Do Pasto ao Prato

 

RAÇAS: MODAS, RELIGIÕES, PAIXÕES E MERCADO

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br

As raças de gado, em qualquer lugar do mundo, são tema de grandes discussões (acaloradas, muitas vezes) entre pecuaristas e técnicos. Defendem-se raças como defendemos time de futebol, ideologia política ou religião. Parece brincadeira, mas quem é do meio sabe que é mais ou menos assim.

Como ocorre a definição do uso de uma raça? Por que no Brasil a raça Nelore é predominante e no sul do país temos o Angus como a raça líder? Por que nos Estados Unidos o Angus é dominante? Por que no Uruguai e na Argentina predominam Hereford e Angus e o zebuíno quase não tem expressão? Por que na Austrália aparecem com destaque, além de Angus e Hereford, os sintéticos Santa Gertrudis e Droughtmaster? E, na Europa, por que raças tão diferentes? Pois bem, vamos avançar nestas e em outras questões relacionadas às raças.

Não há como contestar que a natureza é soberana e que algumas raças são bem mais eficientes em certos ambientes. Nas condições subtropicais do Brasil (combinação de calor e umidade), o Nelore é insuperável. Foi inicialmente selecionado para sobreviver e, agora, vem sendo selecionado para ser resistente e muito produtivo. Em algumas situações, os animais cruzados e sintéticos desempenham bem nas mesmas condições que o zebuíno, mas em sistemas de produção especializados (ex: cruzamento terminal) ou propriedades mais tecnificadas. Fala-se muito em tolerância ao calor, mas o problema para as raças europeias não é só a temperatura. É também a presença de umidade (nosso caso). Rebanhos Angus, Hereford, Simental e outros são muito eficientes no México e na África do Sul, mas lá é seco, meu amigo, desértico em alguns locais. Repetidamente vemos ciclos de tentativas de introdução de raças não adaptadas em certas regiões. A lógica acontece e estes projetos não avançam. São modismos de curta duração e, quando se olha para trás, não se entende como ocorreu. Tipo blazer com ombreira (era bonito demais).

Com o segundo posto de importância no ranking de escolha de raças está o mercado, pois os pecuaristas que estão nesta atividade com propósito produtivo e comercial miram sempre a rentabilidade. Aí entram grandes diferenças entres os países já citados. Os Estados Unidos têm um sistema de classificação de carcaças que diferencia os animais conforme a qualidade da carcaça (maturidade, peso, gordura, marmoreio, relação músculo:gordura, etc) e, assim, a escolha da raça passa a ter mais importância, pois o mercado está solicitando uma especificação de produto e esta será alcançada com a combinação de raça e sistema de produção. O direcionamento dos Estados Unidos para a produção e a valorização de carnes "Choice" e "Prime" responde por grande parte do crescimento da raça Angus. Na Austrália, onde o mercado internacional é o principal destino da carne de qualidade (Japão e Coreia), a grande exigência por carcaças pesadas e marmorizadas direciona a escolha de raças pelos confinamentos e, consequentemente, pelos criadores. Para o mercado doméstico, as especificações são distintas (carcaças mais leves e menos gordas) e, assim, outras raças podem ser usadas, porém, ocorre especialização do produtor para o mercado A ou B. No Brasil, a grande maioria da carne produzida (aprox. 85%) é destinada para o mercado doméstico e os padrões exigidos são baixos ou inexistentes. A classificação de carcaças para fins de compra dos animais ainda não é o mais usual e o sistema mais corrente é o pagamento por peso de carcaça ou até por peso vivo. Naturalmente que esta situação não pressiona o pecuarista a buscar genética para isto ou para aquilo, do ponto de vista de composição de carcaça e qualidade de carne. O Uruguai possui mais anos de praia que o Brasil no mercado internacional de carne e, para sustentar a posição de exportador de qualidade, teve que padronizar seu rebanho em Hereford e Angus. De outra parte, em sistemas pastoris (com períodos de restrição alimentar), a cria destas raças é mais eficiente que as continentais. Na Europa, as raças de corte têm uma função bem distinta das nossas, pois são selecionadas para cruzamento com raças de leite, justificando-se raças como Limousin, Blonde D'Aquitane, Belgian Blue e tantas outras com hipertrofia muscular, pois o objetivo é adicionar músculo em matrizes leiteiras grandes suficientes para parir um bezerro de qualquer genética. A matriz do rebanho europeu é o inverso da nossa e a grande população de bovinos é de gado de leite e a carne vem daí. Esse é um dos motivos para o Angus na Escócia ou Inglaterra ser tão grande quanto um Charolês. Os subsídios da pecuária europeia também geram algumas distorções na escolha das raças.

