Pastagem

 

CAMPOS NATIVOS gaúchos

É possível intensificar a produção forrageira?

Paulo Araripe*

As pastagens naturais do Rio Grande do Sul ocupam uma área de, aproximadamente, 8,27 milhões de hectares, o que representa em torno de 40,7% do estado. A área de pastagens cultivadas é de difícil definição, já que a maioria é proveniente de cultivos anuais, geralmente plantadas no período de inverno, em sucessão a cultivos agrícolas de verão, como a soja e o milho. Estimativas do IBGE apontam para 1,24 milhão de hectares de pastagens cultivadas com aveia e azevém no RS. Assim, é evidente que a utilização de forragem é baseada principalmente em pastagens nativas. Embora estas existam em todas as regiões do estado, as maiores extensões encontram-se nas regiões de Campanha, ao sudoeste, nos Campos de Cima da Serra, ao nordeste, e na Depressão Central.

A produtividade das pastagens naturais normalmente é satisfatória no período de primavera-verão, possibilitando abrigar, na média, algo em torno de 1,0 UA (450 quilos de peso vivo) por hectare. Porém, no inverno seu crescimento é retardado pelas baixas temperaturas, o que leva à queda na disponibilidade de forragem e à diminuição na lotação, que passa para 0,6 UA por hectare. Desta forma, a produtividade média anual nesse sistema é baixa.

Para melhorar a disponibilidade de forragem e, consequentemente, a produtividade de carne/leite por hectare, há que se aumentar a produção de pastagem natural ou até mesmo pensar na substituição dela por pastagens cultivadas.

É importante salientar que a substituição dos campos nativos por pastagens cultivadas é uma estratégia que deve levar em consideração alguns aspectos interessantes: (1) a pesquisa forrageira brasileira e gaúcha ainda não conhece o potencial produtivo do campo nativo, submetido aos mesmos manejos que se faz quando implantamos pastagens artificiais, portanto, perder algo que não se conhece não parece ser uma boa estratégia; (2) a qualidade da forragem produzida em campo nativo é muito superior à das principais forrageiras plantadas (normalmente gramíneas), principalmente aquelas de clima tropical, como as braquiárias; o problema torna-se apenas a produção de quantidade de forragem por área; (3) os campos nativos estão, geralmente, sob solos degradados e em áreas marginais à agricultura, o que, certamente, limita a produção dos mesmos; se corrigirmos o solo e implementarmos práticas de reposição dos nutrientes consumidos pelos animais no pastejo, teremos outra situação forrageira; (4) como o campo nativo é formado por várias espécies de plantas (forrageiras ou não), o manejo do pastejo e o controle das plantas invasoras são operações difíceis e requerem muitos conhecimentos agrostológico.

Pelo apresentado, a substituição dos campos nativos não é recomendada por ora. São necessários muitos conhecimentos para se fazer isso. Para embasar mais ainda esta questão, existem muitos trabalhos demonstrando o potencial de campos nativos melhorados, em várias regiões do estado. Estes trabalhos, de pesquisadores e instituições sérias, mostram, por exemplo, que é possível produzir 30.000 quilos de matéria seca por hectare por ano, uma produção semelhante a pastos de braquiária brizantha conduzidos intensivamente no Centro-Oeste do Brasil.

Existem várias estratégias que permitem às pastagens naturais gaúchas o aumento da sua produtividade e a diminuição do período de carência do pasto no inverno. Estas passam por adubação, calagem e introdução de espécies forrageiras de inverno, sobressemeadas sobre o campo nativo. Esta última é bastante interessante, pois, no inverno, haverá a produção de forragem das espécies introduzidas via sobressemeadura e, no verão, após seu ciclo ter terminado, haverá a produção de pastagem natural melhorada, beneficiada pelas adubações e calagem. A irrigação de campos também já é uma realidade no Rio Grande do Sul, com ótimos resultados produtivos e financeiros para a pecuária. Estas áreas recebem, em média, de 3 a 4 UA por hectare, desfrutando de uma dieta altamente nutritiva proporcionada pelo campo nativo.

Para o melhoramento da forragem, são introduzidas, via plantio direto sobre a pastagem natural, gramíneas como aveia e azevém, e leguminosas como os trevos e o cornichão. A utilização de consórcios forrageiros é importante porque as gramíneas aumentam a quantidade de massa de forragem e as leguminosas aumentam a qualidade da forragem, já que estas possuem altos teores de proteína. Porém, como estas espécies são exigentes em fertilidade de solo, é imprescindível a correção da acidez com a adição de calcário e a melhoria da fertilidade pela adubação.

Campo nativo melhorado com adubação e calagem, em Bagé/RS

Pesquisas mostraram que, ao se fazer a correção de acidez do solo e adicionando 100 quilos de nitrogênio por hectare no sistema, a oferta de forragem chega a aumentar 50% sobre o peso vivo abrigado, em matéria seca.

Para ser ter uma ideia, uma pastagem de azevém adubada com 100 quilos por hectare de nitrogênio proporciona uma massa de forragem de 2.100 quilos por hectare. Se considerarmos o custo da implementação da pastagem, incluindo maquinário, o tempo de espera para a estabilização das plantas e a dependência maior de condições climáticas para a utilização do pasto artificial, chegamos à conclusão que é muito mais vantajoso adubar o campo nativo e manejá-lo corretamente. Lembrando que esta é uma pastagem natural, não apresentando custo de aquisição de sementes e de maquinário para implementá-la, podendo ser usada o ano inteiro. Já a pastagem cultivada, neste caso, é anual e, geralmente, pode ser utilizada somente de junho a outubro.

Trabalho realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul demonstrou que, ao se adubar o campo nativo com 100 quilos de nitrogênio por hectare, o retorno econômico, trabalhando com terminação de bovinos, é de R$ 1,80 para cada real investido.

Observando estes números e pensando um pouco em sustentabilidade, assunto tão em pauta no momento, concluímos que a adubação do campo nativo é uma alternativa bastante viável, pois, além da preservação do bioma Pampa, o lucro que pode ser obtido com esse aumento de massa de forragem é muito maior do que se utilizarmos o campo nativo sem adubação.

Campo nativo melhorado com adubação, calagem, irrigação e sobressemeadura, em Bagé/RS

Salienta-se que, em virtude de cada propriedade pecuária possuir individualidades, o projeto de intensificação da produção forrageira deve ser realizado por profissional competente e habilitado para tal. Intensificar campo nativo é operação delicada e que exige conhecimento para a colheita de bons resultados em produção de carne/leite e eficiência econômica.

*Paulo Araripe é engenheiro- agrônomo da Boviplan Consultoria Agropecuária. A título de informação, a empresa, que acaba de completar 30 anos de atuação em assistência técnica a projetos agropecuários, divulga a integração da equipe da Araripe Consultoria, até então capitaneada por Paulo Araripe, consultor com 20 anos de experiência no setor. Após negociação, as duas empresas de Piracicaba/SP acertaram a fusão e passam a operar sob a marca Boviplan.