Leite

 

CETOSE

Doença ocorre no período de transição das vacas de produção

Emerson Alvarenga*

Muitas propriedades realizam apenas o monitoramento de ocorrências clínicas das enfermidades e intervenção curativa, enquanto algumas fazendas já praticam o acompanhamento nutricional e pensam no conforto animal, ação esta de grande avanço da atividade leiteira. De maneira crescente, outras propriedades, ainda mais avançadas, buscam o contínuo monitoramento dos animais, gerenciando a sanidade e seu impacto produtivo e econômico.

Entre as enfermidades do período de transição, as doenças metabólicas, ocasionadas pelo desequilíbrio entre os nutrientes que ingressam no organismo e as necessidades de mantença e produção, possuem significativo impacto na produtividade do rebanho. As enfermidades que ocorrem nesse período são conhecidas como "doenças de produção" ou "complexo de doenças do periparto". Vale ressaltar que devido a algumas inter-relações e complexidades, uma condição patológica pode determinar ou favorecer a ocorrência de outra. Exemplo são os distúrbios metabólicos como hipocalcemia e Cetose, que podem contribuir para menor resposta imunológica e aparecimento de doenças associadas a estes desequilíbrios, como deslocamento de abomaso, retenção de placenta e até mastite.

A Cetose é uma doença metabólica de considerável interesse econômico por causa da alta prevalência e do impacto na produtividade dos rebanhos. Está intimamente relacionada com o metabolismo energético e ocorre quando há excesso na produção e na concentração de corpos cetônicos circulantes no organismo, em função da maior demanda energética da vaca para produção de leite.

Sua maior frequência é na segunda semana após o parto, quando acontece maior mobilização de gordura corporal. Os corpos cetônicos são fonte energética para os tecidos que possam oxidá-los, como os músculos esqueléticos, coração, trato gastrointestinal, rins e glândula mamária. Essa última utiliza grande quantidade de glicose disponível no sangue e os corpos cetônicos são importantes fontes de energia e precursores da síntese de ácidos graxos no úbere. A doença pode manifestar de forma clínica ou subclínica.

Na cetose clínica, há uma rápida perda de escore corporal, queda da produção leite, fezes secas, diminuição de consumo, falta de apetite, prostração, odor de cetona no ar expirado, alta concentração de corpos cetônicos nos fluídos corporais e, ocasionalmente, pode evoluir apresentando sinais nervosos.

Já a cetose subclínica caracterizase pelo excesso dos níveis circulantes de corpos cetônicos nos fluídos orgânicos (leite, soro e urina) e a não apresentação de sinais clínicos. Uma concentração sérica superior a 1,2 mmol/L de beta hidroxibutirato é considerada cetose subclínica, provocando impacto na saúde e na produtividade do animal.

Os relatos de prevalência de cetose subclínica variam de 6,9% a 34% no primeiro mês de lactação e seu pico ocorre nas duas primeiras semanas após o parto. A incidência da variedade subclínica pode chegar até 80% em alguns rebanhos, sendo muito maior do que os 2% a 15% da cetose clínica.

O beta hidroxibutirato (BHBA) é o principal corpo cetônico circulante nos ruminantes e possui maior estabilidade na amostra em relação ao acetoacetato e à acetona. Sua mensuração contribui para monitorar o balanço energético negativo (BEN) e identificar vacas que apresentem cetose subclínica.

A avaliação do risco de ocorrência de doenças, tanto individual quanto de rebanho, pode ser feita através do limiar de concentração BHBA. Recomenda- se que as amostras sejam obtidas sempre no mesmo horário, pois as concentrações de ácidos graxos não esterificados (AGNEs) e BHBA variam de acordo com o tempo de alimentação, sendo os valores mais altos de AGNEs encontrados alguns momentos antes da primeira alimentação. Assim, o momento para coleta é 5 a 6 horas após a primeira alimentação.

O diagnóstico de cetose consiste nas informações do histórico do animal, exame clínico e exames ou testes complementares que avaliam a presença de corpos cetônicos na urina, no leite ou no sangue. Os testes de urina e leite são rápidos e realizados ao lado da vaca. Porém, são semiquantitativos. A concentração de corpos cetônicos é estimada pela cor, e é preciso consultar as instruções do fabricante. Na urina, a medição é feita com fitas que detectam o acetoacetato e a acetona, enquanto, no leite, tabletes reagem com BHBA, alterando a coloração em concentrações acima de 1,00 mmol/L.

Quando comparados aos de urina, os testes de leite são menos sensíveis e podem alterar a porcentagem de vacas com cetose do rebanho.

No entanto, o teste laboratorial é preciso e confiável, sendo considerado o teste padrão para diagnóstico da cetose subclínica. É feito através da medição de beta hidroxibutirato no soro ou plasma. No entanto, embora seja um excelente método, não é uma ferramenta utilizada com frequência ou como rotina pelas propriedades leiteiras ou por médicos-veterinários atuantes na área. A exigência de estrutura laboratorial, o cuidado com o manuseio da amostra, os materiais e equipamentos necessários, a logística e o tempo para emissão de resultado são fatores que contribuem para o desinteresse deste recurso.

