Sobrevoando

 

Peso

Toninho Carancho
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Na década de 90, residi nos Estados Unidos por alguns meses e tive a oportunidade de ver algumas coisas bem interessantes. Morei numa fazenda texana, onde criavam gado de cria da raça Brangus. Tinham mais ou menos 500 vacas em produção. Nasceram 400 bezerros, o que me pareceu um bom índice. O capataz com quem trabalhei gostou muito da minha chegada, ficou bem mais "leve" pra ele. Mas o que quero comentar nesta coluna foi uma experiência que tive dias antes de chegar lá.

Eu estava estudando inglês em Oklahoma (Sooner State), estado que fica logo acima do Texas (Lone Star State), e o gerente da fazenda, junto com a sua esposa, veio me pegar na escola e fomos juntos fazer um leilão de liquidação de Brangus de outro criador. Lá fui eu ajudar a dirigir o carro. O leilão era em Missouri e a estrada, longa. Por sorte, tinha feito minha carteira de motorista norteamericana há poucos dias e estava bem treinado. Paramos para dormir no meio do caminho, quando nos juntamos ao leiloeiro John Mc Night. Cara bacana, de bom papo (no início entendia a metade do que ele falava, mas, depois de um tempo, quase tudo).

Quando chegamos ao local do leilão, em Moberly, Missouri, vi que era um local de venda de gado comercial e que tinham muitas cabeças para serem organizadas nos bretes. Eram mais de 1.000 cabeças, sendo grande parte de vacas com bezerro ao pé, que estavam, obviamente, todos misturados. O jeito era trabalhar o mais rápido possível, já que o leilão começaria no dia seguinte, pela manhã. Não vou dizer que arregaçamos as mangas, pois estava uns 5 graus abaixo de zero e caindo uma neve fina. Fazíamos uns apartes durante uma meia hora e corríamos para tomar um café quente. E assim foi o dia todo. Por sorte o local escolhido era feito para isso.

Muitos bretes, que se ligavam uns aos outros e também aos corredores. Afunilavam possibilitando apartes cada vez mais seletivos. Também os brincos das vacas e dos bezerros nos ajudaram muito. Tinham o mesmo número. Imaginem um leilão com 1.000 lotes, vendidos um por um! E foi o que aconteceu. Iniciaram as vendas pela manhã, pelas 10 horas, e fomos o dia inteiro fazendo vendas, com uma agilidade fantástica, menos de 1 minuto por animal. Toda a venda foi muito bem planejada, os compradores com placas numeradas simplesmente erguiam-nas em alta velocidade e quando o leiloeiro terminava de arrematar um lote, outro já estava em pista. Todos os compradores devidamente cadastrados, bem acomodados em cadeiras estofadas e muito confortáveis, comida e bebida à vontade. Realmente sensacional.

Mas o que me fez escrever todo o texto acima foi um detalhe que achei muito interessante. No último brete, antes do gado entrar na pista de leilão, havia uma balança com enorme display eletrônico, onde o público podia ver o peso exato do gado. Como se tratava de gado de raça, estava desligado, mas nos remates regulares, de gado comercial, a balança tem papel fundamental. Nos Estados Unidos, o comprador de gado comercial sabe exatamente o peso do gado que está comprando e vendendo. Já no Brasil a regra é outra. Normalmente, não temos o peso do gado, muito menos uma balança mostrando o peso exato, daquele momento. Assim, o comprador tem de trabalhar com duas incógnitas: o peso dos animais que está comprando e quanto pode valorizar este peso. É muito mais difícil. E a tendência do comprador é achar que o gado pesa mais do que realmente pesa. Talvez seja exatamente por isso que não usamos este sistema de balanças por aqui, lei de Gerson. Acho que está na hora de mudarmos esta situação.