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SILAGEM para todos os gostos

Técnica se expande na pecuária de corte e mostra maior diversidade

Antiga companheira dos produtores ao redor do mundo, esta técnica de conservação de forragens é utilizada há pelo menos 3.500 anos e começou a ser encontrada em fazendas brasileiras no século XIX. Contudo, a difusão foi lenta no País por fatores como resistência e insegurança ao adotá-la, mas isto vem paulatinamente mudando.

A referência e a mais conhecida continua sendo a preparada com a planta inteira do milho, mas a ensilagem avança pelo Brasil pecuário também com os capins e grãos úmidos de milho, dentre outros. As razões para isso são fáceis de identificar, como a necessidade de encurtar o ciclo de produção do gado de corte, custo relativamente mais barato frente a outros ingredientes da ração, melhoria genética dos animais que exigem e respondem a um bom alimento e a mudança de conceitos. É preciso destacar que a terceirização do maquinário utilizado foi uma "mão na roda".

A confecção tem melhorado com o maior nível de informação através de técnicos que assessoram as propriedades, cursos ou novas gerações que assumem os negócios e possuem nova mentalidade ou até formação específica em ciências agrárias. Mas a silagem precisaria ser muito mais utilizada e ainda existe grande variação na qualidade, de uma propriedade para outra, dependendo do patamar de conhecimento de quem a produz, cultivares utilizados e outros aspectos. Como os técnicos também ressaltam, os pecuaristas necessitam se esmerar mais na parte agrícola, aprimorando o resultado final em termos de produtividade e qualidade.

A zootecnista Juliane da Silva Gomes, que atua no setor de assistência técnica da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), com sede em Goiânia/GO, afirma que a conservação de forragens será um aspecto cada vez mais exigido nos confinamentos em termos de um padrão nutritivo adequado, com vistas a diminuir o uso de ingredientes concentrados e garantir uma reserva estratégica de volumoso. "A silagem possui baixo custo de produção, grande eficiência biológica, nutricional e favorece o processo de ruminação", enfatiza. Esse tema está sempre presente nos cursos de capacitação promovidos pela entidade, que somam mais de 15 edições.

Mesmo reconhecendo sua importância, a zootecnista pondera que o uso da silagem não chega a ser obrigatório, havendo opções como as pastagens de inverno, se o clima permitir, a cana-de-açúcar picada ou o diferimento de pastos (feno em pé). Juliana Gomes acrescenta que a silagem não possui a mesma qualidade de um produto in natura, mas que, se feita de maneira adequada, manterá grande parte dos nutrientes. Alguma perda em volume sempre acontece e, quando manejada incorretamente, ela pode superar os 25%, mas a produção de efluentes, fermentações indesejadas e a degradação pelo ar (aeróbica) são todas condições evitáveis.

Juliane da Silva afirma que a conservação de forragens é um aspecto cada vez mais exigido nos confinamentos

As forragens conservadas podem ser utilizadas no balanceamento da dieta de qualquer categoria animal e não só de animais em terminação, a depender da conveniência e época do ano, com a preferência recaindo sobre o período seco, quando escasseia a comida. Seu fornecimento aos bezerros desmamados na ausência de feno ajuda no desenvolvimento do rúmen; novilhas ganham mais peso e têm antecipada sua entrada em reprodução e os tourinhos para a venda ficam em boa forma. Como em qualquer alteração na dieta, seu uso pressupõe um período inicial de adaptação, com sua paulatina introdução no cocho.

Uma questão básica que por vezes complica está relacionada ao volume de uma silagem qualquer a ser produzido em função de seu nível de inclusão na dieta e a área para sua produção. Tomando por referência um confinamento para 20 mil animais com a ingestão de 12kg de silagem/animal/dia, que representa 55% da dieta, os cálculos mostram que em 90 dias de confinamento serão consumidas 21.600 toneladas (12kg X 20 mil animais X 90 dias). Essa silagem pronta representa cerca de 85% da matéria verde que foi produzida, considerando-se que no processo ocorrem, normalmente, perdas de 5% até 15% por sua secagem. Desta forma, o total a ser produzido de matéria original será de 25.412 toneladas, ou uma área perto de 509 ha, considerando-se a produtividade média de 50 t/ha. A zootecnista da Assocon comenta que essa demanda de área para o plantio faz com que confinamentos de grande porte a restrinjam a 20% da dieta diária, que se traduz em 4,4kg de silagem/animal/dia, ou uma área total de plantio de 187 ha no exemplo citado.

