Do Pasto ao Prato

 

SHOWS: Denver, Expointer ou ExpoZebu?

Fernando Velloso é médico-veterinário e sócio-proprietário da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha – www.assessoriaagropecuaria.com.br –

Neste janeiro aproveitei um misto de viagem de férias e trabalho no Colorado (EUA) para conhecer a famosa Exposição de Denver (National Western Stock Show). Na condição de técnico que trabalha com a raça Angus, faltava-me riscar da lista de obrigações profissionais conhecer Denver com os próprios olhos, para tirar minhas conclusões.

Pois bem, Denver é uma grande exposição, como esperado, e tem nos Estados Unidos a mesma importância que damos para a Expointer (no Sul) ou para a ExpoZebu (no resto do Brasil). Por ocorrer em período muito frio (com neve), praticamente todo o evento é indoor e somente a área de animais em grupos (car loads ou pen bulls) ocorre na área externa, em instalações de um antigo local de leilões de gado, similar as nossas mostras de "rústicos" no Rio Grande do Sul. Tentarei trazer algumas das minhas percepções de diferenças de Denver em relação as nossas maiores exposições.

Denver é um das principais exposições do mundo

Partindo da motivação para expor animais, já encontro um diferencial importante: em Denver, a grande maioria dos expositores se faz presente em função da família, em apoio aos jovens e pela "função social" da exposição, pois este é um evento que permite aos produtores socializar, ou seja, se encontrarem, viajarem e também competirem. Pela grande participação de jovens, concluí que a missão de envolver as novas gerações na pecuária ainda é a pedra fundamental das exposições nos EUA. Os Juniors Shows são muito fortes e somente podem apresentar animais expositores e apresentadores com menos de 21 anos. Em nossas exposições, a maioria dos apresentadores são funcionários das fazendas (tratadores) e não tenho dúvida em afirmar que a participação de filhos de produtores é mínima. Percebe-se, assim, uma diferença muito grande entre as nossas exposições e as norte-americanas: o perfil do participante. No nosso caso, os expositores são fazendeiros e muitas vezes empresários iniciando em pecuária, porém, o envolvimento familiar é baixo e a função de cuidar e apresentar os animais é quase sempre atribuição de um funcionário. Pude acompanhar os julgamentos das raças Angus e Hereford (as mais representativas na NWSS) e me chamou atenção a grande presença de plateia, com certeza com mais pessoas na assistência do que gado sendo exposto, em julgamentos com mais de 400 animais em cada raça. Mesmo nos maiores eventos do Brasil, o mais usual é mais gado do que gente nos julgamentos e este indicador deve nos fazer repensar nossas exposições.

No tocante ao preparo dos animais, podemos dizer que rompemos com uma tradição e fizemos muito bem. A Associação Brasileira de Angus, faz alguns anos, tomou a corajosa decisão de expor somente animais tosados e, aparentemente, algumas outras raças seguiram o mesmo caminho. Nos EUA, os animais são apresentados com muito pelo (mesmo para uma condição de inverno) e é dada muitas vezes mais atenção ao preparo, penteado, tipo de toso, do que a qualidade do próprio animal. De outra parte, muitas deficiências da conformação dos animais são "corrigidas" com o preparo do pelo e, assim, entramos em um jogo de esconde aqui e aumenta ali. Até no ponto de vista da genética direcionam-se algumas distorções, pois se tornam mais populares nos shows os touros que produzem animais com mais pelo e esta característica pode ser um freio à produção em nível de campo. O tema de ter abundante pelo é tão relevante que se desenvolveu um ramo de exposições denomidado Club Calf, onde os animais com mais pelo são os mais buscados, independente de raça. Ponto para nós, pois avançamos neste item para uma situação que simplifica a participação em exposições e valoriza animais de verdadeira melhor conformação.

Uma característica marcante de Denver é o maior volume de pessoas em comparação ao gado

A disponibilidade de informações em relação aos animais e aos resultados dos julgamentos foi algo que me surpreendeu positivamente, pois notei algo que chamo de um grande "esforço on line", pois praticamente todas as informações estão disponíveis a sendo atualizadas a cada momento. Qualquer pessoa pode acessar com facilidade os dados dos animais (peso, DEPs, genealogias, etc). Em tempo real, são atualizadas as informações dos julgamentos, dos leilões e de tudo mais que ocorre no show. Na plateia dos julgamentos, a atenção era dividida entre os movimentos na pista e as consultas nos smartphones e tablets sobre os animais participantes. A organização do evento estimula esta situação e municia os presentes com muita informação. Notei este serviço como um diferencial em relação às mostras brasileiras e como uma área que podemos trabalhar e melhorar muito.

A conexão entre a genética apresentada nas pistas de Denver e a usada pelo produtor comercial americano é muito baixa ou quase zero. Indagando diversos expositores e profissionais de centrais de inseminação sobre a relação entre os campeões e a genética usada no campo, ouvi sempre a mesma resposta: não há correlação; são atividades diferentes, nas quais se buscam coisas diferentes. Pois bem, creio que no Brasil estamos rumando no mesmo sentido, porém, ainda são poucos os que admitem esta situação.

Não sou um grande entusiasta ou fanático por exposições, todavia entendo que elas têm a sua função e podem ser ou tornassem ótimas oportunidades para novos negócios e para desenvolvimento do setor de genética. Nos resta, agora, usar os bons exemplos pelo mundo afora e trabalhar para tornar o show um verdadeiro espetáculo para todos os envolvidos.