Raças - Caracu

 

CARACU se aprimora para retomar espaço

Cintia Rocha

Uma raça tradicional e capaz de atender aos principais anseios da pecuária moderna. Rústica, mas adaptável às mais diversas condições brasileiras de criação. Fêmeas que apresentam boa habilidade materna, bons índices de fertilidade, facilidade de parto e boa produção leiteira. Machos que se destacam por seus resultados a campo e que podem ser designados à monta natural, levando vantagem tanto na questão de resistência quanto de heterose, com índices de 100% nos produtos meio sangue.

Resumidamente, este é o perfil do Caracu, gado de origem europeia (Bos Taurus), que desembarcou nas terras brasileiras, trazido pelos portugueses no período colonial, no ano de 1534. Precisamente, são 480 anos de história, uma trajetória que permitiu que o Caracu enfrentasse, durante todos esses séculos, os mais diversos desafios em termos climáticos, sanitários e nutricionais. Uma rusticidade que permite a muitos criadores afirmarem que esta é a raça mais adaptável dentre todas as existentes.

A raça de pelagem curta, resistente a endo e ectoparasitas, e de bons aprumos é considerada patrimônio da pecuária nacional. Quase extinta com a chegada dos zebuínos, ela agora está empenhada em divulgar suas qualidades. Graças ao aprimoramento genético que tem conquistado, sobretudo, a partir da década de 1980, quando técnicas modernas de seleção começaram a dar direcionamento ao produto, hoje ela recebe o status de "Novo Caracu" – um animal com baixo custo de produção e resultados expressivos a campo.

"Nosso grande mercado tem sido o cruzamento industrial, com uma demanda que tem incentivado também o criador de gado puro. Temos registrado um aumento constante pela procura por tourinhos, especialmente, na região Norte do Brasil, nos estados do Pará, Tocantins e Rondônia. Neste último, o incremento tem sido ainda maior, devido à presença do nosso técnico da associação, Jeferson Raudilei Palauro, que está fazendo um trabalho muito bom por lá. Hoje, temos um núcleo muito forte de cruzamento com Caracu na região de Ji-Paraná", destaca o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Caracu (ABCCaracu), Sady Marcondes Loureiro Filho, que é neto e filho de criadores da raça.

Lício Isfer foi pioneiro ao inserir Caracu no Programa Geneplus

De acordo com ele, no Norte, por exemplo, o Caracu tem sido utilizado com sucesso para repasse de vacas que estavam sendo terminadas com Angus. Pelas contas dos pecuaristas, é possível comprovar, logo na desmama, que o custo benefício do meio-sangue Caracu tem sido melhor. "A partir do mês que o bezerro sai do pé da vaca e vai para o pasto, o Caracu supera as outras raças por conta da rusticidade. Apenas no capim, o ganho de peso dele é maior e isso acontece mesmo quando o pasto é mais rústico e o clima mais severo. A produção do bezerro tem um custo barato, ainda mais quando levamos em conta que este é um animal de origem europeia que cobre vaca branca (vaca Nelore). No calor, é a única raça europeia de cruzamento que acompanha a vaca. Por isso, quando o criador começa a ver resultado do cruzamento industrial na vaca indiana, começa a sentir a qualidade. Tudo isso tem nos ajudado muito."

Para mostrar essa eficiência, o técnico Jeferson Palauro gravou um depoimento no qual conta a experiência obtida na Fazenda Jalma, de Rondônia, que aceitou o desafio de inseminar dez vacas de seu tradicional rebanho Nelore com Caracu. O material mostra que, quando pesados, aos quatro meses de idade, os bezerros estavam com duas arrobas a mais, o que fez a diferença no preço de venda. Outra vantagem ocorreu com relação às fêmeas. Lá, as novilhas F1, antes destinadas ao descarte, agora estão indo para recria. "Todos os bezerros tiveram o mesmo manejo e alimentação. A raça Caracu agregou peso, habilidade materna, docilidade e rusticidade, além de ser fácil de mexer e ter baixo custo. Sem contar ainda que, do frio do Sul para o calor do Norte, o Caracu precisou apenas de 30 dias para se adaptar à região. É um gado extremamente adaptável e rústico, características que aqui são muito valorizadas pelos criadores, já que temos um clima muito quente", sinaliza o especialista.