Já para o tipo de silo a ser utilizado, Juliane explica que devem ser levados em consideração, além do volume a ser ensilado, o custo de implantação, a funcionalidade e mesmo a topografia.

Lonas de qualidade são essenciais para uma boa silagem

Para volumes inferiores a 10 t, sugere a adoção dos silos de superfície, que representam uma opção de mais baixo custo. No entanto, adverte que, pela ausência de paredes laterais e maior superfície a ser vedada, existe impossibilidade de uma adequada compactação e eliminação do ar, gerando perdas mais elevadas. Para quantidades maiores, diz que são utilizados os silos do tipo trincheira, mas que, no entanto, exigem terreno em declive de maneira que o recorte do solo permita a entrada de equipamentos. Já os do tipo "silo bag" ou "linguiça" têm sido indicados para propriedades que conservam grande volume de silagem, especialmente de grãos úmidos, pelo elevado custo do equipamento.

MAIOR CUIDADO NO PREPARO

A escolha do tipo de cultura a ensilar é feita levando-se em consideração a adaptação ao clima da região, solo e custo de produção, bem como valor nutritivo, intenção de uso e a própria aptidão do pecuarista.

O engenheiro-agrônomo José Alexandre Agiova da Costa, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande/MS, explica que se há necessidade de uma grande quantidade de massa associada à qualidade, a opção recai sobre a silagem de planta inteira de milho, por exemplo, para uso na recria de bezerros ou preparo de reprodutores. Caso se precise basicamente de volumoso e haja possibilidade de se corrigir facilmente a dieta com concentrados, como nos confinamentos, indica que a silagem de capim é a opção mais econômica. Se a situação for a de simplesmente ter um volumoso para situações emergenciais, indica que se pode utilizar a silagem de cana-de-açúcar.

Tratores ajudam a fazer a compactação

Particularmente, sobre que tipo de milho utilizar, Costa reconhece que não existe um consenso sobre o valor nutricional superior dos milhos classificados como dentados (endosperma macio), determinados por terem uma maior digestibilidade do amido. Na opinião do pesquisador, e de outros de Campo Grande, o importante é que o milho utilizado seja de alta produtividade, para otimizar os recursos e insumos aplicados, que são de alto valor. "No Brasil, as mais produtivas e utilizadas são, ainda, as de milho duro", comenta.

O pesquisador da Embrapa salienta alguns aspectos importantes a serem observados no processo de ensilagem. O primeiro é o ponto de colheita, indicando que, no caso do milho, é quando o grão se encontra no ponto farináceo, enquanto que, no caso do sorgo, esse apresenta grãos de leitoso a farináceo. Já os capins (pastagens) devem estar com 50-60 dias de idade, ou com 24%-26% de matéria seca (MS), e a cana-de-açúcar, que será colhida na época seca, deverá apresentar um teor total de açúcares entre 40% e 50% de MS.

O segundo tópico que chama a atenção é quanto ao tamanho da partícula picada, para que ocorra uma boa compactação, o que limitará a permanência de ar dentro da massa ensilada, criando ambiente anaeróbio para a adequada fermentação. A recomendação geral são fragmentos entre 0,5 cm até 1,5 cm, sendo também aceitos os de 2 cm. Ele enfatiza, justamente, a necessidade de uma boa compactação feita com as rodas do trator. "A largura do silo deve permitir que toda superfície seja compactada e, para isso, ela deve ser de pelo menos 1,5 vez a largura do trator", explica. Além disso, diz que a altura não deve ser inferior a 1,5 m para garantir o bom processo de fermentação.

Para evitar barrigas de ar nas lonas, Felipe Vilela sugere uso de sacos de areia

A lona que irá cobrir o silo precisa ser de preferência com dupla face, com a parte branca voltada para cima, refletindo o calor, e com 200 a 300 micras de espessura. A vedação, como enfatiza Costa, ocorre no menor tempo possível e de forma que não fique ar entre ela e a massa ensilada e não apresente vazamentos para o ambiente. Esta poderá ser recoberta, por exemplo, por terra ou pneus velhos, como sugere.

