O Confinador

 

CONFINAMENTO DE PRECISÃO

Bruno de Jesus Andrade*

O termo precisão se refere ao grau de variação de resultados em uma medição, ou seja, quantas vezes atingimos aquele valor ou objetivo. Em engenharia é um termo muito utilizado para sistemas de alta complexidade, que utilizam máquinas mais precisas e controles computadorizados. Na agricultura, é um conjunto de técnicas e de métodos utilizados para aperfeiçoar o manejo das plantações e o uso de insumos, com o propósito de atingir melhor eficiência econômica. Na pecuária não é diferente e nem é um conceito novo, porém, é praticado faz pouco tempo e por apenas uma parcela dos pecuaristas.

A pecuária de precisão envolve diversas técnicas conhecidas, por exemplo: inseminação artificial, IATF, manejo racional, suplementação mineral, adubação de pastagens e o sistema de confinamento. Além disso, também podemos incluir as tecnologias (aditivos alimentares, maquinários e implementos) e os softwares que permitem um sistema de gerenciamento que quantifica e qualifica a produção na fazenda.

Especificamente, o sistema de produção em confinamento pode ser encarado como um passo para atingir essa pecuária de precisão. Entretanto, somente sua realização, sem os critérios adequados, pode tornar todo o modo de produção ineficiente. A ferramenta não deve ser mais importante do que o seu correto manuseio. Assim, hoje observamos inúmeros pecuaristas partindo para uma intensificação sem a elaboração de um planejamento, treinamento correto da mão de obra e tendo resultados péssimos. Por fim, deprecia e rejeita o uso da tecnologia, como uma justificativa para ineficiência.

Nesse sentido, o confinamento bem conduzido poderá gerar resultados muito interessantes ao produtor. A tabela ao lado mostra uma série de resultados levantados em propriedades rurais que realizam a terminação de gado em confinamento, alguns bons resultados, outros não, mas, em muitos casos, adaptados à realidade da propriedade entrevistada.

Fica claro que os resultados técnicos não determinam, exclusivamente, a viabilidade econômica do sistema, entretanto, são parâmetros que devem ser utilizados para a avaliação da eficiência produtiva na propriedade.

Controle da rastreabilidade e tratamentos sanitários realizados com ajuda de um sistema informatizado em um curral de manejo

Da mesma forma, os sistemas de gerenciamento e controles utilizados nas propriedades nos mostram somente os resultados da aplicação das matériasprimas e os procedimentos executados. Se os dados coletados são bons ou ruins, isso ainda vai depender do operador do sistema e do funcionário encarregado pela tarefa.

RECURSOS DISPONÍVEIS

À disposição das propriedades rurais que terminam bovinos em confinamento, existe uma série de tecnologias (em forma de produtos e maquinários), técnicas de produção e ferramentas para gestão que aumentam a confiabilidade dos resultados que são estimados no planejamento anual da fazenda. Atualmente, falamos de fornecimento automatizado para os animais, inclusão de aditivos nutricionais para melhora do rendimento de carcaça dos bovinos e da conversão alimentar nos animais, softwares de gestão, programas de maior acurácia para formulação da dieta animal e conceitos sobre nutrição e formulação de dietas mais consistentes.

Para Bruno Andrade, é possível melhorar muita coisa apenas aplicando conhecimento em pecuária de corte

busca por uma precisão maior nos resultados da fazenda é uma razão pela qual se investe em troncos de contenção hidráulicos, construção de currais de manejo antiestresse, uso de misturadores de ração, fábrica de ração na propriedade, sistema de irrigação dos currais de alojamento, escritório com computadores, internet, rádio e telefone. Uma observação interessante é que quase todas essas tecnologias dependem de algo básico na pecuária, a balança, muitas vezes negligenciada pelo uso de maus aparelhos ou sem calibragem adequada. Quase tudo é comprado ou vendido na propriedade pelo seu peso. Não erre nisso!

PRECISÃO COMEÇA NO CONTROLE

Porém, antes de investir pesado no confinamento para compra de maquinários e produtos, é possível melhorar muita coisa apenas aplicando o conhecimento existente sobre pecuária de corte, como formação de lotes, raças, cruzamentos, rotina de manejo, tratamentos sanitários, bem-estar animal e manejo racional. Além disso, a formação e a capacitação da equipe de colaboradores para trabalhar no confinamento são fundamentais. Um maquinário, por mais caro, tecnológico, preciso e confortável que seja, ainda será um peso de papel se operado por um profissional sem treinamento.

