Nutrição

INOVAÇÕES TÉCNICAS

devem surgir no mercado de suplementação

Júlio Barcellos*

A pecuária de corte, similar às demais atividades econômicas no Brasil, vem apresentando crescimento importante nos padrões tecnológicos e produtivos. No segmento da alimentação animal, os avanços são mais perceptíveis do que nos demais pilares da produção, possivelmente por se tratar de tecnologias de insumos; o conhecimento das diferentes frações proteicas; a estrutura e padrões de degradação e fermentação dos carboidratos no rúmen; o papel das gorduras; os aditivos e promotores do crescimento e, por último, os minerais, têm permitido dietas mais bem ajustadas e eficientes em termos biológicos e econômicos. Os minerais, por sua vez, saíram do conceito de "cura", dos anos 60-70, para o de potencializar a produção na última década. Assim, os minerais ocupam um outro papel no campo da produção, no qual constituem, juntamente com a energia e a proteína, fatores que definirão o desempenho dos animais - ganho de peso, conversão alimentar, eficiência reprodutiva, resistência orgânica e qualidade da carne, entre outros. Desta forma, o pecuarista já tem isso bem claro. Por melhor que seja o pasto, sempre haverá a necessidade de incluir algum suplemento mineral para potencializar a produção animal.

Os minerais mais importantes para a produção ainda são representados por fósforo, cálcio, magnésio, enxofre, sódio, zinco, cobre, manganês, iodo, cobalto, ferro e cromo. Estes, em diferentes proporções, constituem, até os dias de hoje, as misturas minerais, conhecidas como "sal mineral". Contudo, surgiram avanços, especialmente nos últimos cinco anos, com a "descomoditização" do sal para linha branca (sal mineral exclusivo) e para as misturas múltiplas (proteicos, energéticos e energéticos proteicos). Esse ciclo de inovações entra agora em uma nova fase tecnológica como consequência dos resultados de pesquisas obtidos nas universidades e nas próprias empresas produtoras dos suplementos minerais.

O suplemento mineral tem uma vantagem muito peculiar para capturar inovações no segmento de aditivos e novos produtos voltados à alimentação animal. Como ele contém o cloreto de sódio (conhecido como sal branco), um potente mineral e ao mesmo tempo veículo regulador do consumo, facilita constituir misturas minerais ou com outros ingredientes de baixa ingestão. Esta predição é muito eficaz para misturas de consumos até aproximadamente 0,1-0,2% peso vivo do animal. Portanto, um bovino adulto com peso de 400 kg poderia ingerir um suplemento, tendo como base os conceitos de sal mineral – misturas múltiplas, de 400 a 800 gramas/dia. Isso permitiu um novo campo de aplicação no segmento de suplementos minerais. Agora não mais levando apenas os minerais, mas sim uma amplitude de nutrientes e aditivos em conjunto com o sal mineral. Este, por ter sua logística facilitada pelo baixo consumo, possibilita a inclusão, por exemplo, de um ionóforo, para o fornecimento de algumas miligramas ao dia, destinada a melhorar o aproveitamento do pasto. Portanto, as inovações tecnológicas no campo da suplementação mineral estão num outro paradigma para os pecuaristas. Não é mais a questão de comprar sal mineral para aportar fósforo, macro ou microelemento! É fornecer uma mistura num cocho que aporte vários elementos de uma única vez, nutricionalmente recomendável, logisticamente viável e economicamente justificável.

Os suplementos minerais ainda estão sendo produzidos e comercializados com base em alguns conceitos básicos: nível de fósforo (no caso da linha branca) e nível de proteína e/ou energia (no caso da linha de misturas múltiplas). Assim, o pecuarista faz a "cotação" com estas duas informações. Adiciona-se o consumo previsto, nem sempre realizado. No entanto, vale ressaltar, que muitas empresas já estão em outro estágio na oferta de produtos ao mercado. Portanto, para os novos conceitos e utilidades, atuar apenas no teor de fósforo já faz parte do passado. A partir da quebra desse paradigma, surge como inovação o conceito da suplementação mineral por função produtiva ou por objetivo do processo alimentar. Assim, o que antes era chamado de um suplemento mineral básico com um determinado teor de fósforo, agora passa a ser destinado a uma fase da produção, como por exemplo, fase pós-desmame; o que era chamado de suplemento mineral proteico para a seca, passará a ser chamado de suplemento mineral para manutenção de peso. Desta forma, surge um vasto campo de novas tecnologias, reconfiguradas para objetivos mais específicos da produção e mais fáceis de mensurar resultados. Os produtos não serão mais comoditties e a legislação deverá passar por uma revisão, pois a obrigatoriedade de respeitar níveis mínimos de fósforo ou de outros minerais, por exemplo, no apontamento de um produto a ser lançado, não será mais justificável para a nova pecuária.

Essas inovações que estão surgindo no mercado farão uma segunda revolução na pecuária brasileira, pois a suplementação mineral tem um peso importante no custo de produção total da fazenda, mas que poderá resultar em melhorias que beneficiem o gasto realizado. Cada vez mais será necessária a utilização planejada e maximizada em cada categoria animal, fase do processo produtivo, objetivos do sistema e logística da fazenda.

Um aspecto relevante e que também é resultado de inovações é a logística de fornecimento dos suplementos minerais, talvez uma das principais razões para a utilização de produtos tão básicos. De um modo geral, o pecuarista não investe em infraestrutura mínima na fazenda para administrar o sal ao rebanho, ocorrendo perdas em torno de 20% pela intempérie e por falta de consumo às misturas deterioradas devido à ausência de cochos. Felizmente, existe uma nova realidade que é a visível introdução de cochos cobertos e de boa qualidade, o que facilita o acesso dos animais, protege o produto e facilita a distribuição. É uma inovação de comportamento.

Os suplementos minerais que estão surgindo como resultados das pesquisas e das novas tecnologias já estão sendo apresentados ao mercado. Não significa que o velho está superado e que as marcas e formulações atuais desaparecerão. Estas terão lugar no que chamamos de escala tecnológica do pecuarista. Muitos usam apenas o "velho" sal branco em cochos de velhos pneus. Esses precisarão subir vários degraus antes de utilizar o que de mais moderno a indústria disponibiliza

*Júlio Barcellos é professor-doutor do Departamento de Zootecnia da Faculdade de Agronomia da UFRGS e coordenador do Grupo NESPRO - [email protected]