Então, enfatizando a importância significativa do período de transição e em especial da cetose para a saúde e produtividade no contexto atual da pecuária de leite, ferramentas e rotinas de monitoramento são de extrema importância. Sendo assim, tomar medidas precocemente, gerenciar e monitorar a enfermidade são condutas fundamentais a fim de minimizar o impacto produtivo e econômico na fazenda.

DIAGNOSTICANDO A DOENÇA

Práticas de manejo e monitoramento de vacas durante o período de transição, visando ao controle de enfermidades, devem observar, registrar e avaliar a disponibilidade de alimento e água, o consumo do animal, a condição corporal ou o escore corporal, escore de fezes, escore de locomoção (cascos) e, ainda, as condições de ambiente e instalações em relação ao conforto animal. É importante começar pelo básico, busque amenizar o estresse físico e ambiental, ofereça alimento e água frescos e de fácil acesso, evite superlotação e trabalhe o agrupamento dos animais.

Medidor portátil permite um diagnóstico rápido e confiável

Atualmente, aparelhos portáteis de fácil manuseio e praticidade estão bastante difundidos na medicina humana e são utilizados para diagnóstico e monitoramento de glicose e corpos cetônicos. Os testes em humanos demostraram bons resultados de concordância entre o aparelho Optium Xceed e os métodos laboratoriais. O aparelho pode ser utilizado com amostra de sangue total venoso ou de capilar (ponta do dedo) sem anticoagulante. Segundo o fabricante, Abbott Laboratórios, amostras de sangue total venoso contendo heparina ou EDTA também podem ser utilizadas em até 30 minutos após a colheita. O medidor foi desenvolvido para o uso em humanos, mas pode ser utilizado com sangue de bovinos sem nenhuma modificação.

Emerson Alvarenga explica que a Cetose ocorre nas formas clínica e subclínica

O primeiro relato da utilização de aparelho portátil de uso humano na mensuração de beta hidroxibutirato em sangue de bovinos foi realizado por Endocott et al. (2004), embora nenhuma informação de precisão do aparelho foi descrita. Jeppesen et al. (2006) realizou o primeiro estudo utilizando o aparelho eletrônico em vacas de aptidão leiteira para monitoramento de cetose subclínica e encontrou correlação de 0,99 com as concentrações de BHBA determinada pela espectrofotometria (padrão).

O teste requer que uma gota de sangue seja colocada em uma tira reagente de beta cetona (como chamado pelo fabricante), que é inserida em um medidor e determinará a concentração sanguínea de BHBA em sangue total. Ocorre uma reação eletroquímica entre o beta hidroxibutirato e o reagente da tira do aparelho, que foram projetadas para realizar medidas quantitativas de beta hidroxibutirato. O tamanho da corrente é proporcional às concentrações presente na amostra em mmol/L e o resultado é exibido no monitor do aparelho em até 10 segundos, na faixa de medição de 0 a 8,0 mmol/ dl ( Iwersen, 2009; Oetzel, 2010; Voyvoda et al., 2010).

Alguns trabalhos internacionais utilizaram este aparelho portátil como método de monitoramento para cetose subclínica em bovinos (Oetzel e McGuirk, 2007; Burke et al., 2008). Analisando estes trabalhos e combinando-os, Oetzel e McGuirk (2009) encontraram uma sensibilidade de 91% e sensibilidade de 94% para o diagnóstico de cetose. Foram ainda comparados os resultados com o método padrão e encontrado alto coeficiente de determinação R2 = 0,94.

Nos Estados Unidos, o medidor pode ser comprado em farmácias (U$ 10,00 a U$ 15,00) e as tiras reagentes nas lojas de suprimentos veterinários (cerca de U$ 1,30 por tira). No Brasil o medidor (R$ 89,00 a R$ 98,00) e as tiras (R$ 2,70 a R$ 3,80) são encontrados em farmácias e lojas de materiais hospitalares.

O diagnóstico precoce de cetose subclínica permite uma intervenção e tratamento mais cedo da enfermidade, diminuindo seu impacto no sistema de produção. Além disso, os resultados dos testes podem ser utilizados numa base de rebanho para determinar o nível de cetose subclínica e indicar a necessidade de novas investigações e gerenciamento de melhorias. A detecção precoce e o pronto tratamento por via oral com propilenoglicol reduzem significativamente as perdas associados com cetose (McArt et al., 2011; McArt et al., 2012).

A utilização deste aparelho portátil permite avaliar e monitorar a cetose subclínica, com resultados confiáveis e rápidos, altamente sensível e específico, de fácil utilização e razoavelmente econômico, sendo de grande valia para a rotina de rebanhos.

*Emerson é médico-veterinário especializado em Produção de Ruminantes e membro da Rehagro [email protected]r