Caprinovinocultura

 

Gestantes bem nutridas

Alimentar corretamente as fêmeas durante a prenhez pode ajudar muito a garantir a saúde da mãe e dos cordeiros

Denise Saueressig
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A nutrição é um dos princípios básicos para o sucesso de qualquer criação, afinal, um rebanho bem alimentado tem mais chances de se manter saudável e de incrementar a rentabilidade do produtor. Algumas categorias de animais têm exigências diferenciadas que requerem uma maior atenção, como é o caso das ovelhas gestantes.

O período gestacional dos ovinos tem duração de 150 dias e, do ponto de vista nutricional, pode ser dividido em duas fases bastante distintas, explica o zootecnista Diego Galvani, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos. "Nos primeiros 90-100 dias, a nutrição pode ser feita admitindo- se o nível de mantença, uma vez que os tecidos fetais, uterinos e mamários pouco se desenvolverão. Este nível de alimentação pode ser facilmente obtido se os animais estão em pastagem nativa ou cultivada, ou pelo fornecimento de pequena quantidade de forragem verde ou conservada", detalha.

Por volta da décima semana de gestação, uma pequena elevação nas exigências dos animais começa a ser observada e, nesse caso, um pequeno incremento da oferta de nutrientes pode ser necessário, sobretudo, para animais com gestação dupla. "Afora esses aspectos, na fase inicial da gestação, uma maior importância deve ser dada à nutrição mineral do rebanho, sobretudo no tocante aos elementos fósforo, cobre, iodo, manganês, molibdênio, selênio e zinco, diretamente relacionados ao subdesenvolvimento e à má formação fetal", acrescenta Galvani.

O zootecnista Mauro Sartori Bueno, do Instituto de Zootecnia (IZ) da Secretaria de Agricultura de São Paulo, também sugere uma alimentação diferenciada no terço final da gestação. "O ideal é que a ovelha receba uma dieta com 12-13% de proteína bruta, 60% de NDT (nutrientes digestíveis totais), 0,4% de cálcio e 0,3% de fósforo na matéria seca da dieta. Essa exigência, nesse período, pode ser atendida com pastagem de boa qualidade, com boa disponibilidade de massa de forragem, com grande quantidade de folhas e partes de melhor valor nutritivo. Ovelhas em pastagem mais pobres devem ser suplementadas com volumosos de boa qualidade, como silagem de milho, feno de boa qualidade e/ou concentrado à base de cereais (milho, sorgo, arroz e outros), para garantir aporte adequado de energia e proteína", recomenda.

É importante que o criador preste atenção ao aspecto nutricional do rebanho, que pode ser detalhado a partir da avaliação da condição corporal dos animais, prática simples e que deve ser incorporada à rotina da propriedade. O exame consiste na palpação da região lombar, com o objetivo de verificar o grau de deposição de gordura subcutânea na região, classificando os animais em uma escala que varia de 1,0 (o animal extremamente magro) a 5,0 (animal extremamente gordo). "Animais com baixo estado de condição corporal podem ser mantidos em lotes separados e receber alimentação especial", observa Galvani. Em média, as fêmeas devem ser mantidas com escore de condição corporal variando entre 2,75 e 3,25.

PREVENÇÃO DE PROBLEMAS

Falhas na nutrição, sobretudo no terço final da gestação, podem ser as causas de uma série de problemas sanitários, tanto para a mãe quanto para os cordeiros. A nutrição inadequada da fêmea vai resultar em sub- Caprinovinocultura desenvolvimento fetal, com redução do peso ao nascer dos cordeiros, e elevação dos índices de mortalidade. "Além disso, o mau desenvolvimento da glândula mamária resultará em baixa produção de leite e, consequentemente, menor ganho de peso dos cordeiros após o nascimento", destaca Galvani, da Embrapa.

Pesquisador Diego Galvani, da Embrapa: nutrição inadequada da fêmea vai resultar em subdesenvolvimento fetal, com redução do peso ao nascer dos cordeiros, e elevação dos índices de mortalidade

Além de nascerem com menor peso, cordeiros oriundos de fêmeas mal nutridas apresentam crescimento retardado também no período pósnatal. Segundo o pesquisador, estudos vêm demonstrando que, mesmo recebendo alimentação à vontade, esses cordeiros consomem menos leite, ganham menos peso e apresentam peso ao desmame significativamente menor que cordeiros filhos de ovelhas bem nutridas. "Como consequência, esses animais levam mais tempo para atingir o peso de abate, consumindo maior quantidade de alimento e, portanto, onerando os custos de produção. A alimentação privativa dos cordeiros, conhecida como creep feeding, pode ser uma boa alternativa para melhorar o desempenho de cordeiros filhos de ovelhas mal nutridas durante a gestação", completa.

Em regiões frias e úmidas, como o Sul do País, essa questão é ainda mais crítica. "Um cordeiro fraco, com baixo peso ao nascer, terá dificuldade em se levantar e alcançar os tetos para a primeira mamada, o que pode levar à morte por inanição e hipotermia. Ovelhas magras à parição também têm menor habilidade materna, o que leva a aumento de mortalidade dos recém-nascidos", acrescenta o pesquisador Mauro Bueno, do IZ.

Fêmeas mal alimentadas também podem sofrer de toxemia da gestação, que consiste num distúrbio metabólico devido ao excesso de corpos cetônicos no organismo animal. O zootecnista do IZ explica que os corpos cetônicos são originários da queima da gordura corporal das ovelhas para atender a demanda energética de crescimento do feto. "O problema acomete, principalmente, as fêmeas com fetos múltiplos, no final da gestação, por consumo inadequado de energia. No entanto, também pode afetar ovelhas excessivamente gordas, geralmente animais de elite criados confinados, com excesso de alimento energético oriundo da ração concentrada", cita.

A toxemia deve ser evitada porque pode até levar o animal a óbito. Entre os sinais da doença, estão a prostração, sintomas nervosos (falta de coordenação, andar em círculo ou cambaleante), olhar vago e decúbito lateral.