A qualidade da lona é fator relevante e também destacado pelo zootecnista Rafael Camargo do Amaral, que alerta que as disponíveis no mercado nacional são de espessura diferente daquela informada pelo fabricante, permitindo a passagem do ar que provocaria a oxidação da massa, aumento da temperatura e presença de fungos. Ele sugere o uso das que possuem uma composição diferenciada (polietileno associado a etil vinil álcool), que embora mais caras, afirma, trazem redução de mais de 50% das perdas na camada de até 1 m do silo. Outro fator que Amaral chama a atenção é quanto à boa fragmentação, que deve ocorrer nos grãos do milho e do sorgo para sua boa digestibilidade, embora alerte que as máquinas autopropelidas não conseguem ser efetivas para o sorgo, por seu tamanho diminuto.

Finalmente, José da Costa, pesquisador da Embrapa, faz algumas recomendações relacionadas à inclusão de aditivos no processo de ensilagem, lembrando que cada cultura ou situação exige produtos específicos. No caso dos capins, sugere a adição de 10% a 15% de sólidos que aumentem o teor da matéria seca (MS), como quirera de milho, polpa cítrica peletizada ou caroço de algodão, para que atinjam o ideal entre 30% a 35% de MS. No caso da cana-de-açúcar, diz que é obrigatório o uso de inoculante para evitar a fermentação alcoólica, "senão vai ter muita vaca bêbada por aí", ironiza. Costa explica que o principal benefício dos inoculantes, que são à base de bactérias, está na estabilização da silagem, impedindo a ação de fungos e leveduras que a degradam.

Cimentado construído para abrigar silo trincheira

CONTROLE DE QUALIDADE E USO

No fechamento e vedação dos silos, o engenheiro-agrônomo Felipe Vilela, da Bürgi Consultoria, de Piracicaba/SP, considera que o ideal seria associar dois procedimentos para garantir a qualidade do produto final. Para evitar "barrigas" de ar nas lonas e fechar bem as junções, recomenda utilizar pneus, ou o que diz ser mais fácil e disponível, sacos cheios de areia.

Aliado a isso, recomenda cobrir a lona com bagaço de cana, sobras do capim ensilado ou outro material para evitar a incidência direta do sol e altas temperaturas. "A lona acumula água por dentro e se perde a camada superficial da silagem", adverte. Ele conta que existem produtores que não gostam deste procedimento porque afirmam ser difícil identificar possíveis rupturas na lona, risco que Vilela considera desprezível.

Após a vedação do silo, ocorre um aumento na temperatura da massa, para, posteriormente, a mesma se estabilizar numa condição amena. "Temperatura que se mantém elevada é indicador de que está ocorrendo oxidação, ou seja, que a silagem está exposta ao ar por buracos, lona de má qualidade ou mesmo consumo irregular no painel do silo, o qual permite a certos lugares uma maior exposição ao ar", como indica. Ele explica que o contato da silagem com o oxigênio faz com que micro-organismos aeróbios deteriorem o produto, causando perdas quantitativas e qualitativas.

A ensilagem, como aponta o agrônomo, é um processo de conservação sem a presença de ar e de baixo pH. "Este é um fator que nos diz se o processo foi feito corretamente em aspectos como: colheita no momento ideal, picagem bem feita para facilitar a compactação, tempo e peso de compactação corretos", afirma.

A avaliação do pH pode ser feita, segundo informa, por laboratórios a um baixo custo (R$ 15,00/amostra) ou mesmo através de fitas medidoras de acidez, embora menos precisas. A referência varia em função da MS do material colhido, que, caso esteja por volta 25%-30%, deverá ter pH inferior a 4,2.

Para Osvaldo Neto, a silagem de milho possui maior qualidade nutricional e palatabilidade

Com 21 dias após o fechamento, a silagem já está estabilizada e com possibilidade de uso, mas, por segurança, Vilela indica 25 dias para qualquer das forrageiras. Quanto ao tempo que pode ficar armazenada, lembra que, bem feita e sem problemas na lona, dura dois, três ou mais anos. Para silagens de milho ou sorgo, diz que o uso após dois ou três meses traz a vantagem de apresentar uma maior disponibilidade do amido contido nos grãos.

Para ajuste da dieta, orienta que seja feita a análise bromatológica da composição e que se monitore o teor de matéria seca do produto na propriedade. Ela comenta que existem medidores de unidade que custam perto de R$ 1.200,00 e que valem a pena, pelo correto balanceamento promovido.