Um novo conceito que vem sendo aplicado em alguns confinamentos é o uso da estatística para a interpretação dos resultados técnicos e econômicos da propriedade, bem como no auxílio do planejamento das próximas safras. Dessa forma, podemos responder quais variáveis influenciam o ganho de carcaça, se existe uma categoria animal que pode representar resultado melhor que outra, qual a idade, raça, faixa de peso e até o melhor fornecedor de animais para o confinamento. Além disso, explorar na nutrição melhores desempenhos dos animais.

Mais grãos, instalações mais robustas e floculação do milho estão entre algumas novidades para o confinamento

O uso de novas tecnologias, técnicas de produção, melhor controle, gestão e treinamentos constantes da mão de obra garantem o aumento da produtividade e a eficiência produtiva da fazenda. Também nesses últimos anos, como consequência da busca por uma maior produtividade dentro do confinamento, tivemos algumas mudanças no perfil das fazendas, como um uso maior de milho, adoção de novos métodos de processamento dos insumos de nutrição (com unidades instaladas nas próprias fazendas), aumento na quantidade de grãos na dieta final, diminuição do uso de forragem e redução do número de tratos diários.

GESTÃO É ESSENCIAL

Como dito anteriormente, essa maior precisão nos resultados passa por uma gestão afiada da propriedade, com planejamento, procedimentos operacionais definidos e mecanismos para o controle das ações.

O planejamento das atividades do confinamento deverá responder, por exemplo, sobre o volume produzido de animais, orçamentos, estratégia de compra de insumos, compra de animais, se haverá abertura de vagas de boitel e parceria e metas para os resultados técnicos e econômicos. Para isso, um mapeamento adequado da região e a indexação em preços futuros para a aquisição de insumos podem ser ferramentas importantes. Ainda, o planejamento deverá passar por revisões periódicas - ele não é estático -, estratégias podem ser redefinidas e constantemente o mercado deve ser analisado.

O desenvolvimento das operações no dia a dia deve ter como base uma meta estabelecida. A execução dos procedimentos deve ser acompanhada e verificada e ações corretivas, tomadas em caso de desvios. Pode até parecer óbvio, mas, se não acompanharmos o desenvolvimento das ações, dificilmente será possível encontrar possíveis gargalos para serem corrigidos. Outro ponto fundamental sobre ter procedimentos operacionais bem definidos é que, dessa forma, é possível padronizar os resultados, independente do colaborador que estiver executando o serviço.

Os mecanismos de controle, muitas vezes relacionados à automação dos processos e à aplicação de sistemas informatizados, são necessários, pois minimizam falhas e proporcionam mais agilidade na tomada de decisão.

TREINAMENTO DOS COLABORADORES

Por maior que tenha sido o investimento em estrutura, maquinários e insumos, nada disso irá funcionar corretamente se seus colaboradores não estiverem preparados para a tarefa. Muitos casos de resultados ruins são explicados por operações executadas erroneamente, por funcionários sem qualquer capacitação. Ainda no meio rural, especificamente na pecuária, residem muitos profissionais sem treinamento, com baixos salários, semialfabetizados e com responsabilidades importantes no dia a dia do estabelecimento.

Um trabalho realizado por ASSOCON, IMEA e CEPEA em 2008 mostrou que 42% dos trabalhadores em confinamentos no Mato Grosso não tinham escolaridade ou o ensino fundamental completos. Somente 19% tinham completado o ensino médio. Essa é uma realidade nacional, com resultados muito piores em estados periféricos à região Centro-Oeste.

Entretanto, diversas empresas e associações de classe já disponibilizam uma infinidade de cursos e treinamentos, além da alfabetização, para os profissionais do campo. Esse movimento tem uma boa velocidade, mas o déficit que o setor possui em relação à capacitação é grande ainda.

Mesmo após todos os cuidados tomados, ainda assim, o produtor sempre ficará exposto aos riscos comerciais, mas essa é a regra do jogo em um ambiente de mercado bem regulamentado. Sua única opção é entender os movimentos desse segmento, comprar barato, vender caro e ser eficiente dentro da propriedade. Isso pode parecer até um negócio extremamente arriscado, mas não é. No mundo capitalista é assim que as coisas funcionam, e para todos os negócios, em todos os setores da economia. Por fim, a busca pela excelência sem qualquer propósito não tem necessidade alguma. Em todos os negócios devemos procurar pela funcionalidade do sistema e sua sustentabilidade.

*Bruno Andrade é zootecnista e diretor-executivo da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon)