Entrevista

 

Lavoura-pecuária-floresta Não!

Ele é um revolucionário. Primeiro, com a tecnologia de adubação e plantio direto. Depois com o slogan que até hoje está na mente de quem trabalha com pecuária: "Com Manah, adubando dá!". Falamos de Fernando Penteado Cardoso, que, rumo aos 100 anos, surpreende o mercado com um ponto de vista avassalador sobre o sistema agrossilvipastoril.

Adilson Rodrigues - [email protected]

Revista AG - Quando e por que começou a "febre" da integração lavoura-pecuária-floresta?

Fernando Cardoso - A integração da lavoura com a pecuária – ILP, baseada na formação de pastagem entre duas safras de verão, também conhecida por safrinha forrageira, data de muitos anos e é uma tecnologia bem conhecida e de números confiáveis. A introdução de arvoredo no sistema veio há meia dúzia de anos e tornou-se uma febre devido à bem organizada promoção financiada pela Embrapa e por outros órgãos intimamente ligados ao Governo.

Revista AG - O senhor é contra esse sistema?

Fernando Cardoso - Logo que se iniciou a mencionada promoção, divulguei um artigo historiando o sistema e expondo meu ponto de vista. Minhas ressalvas se prendem ao fato notório de que a sombra e a competição limitam a produção, inclusive, de massa verde palatável para os bovinos.

Revista AG - Isso pelo fato de que ainda faltam estudos que comprovem o sucesso do sistema?

Fernando Cardoso - Faltam aferições de curto e longo prazo, as quais deviam ser conhecidas desde quando o grupo Votorantim se interessou pelo assunto alguns anos atrás. Os interessados tiveram, na ocasião, oportunidade de bem conhecer o assunto. Os criadores não adotaram a tecnologia amplamente divulgada e o projeto foi descontinuado.

Revista AG - O maior problema seria quanto à qualidade da massa verde que é produzida à sombra? Quais são as características nutritivas dessas gramíneas?

Fernando Cardoso - Não acredito que seja um problema de qualidade. Os criadores bons e observadores sabem que, durante o verão, o gado dá preferência ao pasto a pleno sol e, no período a seca, consome mais o pasto à sombra, que, aliás, se mantém verde por mais tempo.

Revista AG - Entretanto, os ganhos com a venda das árvores não compensariam as perdas dessa pastagem menos nutritiva?

Fernando Cardoso - Se o principal ganho for de árvores, então, seria mais lucrativo praticar uma silvicultura tecnificada, auferindo o lucro da silvicultura.

Revista AG - Aquela teoria de que a sombra ajuda na fertilidade do rebanho e traria melhor retorno econômico é conversa para boi dormir?

Fernando Cardoso - Desconheço essa teoria e meu senso comum aponta para grande dúvida. Não acredito que os zebuínos, os milhões de nelores, tenham mais libido à sombra e que esta proporcione uma gestação diferenciada. Se existe tal teoria, ela está longe de ser comprovada.

Revista AG - Nos anos 1990, diversos criadores na região de Dourados/MS iniciaram o plantio de renques de leucaena em 50% da área de piquetes em rotação. Parece que a história teve apenas um começo feliz. Por quê?

Fernando Cardoso - Trata-se de outro assunto, pois a leucaena é forragem extremamente apetitosa e nutritiva, por ser uma leguminosa cuja proteína é comparável à da alfafa. O sistema foi adotado por diversos criadores na mencionada região. Sob aspecto forrageiro, a leucaena, em rotação, proporcionou ganho de peso acima de 1 kg/dia, mas o manejo era complexo, levando os criadores e abandoná-lo.

Revista AG - Teria exemplos importantes de insucesso na ILPF?

Fernando Cardoso - Ouve-se falar que em Paragominas/PA houve tentativas de pasto sombreado, mas o método não resultou em uma rotina bem aceita pelos criadores.

Revista AG - Da outra ponta, reconhece algum caso que possa merecer crédito no futuro?