O vídeo, que está disponível no site da ABCCaracu (www.abccaracu.com. br), foi gravado para o Leilão Novo Caracu da Guaraúna, promovido em outubro de 2013, por Lício Isfer, criador com grande influência na seleção da raça, por se tratar do primeiro a inscrever o Caracu no programa Geneplus, da Embrapa Gado de Corte. A partir de seu trabalho foram realizadas as primeiras mensurações em ganho de peso e habilidade materna na raça.

Segundo Isfer, nos últimos 30 anos, os criadores conseguiram desenvolver as qualidades do Caracu. O primeiro passo foi a correção da carcaça, que precisava ser melhorada. Para isso, durante quatro ou cinco gerações, foram escolhidos os melhores animais, não selecionando, em hipótese alguma, exemplares de outras raças.

"Com a identificação dos melhores animais pelos centros de pesquisas, a questão que antes era preocupante foi resolvida com primor e conseguimos obter um animal que hoje tem uma carcaça fantástica, equivalente a de qualquer britânico. Há 15 anos, usamos as ferramentas do Geneplus, o que tem sido primordial, pois todos os cruzamentos que fazemos são com base nesse programa. Hoje, estamos com um gado que é um fenômeno em habilidade materna, carniceiro e que traz a maciez oriunda do gado europeu", afirma Lício Isfer, que cita ainda a importância da parceria com outros institutos de pesquisa, como a Embrapa Pecuária Sul (Bagé), o Instituto de Zootecnia de São Paulo e o Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), em Ponta Grossa.

"Com o auxílio de todos esses centros que são referência e com o nosso empenho nessas três últimas décadas, passamos a ter uma carcaça privilegiada e sem perder absolutamente nenhuma das grandes qualidades que tem o Caracu. Atualmente, vendo reprodutores para clientes de Norte a Sul. Muitos compradores já tentaram usar outros animais, mas não tiveram o mesmo desempenho, ainda mais nos climas extremos (seja para o calor ou para o frio) ou de pastagens de baixa qualidade", completa Isfer.

A melhora da carcaça que o criador cita e o marmoreio da genética Caracu podem ser observados por meio dos dados de uma avaliação de carcaça por ultrassom divulgada há pouco mais de dois anos pelo laboratório Genes Technologies Brasil, coordenado pela Dra. Liliane Suguisawa. Exemplares da raça avaliados durante a ExpoLondrina 2011 indicaram valores interessantes quanto à AOL (área de olho de lombo), Espessura de Gordura Subcutânea (EGS) e Marmoreio (Gordura Entremeada na Carne). Confira as tabelas nesta página.

Para Sady Loureiro, é preciso fazer uma ressalva: a de que o Caracu começou a mostrar excelentes resultados a partir do momento que ele deixou ser lembrado apenas por ser raça de rusticidade. "O Caracu era conhecido por sobreviver onde outras raças não conseguiam, era um animal improdutivo quando comparado a outros. E isso, logicamente, porque estava numa condição muito ruim. A partir do momento que se deu a mesma condição de manejo, de alimentação e sanidade para o Caracu, ele se desenvolveu igual a outras raças e até superando em alguns itens. E com a novidade de alguns anos para cá, ele é a segunda raça no Brasil em qualidade de carne. O Angus está primeiro e, na sequência, vem o Caracu".

Para dar força a tal afirmação, o presidente dá como exemplo um estudo feito pela unidade da Embrapa de Bagé que apontou que o único acasalamento que não prejudica carne do Angus é com o Caracu. A pesquisa conduzida pelo médico-veterinário, PhD, Fernando Flores Cardoso, da Embrapa Sul, e pelo médico-veterinário e mestre em zoologia Marcelo Henrique Giordano Nunes, avaliou animais puros Angus, Hereford, Nelore e os cruzados Angus x Caracu, Angus x Hereford e Angus x Nelore. Nos resultados, eles sinalizaram que o cruzamento com Angus utilizando a raça Caracu como alternativa ao zebuíno apresentou produtividade superior aos puros e não diferiu do cruzamento tradicional com Nelore. Os cruzamentos Angus x Nelore e Angus X Caracu produziram animais com os maiores pesos vivos e, consequentemente, carcaças mais pesadas. Esses cruzamentos também não diferiram entre si em características importantes de desenvolvimento da carcaça, como a área de olho de lombo e comprimento de carcaça. Entretanto, a conclusão dos estudiosos deu um ponto a mais ao Caracu: o cruzamento de raças britânicas com o Caracu pode ser utilizado como alternativa para aumentar a produtividade e a rusticidade dos bovinos, com a vantagem de não diminuir a maciez da carne, como pode ocorrer em cruzamentos envolvendo zebuínos.

