Caindo na Braquiária

 

Algumas tendências para 2014 – terra e gado

Alexandre Zadra - Zootecnista [email protected]

Com o sapatão coberto de terra vermelha, o pecuarista apaixonado Wagner Lezenha olha para cima em mais uma manhã de céu limpo, sem muitas perspectivas de chuva, e, pela enésima vez, questiona seu agrônomo sobre a possibilidade de perder todo o plantio de sorgo que fará, caso a estiagem se prolongue.

Já se passaram 90 dias desde que Wagner Lezenha decidira então reformar as pastagens degradadas da fazenda, onde plantaria milho consorciado com braquiária. Só havia um detalhe importante para esse intento, desde sua decisão caira muito pouca chuva nas suas terras incrustradas na produtiva região do Triângulo Mineiro. Como sua primeira fazenda fora herança vinda de tradicional família de pecuaristas, na qual Wagner só fez engordar o patrimônio, criando gado de corte, todos do Sindicato Rural local ficaram surpresos com a decisão de o mesmo partir para a agricultura, atividade que depende de investimentos pesados em adubo, sementes e maquinário. "Mesmo sabendo que a agricultura apresenta uma série de intempéries para se obter o lucro desejado e retorno do investimento, por que decidiu plantar na sua terra?", questionou João Lobato, tradicional tirador de leite daquelas paragens.

Depois de tanto analisar o mercado agrícola e as diferenças existentes no valor do solo utilizado para gado e para agricultura, Wagner foi pragmático na resposta: "João, como sabe bem, há mais de três meses venho analisando preços de terra e mercado de grãos, quando decidi, então, plantar milho em janeiro a fim de reformar meus pastos já tão degradados. Para essa primeira empreitada escolhi a minha melhor terra, uma área de chapadão da fazenda, onde conto com terra vermelha e terreno muito plano. Com a estiagem que estamos vivendo, jamais vista para essa época, mudei minha decisão de plantar milho, muito mais exigente e caro, para semear sorgo, menos exigente, consorciado com Mombaça, para fazer silagem para o gado. Meu raciocínio vem a encontro com a valorização que as terras de lavoura vêm experimentando em todo o País. Mesmo se eu colher abaixo do esperado, terei minha terra reformada, limpa e pronta para a nova fase que o campo passará, a Integração-Lavoura-Pecuária (ILP). Busco, com isso, o aproveitamento máximo, além da sua valorização".

A família Lezenha, acostumada com a tranquilidade da pecuária, iniciará, então, uma nova etapa na fazenda, esperando desde já condições climáticas perfeitas ao plantio e à colheita, além de boa pluviosidade durante os meses de desenvolvimento da cultura, a fim de se produzir uma silagem de alta qualidade. Como se não bastasse, para se produzir muito, ele contara com um novo fator circulante no meio da agricultura: o alto nível de estresse.

Outra importante decisão tomada por Wagner foi a de focar todo seu rebanho na produção de bezerros, e não mais recriar e engordar. Tal atitude fora respaldada no fato da maior valorização da cria nos últimos tempos e, sobretudo, pelo aumento significativo do abate de fêmeas na última década. Agora, Wagner se concentrará no rebanho de matrizes Nelore, inseminando-as com Angus, para repor seu rebanho de vacas, descartando as vazias e alocando esse valor para compra de novilhas com os melhores neloristas da região, os quais possuem um material genético de alto potencial.

As decisões tomadas por Wagner seguem o caminho que o campo vem tomando, valorização de terras agricultáveis com o plantio em solos antes usados exclusivamente na atividade pecuária, implantando, assim, a ILP nessas áreas, bem como a segmentação da pecuária, onde é notória a necessidade da especialização de cada elo do setor.

Essa última tendência do campo encontra padrinhos nos criadores que fazem IATF e deverão repor matrizes Nelore com a aquisição de novilhas da mesma raça nos melhores criadores do Brasil, focando na venda de bezerros e bezerras meio-sangue europeus ou mesmo animais tricross desmamados para agricultores que recriarão nas áreas de ILP; e, então, engordados pelos confinadores e frigoríficos, que darão o tratamento adequado, buscando atender cada nicho de mercado. Por outro lado, os neloristas tornar-se-ão os fornecedores das novilhas de reposição, devendo entregar uma novilha a ponto de enxerto pelo preço de uma vaca abatida no descarte. Tal tendência pode parecer devaneio, mas devemos lembrar da suinocultura e da avicultura, dois setores organizados há muito tempo, nos quais cada elo do setor se especializou, possuindo rebanhos avós, criatórios multiplicadores e produtores terminadores, realidade que já vivemos na pecuária moderna.