Matéria de Capa

 

SUPLEMENTAÇÃO é estratégia de negócio

Otimizar o manejo nutricional do rebanho gera benefícios diretos, como ganho de peso e maior eficiência reprodutiva, e redução de custos

Romualdo Venâncio

Exploramos apenas 10% do potencial produtivo de nossos pastos, usando em média 0,8 unidade animal (UA) por hectare. Poderíamos chegar a 4 UA/ha com suplementação na época da seca." A análise de Antonio Carlos Silveira, professor recém-aposentado da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, campus de Botucatu (SP), é uma mescla de inquietação com orientação técnica. E ressalta que sua sugestão deve ser vista como estratégia. "O próprio nome já diz, é suplementar, corresponde a 0,3% do peso vivo do animal e é por aí que vai ficar. Não se trata de uma quantidade qualquer de ração", orienta.

Boa parte de seus 70 anos de vida foram dedicados à vasta carreira acadêmica. Além de graduação e doutorado em Agronomia, tem especialização em Zootecnia e mestrado em Nutrição e Produção Animal. Até o ano passado, atuava como professor da FMVZ/Unesp. Foi exatamente com projetos de suplementação que ganhou notoriedade, sobretudo com experiências na produção de bovinos superprecoces. "Começamos esse tipo de trabalho na faculdade em 1990, abatendo bovinos com 13 ou 14 meses. Hoje, os pecuaristas fazem isso para vender produtos diferenciados", comenta.

O avanço no ganho de peso do rebanho é apenas uma das vantagens da suplementação estratégica, implantada de forma correta e sob a orientação e a supervisão de profissionais competentes. Também há impacto na qualidade da carne, no manejo das pastagens, no desempenho reprodutivo do criatório, na gestão de custos e investimentos, nos índices de produtividade por área, entre outros. "A arroba produzida no pasto tem custo menor do que no confinamento, então devemos adiantar ao máximo a recria no pasto", sugere Silveira. Vale lembrar que o cenário global da pecuária é outro: a crescente demanda dos consumidores por proteína animal vem acompanhada de exigências quanto à segurança alimentar e a preservação ambiental.

AVALIAÇÃO PRÉVIA

De maneira geral, a suplementação nutricional dos bovinos de corte tem como função principal melhorar o aproveitamento das pastagens ou suprir alguma carência desse volumoso. "O pasto é o alimento mais barato. Por isso, o primeiro objetivo em termos de alimentação é fornecer, em qualidade e quantidade adequadas, a maior proporção dos nutrientes necessários para aquela categoria animal por meio de pastagens ou volumoso conservado", analisa o médico- veterinário e pesquisador da Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS), Sérgio de Oliveira Juchem. O especialista em nutrição de ruminantes faz coro à comparação de Silveira sobre os custos de produção: "Vale lembrar que o volumoso conservado na forma de silagem ou feno já apresenta custo superior ao do pasto verde colhido pelo boi".

A relação entre o valor nutritivo da pastagem e a demanda nutricional dos animais, por conta da fase de vida, vai determinar a necessidade de uma suplementação proteica ou energética, do ponto de vista zootécnico. "Mesmo em pastagens de boa qualidade, bovinos em crescimento com alto potencial genético ou que estejam em terminação ainda suportam um nível adicional de nutrientes", afirma Juchem. "Porém, o recurso financeiro investido tem de retornar em lucro, seja como produção de carne, quilos de bezerro desmamado, entre outros índices de produtividade", reforça.

Sérgio Juchem ressalta que o primeiro passo é fornecer a maior proporção de nutrientes necessários para cada categoria animal

A análise da viabilidade técnica e econômica da suplementação leva em conta até particularidades da localização geográfica da fazenda. Juchem dá o exemplo de propriedades com pastagem bem manejada no Sul do País que, diferente das regiões Centro- Oeste e Sudeste, não tem um período seco característico e bem delimitado. "Por isso, a suplementação na região Sul deveria ser mais energética do que protéica. De forma geral, falo de valores protéicos do pasto entre 10% e 16% associados ao alto índice de NDT (>75%) do suplemento", detalha .

ATUALIZAÇÃO CONSTANTE

Os conceitos defendidos por Juchem são levados à prática na Estância Pedra Só, em Pedro Osório/RS. "Como minha região não é produtora de grãos, o custo de suplementação é alto, então procuramos trabalhar com suplementos para os animais jovens, pois consomem menos e têm grande retorno", explica o médico-veterinário e proprietário da Pedra Só, Juliano Severo Leon. O sistema de cria, recria e engorda com bovinos Angus e Brangus rende cerca de 1.500 animais abatidos por ano. Um terço dos bezerros é de criação própria e os demais são comprados de terceiros. "A reposição é, atualmente, o que mais impacta em nosso negócio, pois o terneiro está muito valorizado", comenta.

Leon assegura boa parte dos ganhos zootécnicos e financeiros na fase inicial da produção. Aos 30 dias de idade, ainda ao pé da vaca, os bezerros são suplementados em sistema de creep feeding com ração composta por 18% de proteína e 75% de NDT. Entram nesse manejo pesando cerca de 150 quilos e chegam à desmama, aos cinco meses de idade, com 250 quilos. Dos 30 aos 150 dias, cada bezerro consome, em média, um quilo de ração que custa R$ 0,76; no total, são cerca de 120 quilos de ração a um custo de R$ 91,20. Durante esse período, o ganho de peso por bezerro gira em torno de 80 a 100 quilos, e o preço dos animais oscila entre R$ 4,00 e R$ 4,20. "Para cada R$ 1,00 investido em ração, tenho retorno de R$ 3,00 no novilho", resume.

As vacas são poupadas e têm melhores condições de retornar à reprodução. "O índice de repetição de cria passou de 77%, no máximo, para 80% após esse manejo. A combinação com outros fatores elevou ainda mais, chegando a 85%", comemora Leon, que teve de insistir no processo e fazer ajustes para alcançar tais resultados. Decidiu implementar o sistema na propriedade depois de ver na fazenda de um amigo, mas o resultado não vinha. Retornou para observar melhor e identificou que faltava uma dedicação mais intensa, um acompanhamento diário. "Elegi um func

ionário só para cuidar desse manejo."

Passada a desmama, os animais são engordados nos pastos de inverno (1.300 hectares), compostos por azevém e aveia consorciados com trevo branco cornichão. O gado da própria fazenda é terminado mais cedo, com 12 ou 13 meses, enquanto que os oriundos de outras propriedades demoram um pouco mais (13 a 18 meses). O peso ao abate vai de 460 a 530 quilos. O controle primoroso do sistema de produção rende negociações mais interessantes com a indústria. "Por mantermos o foco em fornecer carne com elevado padrão de qualidade, conseguimos parcerias com alguns frigoríficos e somos mais bem remunerados", diz Leon. Segundo ele, o dono do Frigorífico Kroth, de Venâncio Aires/RS, vai pessoalmente à Pedra Só avaliar os animais destinados ao abate e aparta o que gosta, com o compromisso de oferecer a melhor remuneração do mercado.

Leon acredita que a flexibilidade na gestão também é essencial para o melhor aproveitamento dos recursos disponíveis. "Já tive ganho de peso de 1.300 gramas por cabeça/dia apenas com pastagem de verão e sal proteinado, assim como ganho de 600 gramas em pastejo de inverno. Tudo depende da época do ano, da categoria animal, da adaptação do gado ao manejo. Enfim, todo ano é diferente", avalia.

FORMULAÇÃO PRECISA

Um dos conceitos em nutrição animal que vêm ganhando espaço é o da suplementação de precisão. Para o engenheiro-agrônomo e pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste (São Carlos, SP) Alexandre Mendonça Pedroso, trata-se apenas do refinamento daquilo que o pecuarista já deve fazer todos os dias na propriedade. A postura é cada vez mais importante, tanto pela cobrança por eficiência produtiva quanto ambiental. "Se consigo melhorar, por exemplo, o uso do nitrogênio, principal elemento das fontes de proteína, tenho ganho de eficiência produtiva e redução de custo. Pequenas mudanças nos níveis de exigência em relação aos processos têm grande impacto", observa. É o caso da verificação do barracão onde a comida é armazenada, para evitar a presença de roedores, e da avaliação da distribuição da dieta no cocho para eliminar ou reduzir desperdícios.

Na prática, a definição de como será feita a suplementação passa por diversos fatores. Um deles é a condição da pastagem. "Não adianta pensar em aditivo alimentar se não tem capim suficiente para fornecer aos animais. O concentrado deve ser utilizado de maneira estratégica, e não como fator primordial. Se o sistema produtivo passa a depender do concentrado, a viabilidade econômica fica comprometida", avalia Pedroso.

Sérgio Medeiros acredita que o correto fornecimento dos nutrientes passa por avaliações das características regionais

Durante o período das águas, em que as forragens são mais ricas em níveis proteicos, se a fazenda dispõe de volumoso em qualidade e quantidade suficientes para atender a demanda dos animais, deve-se considerar apenas um suplemento energético. "Quando o pasto não apresenta essa condição, aí é hora de levar em conta uma suplementação proteica", comenta o pesquisador, lembrando que a definição da composição desse suplemento e do volume a ser oferecido ao gado passam por uma análise técnica e econômica. O especialista chama a atenção até para o potencial genético do plantel de responder ao trato diferenciado.

O planejamento nutricional do rebanho é uma das principais funções do programa de transferência de tecnologia Beefquali TT, desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste. "Há uma planilha para determinar a evolução do rebanho ano a ano – se vai aumentar ou estabilizar, quantos nascimentos estão previstos, quantas novilhas há em produção, qual é o ganho de peso; a área de pastagem, qual o espaço disponível, que tipo de capim, se vai ser suficiente, se vai precisar de cana ou outro alimento e a projeção de confinamento, entre outros itens", detalha Pedroso, que preside o Conselho Estratégico do Projeto. Como não existe receita única que funcione para todas as fazendas, ferramentas assim ajudam o pecuarista a personificar a gestão.

EMBRASAMENTO TÉCNICO

Sérgio Juchem, da Embrapa Pecuária Sul, acrescenta ser imprescindível contar com o auxílio de bons técnicos. "Diversas propriedades operam com sistemas de integração lavoura-pecuária, portanto, o planejamento deve ser feito em conjunto por um profissional do setor agrícola e outro de pecuária. A análise econômica deve ser do sistema de produção como um todo", orienta o pesquisador.

É assim que as coisas funcionam na Fazenda Cachoeirão, em Bandeirantes/MS. "Sou médico-veterinário e gerencio toda a parte de alimentação do rebanho. Mas também conto com um técnico exclusivo para elaborar as formulações do confinamento. Não sou nutricionista e não quero correr o risco de errar", justifica o pecuarista Nedson Rodrigues Pereira, que administra a propriedade com quatro irmãos.

Dos 7.500 hectares da fazenda, 5.000 são destinados à pecuária e 1.000 são ocupados por soja e milho. Essa configuração dá condições para a integração lavoura-pecuária, que é a base da alimentação do rebanho, composto por animais Nelore e cruzas com Angus. Anualmente, cerca de 2.000 bovinos oriundos de ciclo completo (cria, recria e engorda), entre Nelore e meio-sangue Angus, são enviados ao abate. A maior parte (90%) é de animais próprios. Todos são criados a pasto e recebem sal proteinado na proporção de 0,1% do peso vivo. Quando chega a fase de terminação, são divididos em três grupos distintos, de acordo com o potencial de ganho de peso aferido na desmama, aos oito meses de idade.

Metade vai para terminação em pastagem de boa qualidade – Tanzânia, Mombaça e Piatã – e chega ao abate com 30 meses de idade, pesando cerca de 19 arrobas. Os outros 50%, que se destacaram mais na balança, são separados em dois novos lotes de igual tamanho. A régua para tal divisão continua sendo o desempenho produtivo. Uma parte formada apenas por machos é terminada como novilho precoce, sendo abatida com 24 meses e peso entre 19,5 e 20 arrobas. Do terceiro grupo saem os animais superprecoces, machos e fêmeas, que chegam ao frigorífico aos 14 meses pesando 18 arrobas.

Para Lauriston Bertelli, uma das maiores limitações nutricionais na criação de gado no Brasil é a deficiência de minerais

No confinamento, a base da ração é o milho plantado na própria fazenda. "Temos silagem da planta toda e uma parte apenas do grão úmido, que é colhido ainda meio verde e tem 30% de umidade. Normalmente, esse índice é de 14%", explica Pereira. Ainda entram na formulação a polpa cítrica, comprada de fornecedores no estado de São Paulo; farelo de soja e núcleo mineral. "O ganho médio de peso por dia chega a 1.400 gramas", afirma o criador. A rotação entre as lavouras de grãos e de capim, a cada três anos, proporciona a permanente renovação.

