Escolha do Leitor

FAZENDA ECOLÓGICA

Jurandir Melado*

A pecuária brasileira alcançou, junto com a relevância econômica, a incômoda fama de vilã do meio ambiente! A pecuária foi a atividade inicial em praticamente todas as frentes de abertura das fronteiras agrícolas. Com isto, granjeou a fama de destruidora das florestas e, recentemente, de grande responsável pelo aquecimento global. E o problema continua: com um manejo inadequado, as pastagens fatalmente se degradam, resultando na redução da capacidade de suporte, gerando a demanda por desmatamentos de novas áreas ou ampliação da atividade. Áreas degradadas, com escassa cobertura vegetal, se transformam em verdadeiros fornos e espelhos, absorvendo a radiação e a devolvendo ao espaço na forma de calor.

Estabeleceu-se, principalmente na Região Amazônica, um círculo vicioso cruel: desmatamento – formação de pastagens – pastagens mal manejadas – degradação e perda da capacidade – desmatamento de novas áreas. Com isso, o Brasil conta hoje com um enorme estoque de áreas de pastagens degradadas e/ou subutilizadas, que em cálculos conservadores, somariam cerca de 100 milhões de hectares. A simples recuperação e a utilização adequada destas pastagens degradadas bastariam para dobrar a produção pecuária brasileira, sem a derrubada de mais nenhuma árvore.

Com os naturais hábitos do pastejo seletivo e do caminhar constante, em regime de pastoreio contínuo, os bovinos se transformam em verdadeiros predadores da pastagem e, na sequência, do solo e do meio ambiente. Mas a situação pode ser diferente. Existe um sistema de manejo que promove a recuperação das pastagens, possibilita a sustentabilidade, tendo também o efeito de multiplicar por três a produtividade. Necessitando de áreas menores para a mesma produção pecuária, são disponibilizadas áreas para a recuperação ambiental de APPs e Reservas Legais e/ou utilização para outras atividades agrícolas. Está aí o caminho para a redenção da pecuária, livrando-a da pecha de vilã do meio ambiente.

EVITANDO A DEGRADAÇÃO

O pastoreio contínuo (na realidade, ausência de manejo!) e os vários tipos de pastoreio rotativo simples, realizado sem o necessário embasamento técnico-científico, são os manejos a serem evitados. Estes sistemas em algumas situações podem até satisfazer as necessidades do gado e do pasto, mas nunca simultaneamente!

No pastoreio contínuo, o gado promove desfolhas sucessivas, não permitindo que ela alcance o clímax do crescimento vegetativo, reduzindo a produtividade. Com baixa lotação, para o gado não é um mau negócio, pois Fotos: Divulgação REVISTA AG - 33 irá sempre colher as pontas do capim. Mas para saúde e a produtividade do capim será sempre péssimo, pois não permitirá o acúmulo de reservas que garanta uma rebrota vigorosa após o pastejo e o capim estará sempre sendo colhido antes de completar seu desenvolvimento.

Neste sistema extensivo, o gado chega a caminhar 10 km por dia, compactado o solo, destruindo a pastagem com o pisoteio e gastando energia que poderia ser canalizada para a produção. Este constante caminhar do gado cria trilhas que facilitam a movimentação das águas das chuvas, acelerando a erosão. Somando-se ao superpastejo, a pastagem entra em degradação mais rapidamente, começando com a diminuição do porte das forrageiras e da capacidade de suporte, aparecem as calvas (áreas descobertas) e a desertificação é o estágio final. Pode parecer dramatização, mas este é o processo de formação da grande maioria dos desertos existentes no mundo.

Quanto ao pastoreio rotativo simples, sua maior limitação é o número reduzido de piquetes ou parcelas, que não permite que o pasto tenha um período de repouso longo para que possa atingir seu desenvolvimento ideal e um período de ocupação suficientemente curto, de forma a impedir que o gado coma a brotação nova e pouco produtiva da forrageira. Os conceitos de repouso e ocupação constituem a base das duas principais "leis universais do pastoreio racional", que serão explicitadas adiante. Considero o desconhecimento destas leis pelos produtores e técnicos que se dedicam à pecuária como o fator que mais concorre para a degradação e a baixa produtividade das pastagens.