Silagem com a coloração mais escura ou apresentando manchas brancas de fungos deve ser desprezada, cortando-se perto de 0,5m do produto e jogando-a fora. Diariamente, indica que se deve retirar fatias de 15 cm a 20 cm, no mínimo, do material ensilado, pois este já teve contato com o ar e, assim, se evitará problemas de deterioração. Na prática, diz que a retirada diária com trator fica em torno de 40 cm e 50 cm.

Para que o oxigênio não adentre além do desejável no silo, o agrônomo afirma ser de grande importância a maneira como o produto é retirado, sem abalar a estrutura do material ensilado. Ele diz que não se deve chegar com o garfo ou a concha do trator fazendo o descarregamento da silagem de baixo para cima, o que favorece a entrada de ar, mas sim de cima para baixo. Outra coisa, é só afastar a lona da parcela que será utilizada, voltando a baixá-la na parte frontal no meio do dia, quando não estiver mais em uso.

Mesmo utilizando uma mesma área de mombaça, por exemplo, Vilela diz que existem diferenças na silagem produzida de primeiro corte para outras. Desta forma, para que os animais não estranhem e ocorra uma grande oscilação no consumo, durante a mudança de silo, diz que se deve fazer a substituição gradativa de um pelo outro. Num confinamento com quatro tratos diários, sugere que eles se alternem até a substituição total.

Felipe Vilela elaborou duas planilhas de custos detalhadas (veja na página 16) para que se tenha uma boa noção das operações envolvidas e os respectivos gastos. Ele destaca a apresentação dos custos também pela energia através dos nutrientes digestivos totais (NDT), que comenta ser o parâmetro mais importante no balanceamento da dieta. Ele explica que a silagem de mombaça tem um custo maior por hectare que o do milho, pois são três cortes, e apesar de possuir menos NDT, "tem um custo menor por quilo de energia na comparação com o milho", salienta.

Ele explica que na ensilagem do milho não considerou a aplicação de inoculante por ser desnecessário, como também ocorre com o sorgo, pois a presença dos grãos fornece boa energia para o processo de fermentação. Já ao capim mombaça foi considerado, embora faça a ressalva que os resultados por vezes oscilem, como as pesquisas têm demonstrado. Também se comenta que existe muito apelo comercial para seu uso.

PREFERÊNCIA PELO CAPIM NO MS

Em Terenos/MS, a Fazenda Sonho Real tem suas atividades centradas na pecuária de corte com a terminação de animais em confinamento há 15 anos. Atualmente, as instalações têm capacidade estática para 36 mil cabeças, que rodadas três vezes ao ano, totalizam a comercialização de 100 mil animais prontos para o abate.

No início, o volumoso utilizado era a cana-de-açúcar, tanto a cortada e fornecida in natura como a ensilada. Contudo, há cinco anos foi adotada a silagem dos capins mombaça e tanzânia. Antônio José de Oliveira, seu proprietário, aprovou a mudança e aponta alguns dos benefícios, como custos menores, maior facilidade de produção, de controle de pragas e corte. Por tonelada, tem obtido o custo total de R$ 70,00 a R$ 80,00.

Na comparação com a ensilagem de milho, aponta outra questão importante, que é a possível ocorrência de veranicos. "Se cultivasse o milho, haveria muita perda na quantidade e qualidade, enquanto que com esses capins eles se recuperam muito bem quando volta a chover e não são afetados na produção", salienta. O pecuarista também destaca a palatabilidade da silagem dos capins e seus bons índices de proteína e minerais. Com a ração que prepara, na qual também entram caroço de algodão e farelo e casca de soja, obtém um ganho de peso médio diário que varia de 1,5 kg a 1,6 kg.

Ele conta que adota silos do tipo superfície pela facilidade de carregamento e descarregamento, que poderá acontecer por qualquer um dos seus lados. A depender do ano, são de 8 até 10 silos com capacidades de 1 mil toneladas até 4 mil toneladas. Como cuidado no local onde estão implantados, conta que distribuiu e incorpora calcário na camada superficial do solo, que, após ser umedecido, forma uma camada resistente que compara ao cimento.

Para a produção da silagem, a fazenda tem 300 ha implantados com cada um dos capins e "que bem cuidados podem durar até um século", afirma Oliveira. Ele realiza dois cortes ao ano da área, um em janeiro e outro em maio, procedendo a adubações caprichadas após cada um deles, com o rendimento médio anual ficando em 45 toneladas/ha.

