Sobrevoando

 

Orloff

Toninho Carancho
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Na década de 80, do milênio passado, tinha uma propaganda na TV da vodca Orloff e o bordão, que ficou famoso, era "Eu sou você amanhã". Mostrava, se lembro bem (eu e os dinossauros vivemos nesta época), um cara bonitão que não estava de ressaca no dia seguinte, pois tinha escolhido a bebida certa. Quem criou a frase, ao que me consta, foi o publicitário paulistano Jaques Lewkowicz, sócio da agência de propaganda Lew Lara (gosto de dar a fonte quando sei de quem se trata).

A frase deu tão certo que começaram a usá-la para várias outras coisas, tornando-se, então, o "Efeito Orloff", usado para demonstrar que se não fizéssemos tal coisa, depois sentiríamos a ressaca. Ou então que, se fizéssemos outra coisa, os resultados seriam diferentes. Enfim, muitos lembram da propaganda e do termo (dinossauros) e os outros já devem ter captado a ideia. Meus leitores, que devem ser uns quatro ou cinco, são muito espertos e safos.

Na pecuária e na agricultura de hoje, no Brasil, estamos passando por um Efeito Orloff. Se olharmos para o agronegócio americano, vamos ver que os gringos têm cada vez menos empregados e cada vez mais máquinas, e estas cada vez maiores. Lá não existe mão de obra para trabalhar na fazenda, ela é raríssima e, portanto, caríssima. Quem trabalha é o dono, a mulher do dono, um dos filhos (se derem sorte e por obrigação) e talvez um parente, primo, sobrinho, cunhado (ops, cunhado não é parente).

Já aqui nos trópicos, começamos a sentir este efeito. Cada vez mais é difícil conseguir mão de obra boa, e, por consequência, quando se acha, é cada vez mais cara. Esta realidade, que não é nova, mas está cada vez mais visível, nos empurra para o lado das máquinas. Nossas fazendas estão cada vez mais equipadas e com menos gente. Mais HPs e menos braços. Mais custo de diesel, mecânica, reparos e equipamentos e menos custos de salários, reclamatórias e tudo mais que envolvem pessoas e suas relações.

Com juros baixos e dinheiro farto, quem tem crédito já foi ou está indo às compras com toda a vontade. Tratores traçados e cabinados, colheitadeiras imensas, caminhões turbo intercooler, troncos novos, balanças eletrônicas, plantadeiras e pulverizadores de última geração e o escambau. Por outro lado, na parte do pessoal, as obrigações e compromissos só aumentam, afugentando a contratação da mão de obra, sem contar a tendência normal das pessoas saírem do campo e irem para a cidade. E a tendência é cada vez mais as coisas irem para este lado. Mais máquinas e menos pessoas. E estas pessoas são diferentes das que estávamos acostumados a encontrar no campo. Sabem ler e escrever. São escolados e, muitas vezes, descolados. Tem uma instrução formal bem maior do que as outras gerações, apesar de muitas vezes não terem a vivência do campo, esta sim, em franca extinção. É o tal do Efeito Orloff. Olhem para os gringos. Eles somos nós amanhã.