RECUPERANDO PASTAGENS

O melhor e mais perfeito sistema de manejo de herbívoros a campo existente é o Pastoreio Racional Voisin (PRV ou Sistema Voisin). Qualquer sistema que surgir no futuro que seja melhor que o PRV, será fatalmente um aperfeiçoamento ou detalhamento deste. Este é o caso do sistema a que me dedico há mais de 20 anos, que associa o Voisin com o Sistema Silvipastoril, conhecido por Manejo de Pastagem Ecológica – Sistema Voisin Silvipastoril.

Gado em pastoreio Pastagem Ecológica

O que diferencia o Pastoreio Voisin do pastoreio rotativo simples é que o PRV é conduzido com estrita observância às "4 Leis Universais do Pastoreio Racional", de André Voisin, e o pastoreio rotativo simples quase nunca.

A genialidade destas leis é que elas explicitam, de forma clara, regras naturais e óbvias, mas nem sempre compreendidas e aplicadas, que atendem simultaneamente às necessidades do gado e das pastagens. Das quatro leis, as duas primeiras se preocupam em proteger o pasto e as outras são voltadas para os animais. São elas:

1. Lei do Repouso, ou primeira lei do pasto: determina que, após cada utilização, a pastagem tenha um repouso longo, que possibilite à pastagem duas condições básicas: a) o acúmulo de reservas de nutrientes, nas raízes e partes baixas do caule, que favorece um rápido início da rebrota, e b) passar pelo período de maior crescimento diário de massa verde (labareda de crescimento);

2. Lei da Ocupação, ou segunda lei do pasto: impõe que o período de ocupação da pastagem seja suficientemente curto, de forma a não permitir ao gado colher brotação nova do pasto, surgida após a sua entrada na parcela.

3. Lei da Ajuda, ou primeira lei dos animais: recomenda que os animais com exigências nutricionais mais elevadas recebam o alimento que necessitam em quantidade e qualidade.

4. Lei dos Rendimentos Regulares, ou segunda lei dos animais: para que tenham rendimento regulares, seja em produção de leite ou ganho de peso, os animais não podem permanecer mais que três dias na mesma parcela de pasto. Os rendimentos serão máximos e regulares, se a permanência não for superior a um dia.

O cumprimento das duas primeiras leis garante que a pastagem terá o máximo de sua produtividade potencial e se tornará sustentável. As outras proporcionam ao gado a alimentação que necessita para uma produção máxima e regular. Notem que só a última lei especifica valores fixos, já que a duração dos períodos de repouso e de ocupação depende de particularidades referentes à época do ano, posição geográfica, índice pluviométrico e fertilidade do solo.

Para Jurandir, qualquer sistema de pastoreio melhor que o Voisin será apenas uma evolução dele

Entre as inúmeras vantagens do PRV está a capacidade de elevar a fertilidade do solo. Isso ocorre pela "parcagem", ou deposição de dejetos, que é grandemente ampliada pela intensificação. Façamos os cálculos: com a lotação de ½ UA/ha em pastoreio contínuo, teríamos, por ha/dia, 20 kg de dejetos, ou 7.300 Kg/ha em um ano. Com o PRV, com 100 UA/ha, teríamos 4.000 kg em um dia de permanência do gado no piquete. Como o gado passa, em média, 8 dias/ano em cada piquete, teremos em um ano nada menos que 32.000 kg de dejetos para adubar as pastagens, em 8 "aplicações" homogeneamente distribuídas. Quando se sabe que parte significativa dos nutrientes fornecidos no sal mineral é eliminada pelo gado através dos dejetos, percebemos que com o PRV estamos adubando permanentemente nossos pastos.

