembrar que os aditivos são coadjuvantes de boas práticas de manejo e confecção preconizadas para silagem, pois, se essas orientações não forem respeitadas, não haverá efeito algum.

A forragem destinada à silagem deve apresentar teores adequados de MS, em torno de 30% a 35%. O enchimento e a colheita devem ser feitos o mais rápido possível e com tamanho médio de partícula de 0,8 a 1,5 cm. Em relação à compactação, deve-se realizá-la utilizando um trator de pelo menos 40% do peso de forragem que chega ao silo e por 1 a 1,2 vez o turno de colheita. Além desses fatores, a vedação é um dos pontos críticos, porque, se ela também não for respeitada, todos os passos anteriores são inúteis. Lonas grossas não são relacionadas com qualidade, mas sim com a capacidade de reter oxigênio. Experimentos científicos mostram que a entrada de ar no interior do silo pela lona poderia injetar oxigênio em volume 2 a 3 vezes mais que aquele remanescente após a compactação da massa. Materiais como poliamida são mais finos e menos permeáveis que polietileno (figura 2). Se esses fatores forem respeitados, já teremos um grande salto para se obter uma silagem de boa qualidade e, então, o uso de aditivos será uma ferramenta extra para se otimizar o sistema.

Boa parte dos aditivos disponíveis no mercado contém bactérias homoláticas, que convertem açúcares solúveis em ácido lático, como Lactobacillus plantarum e Pediococcus pentasaceus. Isso é essencial para preservação do material ensilado, pois a rápida produção de ácido lático reduz o pH, deixando a massa acidificada, o que inibe o crescimento de outros micro-organismos e preserva a forragem. Mas, como vimos, quando se abre o silo, esse ácido é rapidamente consumido em contato com o ar, deixando a silagem vulnerável. Assim, as empresas e universidades têm investido estudos em bactérias alternativas.

Uma dessas bactérias é a Lactobacillus buchneri. Inúmeros ensaios no Brasil e no exterior demonstram que essa bactéria é eficiente em promover melhora na EA das silagens (figura 3). Essa bactéria, além do ácido lático mencionado anteriormente, também produz ácido acético. Embora ainda não elucidado o porquê, esse ácido tem capacidade de inibir o crescimento e o desenvolvimento leveduras e bolores de maneira muito eficiente. Quando a silagem é exposta ao ar na abertura e no fornecimento, por exemplo, o ácido acético não permite que as leveduras se desenvolvam. Assim, o material permanece mais tempo sem ser colonizado por micro-organismos e, portanto, os nutrientes são preservados e se tornam disponíveis por mais tempo. Essa bactéria tem se mostrado eficiente em promover EA de silagens de cana, alfafa, grãos úmidos, capins e milho, que permaneceu por até 900 horas sem apresentar aquecimento e degradação.

Outra opção são os produtos "combo", que nada mais são que uma associação de bactérias. Atuam em ambas as frentes, tanto no processo fermentativo como no pós-abertura, e são uma ferramenta útil para produtores que buscam silagens de alto valor nutritivo para animais de alta produção.

Não obstante, quando mostramos dados como esses a alguns produtores, eles dizem que não precisam de tantas horas ou dias de estabilidade, pois a silagem é fornecida em algumas horas e, assim, optam pelo não uso de aditivos. No entanto, o grande problema não é apenas relacionado à silagem retirada, mas do próprio silo depois de aberto.

Figura 5: Painel desuniforme gera perdas, refletidas no aquecimento

Ao se abrir o silo, o painel fica exposto ao ar, levando a perdas, como vimos no início. Mas não é apenas ele, mas também todo o silo. Mesmo que esteja com baixa temperatura (boa EA), o silo painel adentro está deteriorando. O bom silo apresenta densidade de cerca de 600 a 650 kg de matéria original por m3 (225 a 250 kg MS/m3). Isso significa que ainda há algum espaço entre as partículas de silagem por onde o oxigênio penetra fundo, alcançando até 20 cm por dia, ou seja, atrás do painel, o oxigênio está despertando aquelas leveduras dormentes e a degradação de nutrientes está ocorrendo. Para um silo mal compactado, esse valor sobe para metros, sendo que há trabalhos científicos que mostram que até seis metros atrás do painel a silagem está com valores de nutrientes bem baixos, o que distorce o balanceamento da dieta, gerando valores aquém do esperado e baixo desempenho animal. Isso é negligenciado por não ser algo visível, mas ocorre em altas taxas.

Figura 6: Vagão com desensiladora agiliza e permite melhor manejo

Entretanto, o produtor pode tomar medidas que minimizem esse fator. Uma delas é a retirada diária de uma camada grossa do painel. Silos bem dimensionados e que apresentam altas taxas de retiradas de forragem apresentam perdas reduzidas de matéria-seca, pois o painel do silo fica exposto ao ar por um período reduzido de tempo. Para condições tropicais, os pesquisadores sugerem uma retirada mínima de 20 a 25 cm por dia do silo. Assim, é importante calcular bem o volume, levando em conta o consumo/cabeça e a densidade do silo, para que esse valor mínimo seja atingido. Uma forma de reduzir esse tipo de perda é a confecção silos mais compridos e com painel menor, para que a retirada diária seja maior, além de serem mais fáceis de manejar.

Outro fator importante é a forma de retirada. Silos com painel desuniforme apresentam maior superfície de contato com o ar e, portanto, são mais suscetíveis a perda da EA (figura 5). Geralmente, fazendas grandes usam um trator munido de pá carregadeira frontal para remoção de silagem. Contudo, isso não é indicado, pois desestrutura o silo, especialmente quando retirada de baixo para cima, criando aberturas para ingresso de ar dentro do silo por vários metros. Uma forma de minimizar essas perdas e potencializar os trabalhos na fazenda, reduzindo custos e tempo, é optar por um vagão forrageiro munido de desensiladora (figura 6), que retira uma camada espessa e uniforme do painel rapidamente, diminuindo a área de contato com o ar, mantendo sua estrutura física e reduzindo a penetração de oxigênio na massa. Pesquisas sugerem que essa ferramenta reduz significativamente as perdas (figura 4). Entretanto, mesmo manualmente, é possível obter um painel bem manejado, se houver comprometimento com a qualidade e não houver pressa.

O processo de ensilagem é uma ciência que vem sendo estudada há décadas e os pesquisadores alertam que é preciso respeitar várias regras para que o sistema seja eficiente. Desde a colheita até o fornecimento aos animais, o produtor deve estar atento a uma série de detalhes, entre eles a estabilidade aeróbia, pois seu controle é vital para se obter silagem de alta qualidade com maiores ganhos. Entretanto, as maiores ferramentas que o produtor tem para isso são informação e boa vontade.

* Sergio Toledo é mestre em Ciência Animal e Pastagem pela ESALQ/USPFeno