Leite

 

Alimentadores automáticos

Na criação coletiva, favorecem o bem-estar e colaboram para o aumento da produtividade

Tatianna R. Dalossi*

O sucesso da atividade leiteira está diretamente ligado ao processo de criação de bezerras, uma vez que as de hoje serão os animais que proporcionarão o sucesso na produção de leite da propriedade no futuro. Por isso, tal processo é de grande importância dentro da pecuária leiteira, dado que visa à continuidade da produtividade da fazenda e, consequentemente, os impactos econômicos na atividade. A escolha do melhor sistema de criação, com instalações que atendam à necessidade dos animais e integrem manejos sanitários e alimentares adequados, favorece o controle dos indicadores dentro das propriedades, além de melhorar o desempenho produtivo, tornando o modelo de produção sustentável e ecologicamente correto.

A criação de bezerras pode ser realizada de maneira natural ou artificial. A primeira forma remete às origens da pecuária, dado que todo o processo de aleitamento da prole é realizado diretamente com a progenitora. Com a tecnificação da produção de leite e as novas características para a produção voltada à comercialização, a segunda maneira, ou seja, a artificial, tornou-se preponderante.

A forma artificial é aquele no qual o animal recém-nascido é separado da mãe e criado distante da mesma, sendo que pode ocorrer de forma individual ou coletiva e o modelo escolhido tem efeito sobre o ganho de peso durante a fase de cria e no desempenho dos animais durante toda a sua vida produtiva.

O método de criação individual em casinhas, gaiolas, sistema tropical ou argentino e o aleitamento através de baldes com ou sem bicos ou mamadeiras são os mais conhecidos e difundidos nas fazendas comerciais de leite. Esse tipo de criação tem como principal benefício a redução de enfermidades transmitidas entre as bezerras. Entretanto, um ponto importante a considerar na criação de animais em baias individuais é que isso pode prejudicar o seu bem-estar, pois bovinos são gregários e a privação de contato social pode trazer impactos negativos dentro do sistema de criação.

A criação em sistemas coletivos, aqueles onde animais são agrupados a partir da segunda semana de vida em pequenos grupos, é um método com vantagens em diversos aspectos, quando comparados com animais criados individualmente. A criação em grupo proporciona às bezerras a oportunidade de desenvolvimento social, melhora a qualidade de vida dos animais e estimula o consumo de ração. Estudos mostram que as instalações coletivas refletem melhor bem-estar, podendo-se observar comportamentos lúdicos (brincar, galopar, pular) durante boa parte do dia e não só após o fornecimento de leite em uma criação individual

Os riscos dessa forma de criação estão ligados à possibilidade de aumento da transmissão de doenças respiratórias, diarreias e o comportamento depravado dos animais.

O primeiro e o segundo casos estão vinculados às questões de manejo e sanidade, como colostragem, calendário de vacinação, limpeza do ambiente e formação de lotes.

O terceiro - a possibilidade de comportamento depravado - é observado em animais aleitados em sistema coletivo, quando não se faz uso de alimentadores automáticos. É quando acontece a "mamada cruzada" – quando um bezerro suga a uma parte do corpo de outro (áreas mais comuns são orelhas, úbere, umbigo, prepúcio e testículo).

O uso de alimentadores automáticos na criação de bezerras em aleitamento é uma ferramenta essencial para excluir tal risco. Além dos benefícios relacionados ao bem-estar na criação coletiva, o equipamento proporciona o fornecimento de leite em temperatura correta, maior volume de leite e de ração para o animal, possibilidade realizar um desaleitamento gradual e aumentar o desempenho pós-desmama, bem como colaborar para a gestão da propriedade e o seu desempenho econômico.

Com relação ao bem-estar animal, os principais benefícios são a convivência com outros animais e uma alimentação semelhante à natural, por ocorrer através de bico e se realizar diversas refeições durante o dia.

Referente à temperatura de leite para o fornecimento para a bezerra, o mesmo propicia condições adequadas, dado que fornece o alimento em temperatura próxima à corporal do animal, o que facilita a rápida coagulação no estômago e a perfeita digestão - tal capacidade reduz os riscos de diarreia nutricional por temperatura de leite inadequada.

Devido à liberdade de acesso ao equipamento, o animal é capaz de se alimentar durante as 24 horas do dia, possibilitando a inclusão de maior volume líquido na dieta da bezerra e também em porções fracionadas. Essa maior ingestão de leite durante o período de aleitamento das bezerras proporciona um maior desempenho dos animais quando jovens.

Trabalhos científicos apresentam os efeitos positivos dos programas de dieta líquida intensiva e mostram que o ganho de peso possui efeito favorável sobre o desenvolvimento da glândula mamária e incremento na produção de 0,5 kg a 1,4 kg de leite por dia na primeira lactação.

Dados experimentais indicam que bezerras alojadas coletivamente com animais mais velhos são capazes de consumir mais ração e, portanto, permitem melhor resposta ao desmame do que animais alojados com companheiros somente da mesma idade. Dessa forma, sugere que animais mais novos podem aprender a consumir ração com os mais velhos. O maior consumo de ração é fundamental para o desenvolvimento do rúmen e a transição do animal para o consumo de apenas dieta sólida. A capacidade de digerir alimento sólido mais cedo proporciona ao fazendeiro o desaleitamento precoce.

O fornecimento da dieta para os bezerros é feito de maneira automática e controlado através de um processador presente no alimentador de bezerros, no qual é possível programar uma desmama gradual e o volume de leite, reduzindo-se lentamente até próximo de zero ou conforme a expectativa do produtor no seu programa de desmama. Uma vez a redução da dieta líquida, o animal é estimulado a aumentar a quantidade de ingestão de ração, diminuindo, assim, o estresse na transição do desaleitamento para a recria devido à interrupção da dieta líquida.

Para Tatiana, a tecnologia favorece o bem-estar animal

Com relação ao processo de melhoria da gestão de propriedade, o alimentador de bezerros disponibiliza dados relativos ao consumo individual no dia. É possível identificar se o animal está mantendo o ritmo adequado de alimentação, o LLeeiittee que pode fazer com que o produtor se antecipe na tomada de decisão quanto a maiores atenções à saúde do animal, bem como readequações à dieta, conforme orientação do veterinário. Em determinadas versões, é possível acompanhar o número de visitas realizadas por animal durante o dia.

Bezerro pode se alimentar durante todo o dia

O proprietário pode utilizar o leite fluído, in natura ou pasteurizado e o sucedâneo lácteo. Tal característica proporciona a flexibilidade de o produtor optar pelo material com melhor custo benefício, dessa forma também melhorando a performance no resultado da propriedade.

Outro ponto a ser abordado é quanto ao melhor aproveitamento da mão de obra utilizada. No modelo tradicional, o funcionário é responsável por aquecer o leite e fornecer individualmente para cada animal, limpar todos os baldes e baias, além de transportar as casinhas, caso esse seja o método de criação da fazenda. Com o alimentador, o foco do funcionário deixa de ser tão somente de tratar os bezerros e passa a ser também o acompanhamento sistemático dos animais, entre a alimentação e seus hábitos. O produtor passa a empregar uma visão analítica a respeito da evolução dos animais e seus resultados.

A fase de aleitamento das bezerras é uma das mais complexas e onerosas de todo o período da criação do animal. A evolução dos modelos de criação de bezerras nos últimos anos, através de investigações científicas, mudança de cultura, profissionalização e tecnificação da atividade leiteira, possibilitou promover o bemestar animal e o maior desempenho do produtor na atividade.

*Tatiana Dalossi é médica-veterinária