Raça do Mês

 

Nelore Sem Chifres

Enaltecido por suas qualidades, Mocho mostra que oferece fácil manejo, docilidade e conquista mercado

Fatima Costa

Ao longo dos 28 anos de seleção, o pecuarista Carlos Viacava, presidente do Clube do Mocho e vice- presidente da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), conseguiu boas conquistas na pecuária brasileira. Isso possível graças ao Nelore Mocho, que proporciona a produção de um gado fértil, de ciclo curto, com boa habilidade materna e adaptado ao meio ambiente típico de regiões tropicais e subtropicais.

"O Nelore Mocho gera animais com alta adaptabilidade, com bezerros nascendo e correndo ao pé da mãe; resistente ao carrapato e à berne e a outros endo e ectoparasitas. E o melhor: ausente de chifres", enumera o criador. Tudo porque, segundo ele, os chifres constituem uma ameaça para quem lida diretamente com o gado e também para os próprios animais, que podem ficar com hematomas, danificando o couro e a carcaça. Outra vantagem é que o caráter mocho permite alojar um maior número de cabeças no cocho de sal, mangueiro e caminhões.

Entre outros diferenciais do Mocho, ele reforça a questão da homogeneidade nos lotes de bezerros e da vacada no pasto, o que pode ajudar a agregar valor comercial aos produtos vendidos. Soma-se o fato de o Nelore Mocho também englobar as qualidades já reconhecidas do Nelore Padrão, raça que produz um gado rústico, precoce, moderno e produtivo, sendo a base do rebanho bovino brasileiro de 200 milhões de cabeças. Pelo menos, é o que garante Roberto Giosa, ex-presidente da extinta Associação dos Criadores de Nelore Mocho, que há mais de 25 anos aposta na raça e a enxerga como uma forte tendência de mercado. "O Mocho foi desenvolvido e consolidado utilizando, muitas vezes, a base do Nelore Padrão. Virou uma referência graças ao trabalho de criadores pioneiros como Ovídio Miranda de Brito, Geraldo Ribeiro e Seu Cantidio", lembra. Em comparação com outras raças, o Nelore Mocho é mais dócil, fácil de manejar, as fêmeas são boas mães e, nos últimos dez anos, apresenta um grande avanço em relação à carcaça e ao comprimento, fruto do acasalamento dirigido e baseado em programas de melhoramento genético, aponta o criador. "É o gado ideal para pequenas e médias propriedades, nas quais é o dono e sua família que cuidam dos animais. Os touros não brigam no campo e, no transporte, os acidentes são reduzidos, pela ausência dos chifres", explica.

Giosa aponta que a expansão do Nelore Mocho no Brasil veio do Programa Nelore Natural, desenvolvido pela Associação dos Criadores de Nelore do Brasil em parceria com frigoríficos que premiam os animais superiores e com bom acabamento de carcaça. "Em Paranaíba, mando alguns animais para o Marfrig e recebo prêmio em dinheiro pela qualidade. Esse é o caminho. Estimular quem faz direito", afirma. Outra figura com enorme relevância no Nelore Mocho, inclusive da família precursora da raça, é o próprio Ovídio Carlos de Brito, que investe pesado quando o assunto é pesquisa em melhoramento genético e avaliação de carcaça. "Com a entrada de novos clientes, o mercado indica o crescimento e a expansão do Mocho pelo País", resume o agrônomo Ângelo Fumio Nakagawa, gerente geral da Guaporé Pecuária S/A (Marca OB), a propriedade de Ovídio Brito, que também integra o Clube do Mocho.

Nakagawa acredita que o Nelore Mocho – o animal naturalmente sem chifres, foi uma invenção acidental do próprio Grupo OB, no final da década de 1950 – tem fertilidade acima da média, por ter sido desenvolvido por selecionadores preocupados com a rentabilidade dos pecuaristas que vivem apenas da criação de bovinos de corte. "Os animais são desmamados pesados, apresentam ótimo ganho ponderal e são precoces, sendo abatidos a pasto aos 20 meses de idade", reforça o gerente.