Fernando Cardoso - Tentamos café sombreado, que predomina nos países chuvosos, em que a maturação é progressiva e demorada. Mesmo lá há forte corrente favorável à lavoura a pleno sol. O mesmo acontece com o cacau. Desconheço a prática de pasto sombreado em grande escala, com exceção das áreas com árvores esparsas, aguardando ganho de diâmetro requerido pelas serrarias. Neste caso, a pastagem semissombreada pode ser economicamente viável.

Revista AG - Para acabar com o impasse, o que falta para o sistema agrossilvipastoril ganhar confiança é calcular o ganho de peso vivo (GPV) por hectare/ano no pasto sombreado?

Fernando Cardoso - Não há impasse entre os criadores limitados a observações em experimentos. No meio técnico, dentro em breve, se convencerão de que é melhor ter pasto e floresta em separado, superando problemas de manejo, e evitando a má vontade e as objeções dos vaqueiros. Qualquer cálculo do valor do ganho de peso por hectare tem de ser adicionado do valor da comercialização dos fustes e do lenho.

Revista AG - Pelo que entendi, os ganhos de suas safras de cereais no verão mais uma de forragem no mesmo ano agrícola ainda são qualidades insuperáveis da integração lavoura-pecuária em relação à inclusão da floresta. O senhor teria alguns números para mostrar o retorno econômico da ILP?

Fernando Cardoso - Alguns projetos financiados pela Fundação Agrisus nas condições climáticas do Noroeste do Paraná mostraram que é possível obter 2.000 litros/ha de leite ou 300 kg/ha de peso vivo correspondente a cerca de dez arrobas de carcaça, durante 100/120 dias de pastoreio no intervalo de duas safras de verão, em pastagem mista de braquiária/tanzânia formada após soja. O sistema está bem comprovado e reserva 30 dias de recuperação da gramínea para dessecação com cerca de 4.000kg/ha de massa seca no plantio direto subsequente. Esses valores podem variar em função das chuvas, da temperatura e da adubação da gramínea.

Revista AG - Nem a integração com árvores frutíferas mais baixas escapa à crítica?

Fernando Cardoso - Só se as frutíferas tiverem folhas e frutos pouco palatáveis para os bovinos. É muito difícil conciliar fruticultura com pastoreio simultâneo. Volto a preferir fruticultura e pastagem separadas.

Revista AG - Então, a conclusão é de que "lavoura é bom", "pasto é bom", "lavoura mais pasto é ótimo" e "lavoura mais pasto e floresta é ruim"?

Fernando Cardoso - Sim, lavoura mais pasto é bom no caso de sucessão: lavoura no verão e pasto no intervalo, o que também é bom. Não há competição das árvores nem uma redução da insolação causada pelo sombreamento, e isso sim pode ser ruim.

Revista AG - Na sua opinião, os recursos financeiros direcionados, atualmente, à produção agrossilvipastoril são perdidos?

Fernando Cardoso - Não diria perdidos, pois já se apregoa a receita dos fustes vendidos ou por vender. Todavia, a economicidade dos pastos sombreados está para ser comprovada. No caso do plantio direto é diferente. A lavoura de cereais é descontinuada após a formação do pasto.

Revista AG - Muito se divulga sobre a combinação entre milho e braquiária, estaria aí o caminho da produção animal?

Fernando Cardoso - A braquiária é semeada em consorciação com o milho para pastoreio posterior à colheita do cereal. Outras vezes o milho é utilizado para silagem, o que proporciona um pastoreio antecipado. As variáveis são inúmeras, inclusive, com a aplicação do nitrogênio na braquiária logo após a colheita do milho, para aumento do ganho de peso por hectare. A ILP pós-milho de verão ou de segunda planta (safrinha) deveria ser sempre consorciada com braquiária, seja para pastoreio ou para assegurar um volume adequado de massa seca para proteção do solo sob plantio direto.

Revista AG - Algo mais que gostaria de ressaltar?

Fernando Cardoso - É preciso ter em mente que os animais são apenas os transformadores de forragem em alimento para o homem, seja leite ou carne. Em sua base e fundamento, a pecuária é uma lavoura de forragem e grão a ser transformados em alimento. Animais com fome pouco ou nada têm a transformar.