Gado em pastoreio no Sistema Voisin

MANEJO DE PASTAGEM ECOLÓGICA

No passado recente, a maioria dos técnicos ainda desaconselhavam a arborização das pastagens, alegando que as árvores competiriam com as forrageiras na utilização dos nutrientes disponíveis. A experiência, porém, mostrou que ao invés de disputar nutrientes com as forrageiras, as árvores são verdadeiras "bombas de adubação", retirando nutrientes de camadas profundas do solo e depositando-os na superfície através das folhas e galhos que caem. Existem inúmeras outras vantagens: sombreamento que melhora o conforto térmico, que resulta também em maior produção animal, efeito quebra-vento, que mantém a umidade e melhora do microclima, melhor equilíbrio ambiental, etc.

O Sistema Silvipastoril se tornou uma unanimidade. Porém, com todas as suas vantagens, as árvores não bastam para garantir a sustentabilidade de uma pastagem, que, mesmo assim, entrará em degradação se o manejo for inadequado. Porém, quando ao Sistema Silvipastoril é associado o sistema de Pastoreio Racional Voisin, chega-se a um consórcio perfeito, que agrega as necessidades básicas do gado, da pastagem e do solo: o Manejo de Pastagem Ecológica. Neste sistema, a cooperação entre os três elementos é total e cada um tem um efeito positivo sobre os outros dois. A consequência é uma alta produtividade e bem-estar animal aliados à evolução e à sustentabilidade da pastagem e à preservação do meio ambiente.

A experiência tem mostrado que uma pastagem qualquer, mesmo em severos estágios de degradação, pode ser convertida em uma Pastagem Ecológica no curso de poucos anos, com aplicação dos seguintes procedimentos: implantação de um projeto de Pastoreio Racional Voisin, arborização adequada, diversificação das forrageiras e exclusão de procedimentos inconvenientes, como as queimadas, o uso de adubos altamente solúveis e as roçadas sistemáticas.

Considero o "como fazer" tão importante como "o que fazer", pois muitas ideias brilhantes na teoria fracassam na hora da prática por falta de habilidades específicas nos responsáveis pela elaboração e implementação dos projetos. Entretanto, só o detalhamento deste item comportaria um manual com dezenas de páginas, não sendo viável fazê-lo no contexto deste artigo.

Há alguns anos, ao decidir que a divulgação da Pastagem Ecológica seria a minha "missão de vida", estruturei e passei a oferecer um curso de capacitação para técnicos e produtores que contempla os aspectos teóricos e práticos do Manejo de Pastagem Ecológica. Mas aqui só me será possível deixar alguns conselhos de ordem genérica.

• Elaboração do projeto - o tempo e dinheiro gasto em um bom projeto serão amplamente compensados em economia na hora da implantação e em funcionalidade no manejo posterior.

• Número de piquetes - não se iludam: com poucos piquetes será sempre muito difícil, senão impossível, atender ao mesmo tempo a LEI DO REPOUSO e a LEI DA OCUPAÇÃO... Quanto maior o número de piquetes, melhor! Nunca menos que 40...

• Opção pela cerca elétrica - não existe melhor forma de se fazer a divisão das pastagens que as cercas elétricas. Deve-se ficar atento, porém, na hora da compra dos componentes, pois muitas peças industrializadas disponíveis no mercado podem ser substituídas com vantagens funcionais e econômicas por peças artesanais. São exemplos as chaves interruptoras, os punhos para porteiras e as cercas móveis.

• Arborização das pastagens - ao arborizar uma pastagem em uso, é imprescindível fazer a proteção das mudas, para evitar que os animais as destruam. O uso de cercas elétricas temporárias é a melhor forma de proteção, tanto de mudas individuais ou pequenos grupos de árvores quanto de bosques e faixas arborizadas.

*Jurandir Melado é engenheiro -agrônomo, professor aposentado da UFMT e consultor [email protected]


Esta reportagem foi escolhida pelo leitor da Revista AG, que votou por meio da Newsletter Agronews. Aproveite agora e escolha entre as três reportagens que estão em votação a que você prefere ver estampada nas páginas de nossa revista. Caso ainda não receba a newsletter, cadastre-se no site www.revistaag.com.br