Atualmente, a Marca OB mantém parceria com a Embrapa para estudar a maciez de carne na raça Nelore, em suas duas vertentes. O objetivo é provar que um animal rústico pode produzir uma carne tenra, saborosa e macia, comparada às melhores raças europeias. O trabalho trouxe resultados importantes, que podem ajudar os programas de acasalamentos da raça. Unânimes, os criadores descrevem o Nelore Mocho como um animal que apresenta, basicamente, dois tipos de coloração: branco e cinza-claro, apesar de ser também encontrado nas cores vermelha, amarela, preta e combinações com o branco.

As orelhas são curtas, em forma de lança, e o sulco profundo no centro da testa recebe o nome de "gotera". Outro dado interessante, apontado por Nakagawa, diz respeito às pesquisas desenvolvidas com o Nelore Mocho. Ele recorda que, no ano 1999, o professor John Frisch, principal pesquisador do Tropical Beef Center, em Rockhampton, na Austrália, apresentou estudo no qual foram analisados dados zootécnicos de animais de três raças distintas, criadas juntas e tratadas sob as mesmas condições. "Constatou-se que os animais geneticamente mochos apresentaram melhores índices de fertilidade, crescimento e menor mortalidade", diz. "De lá para cá, houve um aumento significativo nos trabalhos científicos e no desenvolvimento da raça. A busca por animais melhores é incessante", afirma ele.

ESTUDOS DO MOCHO

Na opinião do especialista em genética bovina, Raysildo Barbosa Lobo, presidente da ANCP, em Ribeirão Preto/SP, pode-se dizer, sim, que o mocho possui vantagens no manejo, com a ausência de chifre. "Porém, em relação à avaliação genética, a ANCP não faz distinção entre Mocho e Padrão. No programa Nelore Brasil, os dois são avaliados juntos, por formarem uma única raça, e as avaliações genéticas são realizadas para as mesmas características em ambos", esclerece Lobo, que é coordenador do programa Nelore Brasil, que completou 25 anos em 2013.

Lobo também explica que, pela própria quantidade de animais Nelore no País e presentes nos programas de seleção, a raça já possui muitas vantagens, como a quantidade de dados disponível, o que permite maior consistência nas avaliações genéticas e seleção para características mais específicas, como Peso de Carcaça, Marmoreio e Probabilidade de Parto Precoce. "A variabilidade genética da raça também é uma vantagem, pois permite encontrar animais bem superiores para cada característica e multiplicá-los em larga escala", frisa.

Carlos Viacava enxerga excelentes oportunidades para o Mocho

Lobo lembra que, tradicionalmente, o Nelore sempre foi selecionado para peso. É a característica que mais evoluiu dentro da raça. "Sabemos que para o frigorífico e o consumidor não basta só pesar, temos de ter boas carcaças. Por isso, atributos como Área de Olho de Lombo, Acabamento de Carcaça e Morfologia têm sido prioridade na seleção genética do Nelore Brasil."

O que vem ocorrendo com a raça Nelore Mocho, na visão do zootecnista e pesquisador Cláudio Magnabosco, da Embrapa Cerrados (Planaltina/DF), que desenvolve um trabalho de cooperação técnica com uma empresa de genética bovina e que tem como objetivo o aprimoramento do núcleo de seleção de animais da raça Nelore Mocho BRGN (Brasil Genética Nelore), a raça caiu nas graças das Provas de Ganho de peso a pasto. Segundo Magnabosco, a habilidade materna das vacas e o desmame de bezerros com 230 kg, em média, vêm colocando o Nelore Mocho no topo da produção comercial. "Um aspecto que enaltece a raça diz respeito às características do bovino, ou seja, hoje constituídos de tamanhos menores, mais funcionais, melhores costelas, menos pernas e um arqueamento muito bom".