O corte dos capins é feito entre 25 cm a 30 cm do solo quando estes estão com 1,8 m a 2,2 m de altura e apresentam folhas secas na base. O produtor destaca o cuidado com o tamanho das partículas do capim ensilado, que atingem de 1 cm até 3 cm, no máximo. "Se ultrapassar isso não se consegue uma boa compactação e o trator fica parecendo que está andando por cima de uma espuma de borracha", compara.

Oliveira aplica inoculante específico e, para conseguir uma boa retirada do ar, após a colocação e o fechamento da lona, introduz uma bomba de sucção. Ele conta que este sistema foi desenvolvido em sua fazenda por um técnico e, posteriormente, patenteado.Satisfeito com os resultados, por hora o pecuarista não pensa em mudanças e nem realiza testes para tanto.

BOA QUALIDADE DO MILHO EM GO

A Fazenda São Francisco, em Goiatuba/GO, também aplica a técnica de ensilagem para a produção de volumoso fornecido a confinamento, tanto a de sorgo como a de milho, que alimentam perto de 12 mil cabeças terminadas, anualmente.

O perfil da propriedade, que pertence ao engenheiro-agrônomo e empresário paulista Norberto Lanzara Giangrande Júnior, é bem diversificada nos seus 375 ha. Nela igualmente se cultiva soja, cana-de-açúcar que é entregue para usinas, se produz feno de tifton para a venda e também cria cavalos.

O confinamento iniciou na fazenda em 2007 e, desde então, elegeu algumas culturas como preferenciais, em particular a de milho, "por sua qualidade nutricional e palatabilidade", salienta Osvaldo Pereira de Souza Neto, gerente de agropecuária da S. Francisco. Nas análises bromatológicas que realiza, tem encontrado um teor de PB entre 8% a 9%, e entre 63% e 65% de NDT, enquanto que a silagem de sorgo, não muito atrás, tem revelado 7% de PB e 61% de NDT. Para o balanceamento da dieta utiliza farelo de soja, torta de algodão e núcleo mineral, que garantem um ganho de peso médio diário entre 1,4 kg a 1,5 kg. Os animais são adquiridos em torno dos 24 meses de idade pesando próximo a [email protected] e permanecem no confinamento de 90 até 100 dias.

Para a produção de silagem estão reservados 200 ha, que são distribuídos pelas duas culturas, a depender da conveniência e estratégia. Na sequência da soja, por exemplo, se atrasar muito, ao invés do milho, poderá vir o sorgo na safrinha ou, se for interessante, planta-se metade de cada cultura. A produtividade obtida com o milho tem atingido a média de 50 t/ha, com os custos de produção na safra passada atingindo R$ 68,23/t. Já com o sorgo, colhe-se entre 30 e 40 t/ha, investindo-se R$ 43,82/t.

O gerente conta que procura adotar nos cultivos novas tecnologias, busca sementes de qualidade e capricha no manejo fitossanitário. Com as 4 mil toneladas de esterco do confinamento, produz composto orgânico, do qual uma parte é incorporada ao solo da fazenda e outra, comercializada a terceiros.

Como aspectos importantes para as duas culturas visando à obtenção de um bom resultado final, Souza Neto reforça a necessidade do ponto correto para colheita, com os grãos no estágio farináceo; partículas de tamanho variando de 2 cm a 2,5 cm para uma boa compactação e ingestão dos animais; a compactação caprichada e rápido fechamento.

Na São Francisco, os silos são do tipo trincheira, sendo 3 deles com capacidade de 1,5 mil t e o maior para 3,5 mil t, associando-se a cobertura da lona com bagaço de cana-de-açúcar, pneus velhos e na união das lonas a aplicação de cola. Normalmente, os silos são abertos 60 dias depois pelo início do confinamento, em maio, retirando-se "fatias" com cerca de 3 m, de maneira bem uniforme.

A propriedade, como reconhece o gerente, esta bem automatizada e equipada, não necessitando recorrer a terceiros. Também salienta que, ao longo do tempo, a equipe foi sendo bem treinada e organizada, não tendo do que reclamar. No entanto, reconhece que a falta de qualificação pode ser um problema.

Silagem sob lona protegida com a própria palhada do capim e com sacos de areia para vedação

VANTAGEM DO GRÃO ÚMIDO

Um tipo de silagem diferente começou a se disseminar nos últimos tempos em propriedades pecuárias do País, que é aquela feita utilizando-se unicamente o grão úmido de milho, num processo que também pode ser aplicado para outras culturas. Isto inclui cereais de inverno e sorgo.