O sistema de produção é um determinante importante da eleição de raças. Nos sistemas muito extensivos, onde a rusticidade (leia-se "tolerância à fome") é fundamental, a raça quase pouco importa, pois, estando adequadas ao ambiente, as diferentes raças desempenharão de forma muito similar, ou seja, produzirão muito pouco. O rebanho de cria formado por raças ou biótipos menores sofrerá um pouco menos e reproduzirá um pouco mais, porém, o nível geral de produção da fazenda ainda será muito baixo. Já na situação oposta, onde o sistema é intensivo (e o acelerador está no fundo com apropriada ou alta disponibilidade de alimento), a raça passa ter grande importância, pois algumas desempenham bem e respondem ao insumo recebido e outras medianamente ou até abaixo do mínimo desejado. No momento que o pecuarista usa de ferramentas como a suplementação ou o confinamento, ele passa a dar mais valor para a genética, pois a diferença existente entre as raças aparece, salta aos olhos, seja em fazendas mais ou menos organizadas. Naquelas propriedades onde os indicadores zootécnicos são medidos e utilizados, a questão fica mais evidente e a definição por uma raça ou outra se dá de forma mais rápida e consistente. Assim como acontece nas propriedades, ocorre nos países e, naqueles que a pecuária é mais intensiva e profissionalizada, a questão das raças é mais bem estabelecida. A cria nestes países também é mais intensiva. Quando os EUA passaram a colocar as fêmeas em reprodução com um ano, os problemas de parto surgiram como uma grande questão, aumentando a população de animais Angus (e Red Angus) e diminuindo a participação do Hereford e de diversas raças continentais. A afirmativa faz tanto sentido que, até hoje, nos EUA a característica mais valorizada para a compra de touros Angus é a facilidade de parto.

Os modismo e as paixões estão, sim, presentes na escolha das raças, mas estes vêm ficando cada vez mais em segundo ou terceiro planos. Criar a raça que a família criava no passado, escolher aquela mais bonita ou outras justificativas estão ficando com pouco sentido. Algumas raças com pouco criadores vão ficando "pequenas", pois, mesmo com grandes qualidades genéticas em sua origem, estes grupos raciais não conseguem competir (no mercado e no campo) com aqueles que vêm fazendo um trabalho contínuo de seleção e melhoramento. Ano a ano, as distâncias em população selecionada e o uso de tecnologia vão tornando menores as raças com menos expressão. As raças possuem suas cores e trejeitos, mas não esqueça que a mão do homem (através das associações) é que faz uma raça forte, eficiente no campo e apropriada para o mercado. Tanto é verdadeira a importância do homem neste processo que a África do Sul desenvolveu raças voltadas para adaptação naquele ambiente. Poderia lá estar dominante o Nelore ou os sintéticos (Brangus, Braford, etc), entretanto, a competência dos homens envolvidos produziu novas raças, como o Bonsmara, o Senepol, etc.

Aos que esperavam que eu iria defender alguma raça, desculpas pela frustração. Sou um entusiasta do assunto raças, genética e melhoramento animal. Cuido para que a sujeira dos óculos não distorça a visão prática que devemos ter sobre este assunto. Tudo tem um porquê e é bom demais pensar e estudar estes porquês.