Há mais de dez anos Cláudio Magnabosco estuda o Nelore Mocho nas condições de Cerrado

Os trabalhos de desenvolvimento do rebanho Nelore Mocho da BRGN, da Embrapa, são realizados há mais de dez anos pela instituição, a partir da participação de machos e fêmeas provados superiores em pastagens do Cerrado para as características de crescimento, precocidade e habilidade materna. Claudio Magnabosco explica que a escolha do gado foi realizada de forma estratégica. "Optamos pelo Nelore Mocho em virtude do manejo mais facilitado", diz.

Os animais são testados em campos experimentais do centro de pesquisa e servem como difusores de material genético melhorado. A parceira entre o órgão público e uma empresa privada tornou possível a venda do material a qualquer criador interessado. "O trabalho serve para ampliar a democratização de genética. Os criadores que já trabalham com a raça estão acreditando muito no seu potencial e estimulando outros a começar a criar Nelore Mocho", conta.

Facilidade de manejo é um dos grandes diferenciais da raça

Como menciona Carlos Viacava, o foco do trabalho é sempre no melhoramento genético – uma exigência atual do mercado pecuário. "Quem pratica melhoramento genético, com olhos na fertilidade, medida pelo perímetro escrotal até 18 meses; obtém sensíveis progressos na fertilidade do rebanho. Muitos criadores de mocho são adeptos da ANCP e participam do PMGRN (Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore), rebatizado de Nelore Brasil, e, devido a isso, nota-se um progresso importante na fertilidade do gado Nelore Mocho", enfatiza Viacava, um dos primeiros criadores a integrar o Nelore Brasil. São mais de 300 rebanhos enviando informações de seus rebanhos. Com mais de 2 milhões de animais avaliados para 29 características, a ANCP pode comprovar a evolução da raça por dados científicos.

MOCHO NAS ESTATÍSTICAS

De acordo com dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial, as vendas de sêmen das raças Nelore e Nelore Mocho somam juntas mais de 3,3 milhões de doses, representando 44,6% do volume geral de gado de corte. Já com relação aos números do Serviço de Registro Genealógico dos últimos 20 anos, dados da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu revelam que os registros de animais Nelore Mocho PO (puro de origem) ou LA (livro aberto), de janeiro de 1994 a janeiro de 2014, totalizaram 856 mil animais, sendo 608 mil fêmeas e o restante machos.

Segundo Ângelo Nakagawa, já tem Nelore Mocho sendo abatido aos 20 meses

Já no cenário internacional, os números apontam para uma grande prosperidade. "Nos últimos anos, observamos um interesse especial pelo Nelore Mocho por parte dos sul-americanos e Centro-América", diz Icce Garbellini, gerente internacional da ABCZ, no Projeto Brazilian Cattle Genetics. O interesse dá-se pela seleção apurada do rebanho brasileiro, segundo ela. "A Bolívia já possui um rebanho Nelore Mocho de grande qualidade e com alto potencial de produção, todo ele formado com base na genética brasileira", afirma Icce.

Na opinião de Viacava, assim como o Nelore, o Mocho vem evoluindo bastante. "A abertura dos mercados externos para o Brasil provocou uma melhoria da carne brasileira, em decorrência de um enorme progresso da raça Nelore e dos avanços nas técnicas de manejo e pastagem. Hoje, abate-se um Nelore mais jovem, precoce e com ótimo acabamento, o que propicia uma carne de altíssima qualidade". Ele diz que a Bolívia, bem como o Paraguai, tem um rebanho mocho de altíssima qualidade. "Já a Colômbia, que tem um 'Super Brahman', talvez o melhor do mundo, está dando seus primeiros passos com o Nelore. O problema, por aqui, reside na ausência de protocolos sanitários que permitam uma maior negociação entre o Brasil e os demais países", conta.