O engenheiro-agrônomo Vlamir Leggieri, da Bürgi Consultoria, aponta como benefícios a colheita antecipada do milho, liberando a terra no mínimo 30 dias antes, viabilizando a entrada de outras culturas. Também dispensa, em relação ao grão convencional, gastos com transporte ao armazém e secagem, além de existir redução de perdas por acamamento e pelo ataque de pragas e ratos durante a fase de armazenamento. Seu valor nutricional e digestibilidade, como aponta Leggieri, são superiores ao grão convencional. Considerando o produto com 33% de umidade, este apresenta 11% de PB, 5% de extrato etéreo (EE ou gordura) e 90% de digestibilidade, enquanto que no grão seco, com 13% de umidade, está é de 80%, com 8% de PB e 2,5 % de EE.

Para a realização deste processo com o grão de milho, o agrônomo diz que pode ser utilizado qualquer tipo de silo, sendo que seu enchimento deverá ser feito em camadas. "A compactação é mais fácil, pois a densidade do material é maior", comenta. Ele recomenda que se respeite a retirada mínima diária de uma fatia de 20 cm e que a mistura à ração seja feita diariamente, por sofrer rápida fermentação secundária após confecção.

As recomendações de plantio e os híbridos de milho utilizados são os mesmos que para o grão convencional, sendo a colheita realizada no estágio de maturação fisiológica do grão, por colheitadeira comum, exigindo-se adequar as regulagens da mesma, especialmente para aumento da velocidade do cilindro batedor. Quando fornecido a ruminantes, o grão deverá ter sido quebrado e afirma que não vê necessidade da aplicação de inoculantes.

O engenheiro-agrônomo José Alexandre Agiova da Costa, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, indica a possibilidade de se aumentar a qualidade da silagem de grãos úmidos com a substituição do milho convencional, que tem 3,2% a 3,5% de óleo, por um milho de alto teor , superior a 5,5%. "Com isso se aumenta a energia da silagem", diz.


Aveia rende silagem e cobertura morta no Sul

João Ricardo informa que na região Sul é muito comum a confecção de silagem junto a outras práticas agrícolas

A região Sul do País tem algumas características próprias quanto às forrageiras ensiladas, como aponta o zootecnista João Ricardo Alves Pereira, da Universidade Estadual de Ponta Grossa/PR. Ele diz que é comum sua produção estar associada a outras práticas agrícolas e a seguir um ritmo diferente de fornecimento. Por condições climáticas particulares que permitem bons pastos de inverno em meados do ano, diz que o uso da silagem na região acontece numa fase de transição, quando estes pastos mínguam e o verão ainda não se estabeleceu. Nesta época do ano, ela pode ser também utilizada na terminação em confinamento, para que sejam liberadas terras para a agricultura.

Como cultura de verão a ser ensilada, Pereira conta que predomina com folga a do milho, enquanto que no inverno é a aveia preta, que pode ter um primeiro corte ensilado e a rebrota permanecendo no solo como cobertura morta para culturas de verão como a soja. O uso da aveia branca, com a colheita junto com seus grãos no ponto farináceo também acontece, embora em menor intensidade. Outros cereais de inverno também podem ser utilizados, como o triticale e o centeio, além do azevém. Já o uso dos capins tropicais, como o mombaça e o tanzânia, ficam mais restritos a áreas ao Norte do estado do Paraná .

Como indicação geral, o zootecnista diz que "os pecuaristas necessitam se aprimorar na base das práticas agrícolas para melhorar a produtividade e reduzir os custos da silagem", enfatiza. Como exemplo simples, cita a falta de adubação adequada na aveia e a colheita fora da época, indicando que o momento correto é quando esta apresente pouco mais de 50% em floração.

Essa área do conhecimento voltada à implantação de culturas, manejo de pragas e híbridos é uma das mais pesquisadas e que apresentam evolução, como observa Pereira, e que poderiam ser mais aproveitadas pelos pecuaristas. Ele atribui, por vezes, a ausência de bons resultados quando do uso de inoculantes a uma silagem mal elaborada, além da existência de empresas "de fundo de quintal", que comercializam tais produtos. Este setor de aditivos é outra vertente importante de estudos que o zootecnista destaca na área de ensilagem e que "está apenas engatinhando", admite.