Segundo os pesquisadores, os animais cruzados com Caracu merecem atenção de novos estudos e sua utilização e avaliação em programas de cruzamento industrial de larga escala, pois conciliaram bons ganhos de peso, carcaças pesadas e rendimento de cortes comerciais, com um diferencial positivo para uma das características mais apreciadas pelo consumidor, a maciez da carne.

"Estamos conseguindo divulgar mais uma qualidade que não existia no Caracu, ou melhor, que não se conhecia. O Caracu tem se sobressaído e tem aparecido. Acredito que muito em breve teremos grandes surpresas com animais Caracu mostrando qualidades até hoje desconhecidas na raça", completa Sady.

DIVULGAÇÃO DA RAÇA

A ABCCaracu, cuja sede está localizada na cidade de Palmas (no sul do estado do Paraná), abriu o ano de 2014 apresentando 200 associados ativos em 13 estados diferentes e uma população de animais registrados na ordem de 85,5 mil cabeças (o maior rebanho tropicalizado do mundo). A entidade tem investido em algumas ações de fomento, aumentado o marketing da raça e a realização de cursos técnicos e de provas de ganho de peso, formando novos técnicos e participado de diversos eventos. O calendário de exposições em 2013, que deve ser ampliado neste ano, contemplou mostras como ExpoLondrina, Feicorte, Expointer e exposições regionais, sendo que, em algumas menores, pelo interior afora, criadores têm levado exemplares por iniciativa própria, o que também tem contribuído para a divulgação da raça.

As diretrizes dos trabalhos atuais foram estabelecidas no planejamento inicial, feito no início do mandato de Sady Loureiro (2010-2013), que acaba de ser reeleito para por mais três anos. "Temos um trabalho que contempla desde a divulgação da raça até o incentivo do associado. Procuramos orientá-lo de forma técnica e até comercial, se possível. Quando alguns clientes procuram por reprodutores ou fêmeas, a associação procura indicar as regiões onde há criadores. Nossas ações visam alavancar a raça no mercado, dentro das dificuldades da pecuária brasileira. A procura pela raça é uma crescente; temos bastante consulta e isso ainda levando em conta que a pecuária hoje está no Norte do país e nós estamos no Sul, o que geograficamente poderia ser um problema de logística. Tivemos grandes leilões vendendo bem, o que traz uma boa perspectiva para 2014", detalha o presidente.

Novo Caracu tem a carcaça corrigida

As comercializações em remates no ano passado obtiveram 100% de liquidez. Para exemplificar em números, no primeiro semestre, um dos destaques foi o Leilão Caracu da Vitrine, realizado em abril, na 10ª Exposição de Jardim (MS). O remate arrecadou mais de R$ 942 mil e teve média de R$ 7,6 mil para 13 touros e R$ 1.024 para 906 cabeças, entre machos e fêmeas de cruzamento industrial com idade entre 10 e 15 meses. Já no segundo semestre teve o Leilão Virtual Novo Caracu da Guaraúna, que vendeu 161 animais. O total arrecadado com a venda de machos, vacas e novilhas foi de R$ 618 mil, para 161 exemplares, com reprodutores a preço médio de R$ 5,4 mil. O ano foi encerrado com o 2º Leilão Caracu Brasil, que aconteceu em Dois Vizinhos/PR, no final de novembro. O evento apresentou média de R$ 4,2 mil para 35 reprodutores e teve como ponto alto a venda de um exemplar por R$ 13,2 mil.

Um dos projetos mais audaciosos da raça em andamento é o Programa Integração para Produção de Carne Bovina Padronizada e com Garantia de Origem, que visa, em médio prazo, abastecer os consumidores mais exigentes do mercado brasileiro. A meta do programa, para tal feito, é chegar a 30 mil matrizes em 2016 e realizar um forte investimento financeiro para formação de grupos regionais, contratação de profissionais capacitados, material genético e valorização do produto Caracu junto a frigoríficos e consumidores. Junto com a Associação, estão nesta empreitada produtores, técnicos da Embrapa, Instituto Emater e do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná (CRMV-PR).

Com o ideal de que uma forte aliança é o primeiro passo para a conquista de metas comuns, a entidade tem oferecido uma série de vantagens aos seus associados. Uma das mais recentes novidades é o acesso ao programa on-line do registro genealógico, novo sistema que é o mais moderno do gênero e permite que a entrada de dados seja mais prática. "O pecuarista pode investir sem medo no Caracu", categoriza Sady Loureiro.