Os esforços são recompensados na venda do gado, feita de forma coletiva por meio da Associação dos Criadores de Novilho Precoce do Mato Grosso do Sul. "Em 2013, foram mais de 150 mil cabeças abatidas", diz o produtor. Segundo ele, a bonificação por atender a todas as exigências das indústrias compradoras pode chegar a R$ 5,00 por arroba, mas deve ser encarada como um reforço à lucratividade. "Não trabalho só para ganhar esse bônus, minha rentabilidade deve estar assegurada pela eficiência da porteira para dentro", declara.

BEZERROS "SEQUESTRADOS"

Antonio Carlos Silveira afirma de maneira categórica que um dos principais entraves na pecuária de corte é o tempo que se perde na recria, com reflexos negativos tanto no prazo para o abate quanto na reprodução. "A situação é agravada com a seca, que reduz a performance dos animais e degrada a pastagem. Na minha cabeça de professor não é admissível que um bovino de corte passe duas secas no pasto", comenta. "Um bezerro desmamado entre abril e junho, com sete meses de idade, vai encarar uma seca, mas na próxima já deve ter ido para o abate ou estar em um confinamento."

Nedson Rodrigues investe na suplementação e de quebra consegue bonificações dos programas de carne de qualidade

Silveira aposta na suplementação para evitar complicações como erosão, necessidade de ampliar a adubação, busca por novas áreas, aluguel de pasto. O especialista defende que toda fazenda deveria ter uma área de escape. "Se você tiver piquetes pequenos de pasto com 50 a 100 m2 por animal, sombra e ração no cocho, já consegue mudar os resultados", sugere. Essa é uma descrição resumida de um manejo que vem sendo aplicado em fazendas do Centro-Oeste e foi batizado de "sequestro" de bezerros.

Quem está à frente do projeto é o engenheiro-agrônomo e consultor pecuário Luiz Guilherme Silveira. "O sequestro é favorecido aqui em Mato Grosso, pois há muita integração de lavoura-pecuária, o que permite reduzir o custo", comenta. Guilherme se mostra bastante animado com os resultados na intervenção sobre o gargalo da recria. "Geralmente os bezerros saem da fase de cria na entrada da seca e são colocados no pior pasto da propriedade. Além do estresse pela separação da mãe, ainda se deparam com volumoso de baixa qualidade. Ficam sem energia e proteína, o que potencializa a deficiência nutricional", explica. "No próximo ciclo, serão novilhos magros e ocuparão o espaço que deveria ser destinado a um novo lote de recria."

No sequestro, os bezerros saem da cria e passam de 90 a 120 dias em uma espécie de confinamento, um piquete reduzido onde recebem entre 80% e 85% de volumoso (silagem de milho, sorgo ou cana). "Se necessário, corrigimos os níveis de energia e proteína para manter o crescimento", lembra Guilherme. O consumo diário é de aproximadamente 5 quilos de matéria seca (12 a 15 quilos de silagem e de 1 a 1,5 quilo de suplemento proteico energético, que pode ser comprado pronto ou misturado na fazenda). Em média, o ganho de peso por animal/dia tem sido de 800 gramas para o gado Nelore e de 900 gramas para o meio-sangue Angus. "Se ganhar 500 gramas, já paga o investimento", garante o consultor.

Na fazenda Haras Galera, localizada em Nova Lacerda (MT), os resultados foram além. O ganho médio diário em um lote de 421 animais meio-sangue Angus foi de 1.236 gramas, em 72 dias de sequestro, com lucro líquido por cabeça em torno de R$ 185,00. O lote entrou no manejo em agosto, com peso médio de 239 quilos, e saiu em outubro, pesando 328 quilos (média). Acompanhe outros dados nas tabelas a seguir.

SUPLEMENTOS MINERAIS

"Se considerarmos o que se vende de fosfato e o tamanho do rebanho brasileiro, chegamos à conclusão de que muito gado não recebe suplementação mineral como deveria." A análise do engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Gado de Corte Sérgio Raposo de Medeiros mostra um controverso panorama. De acordo com o ele, não é difícil encontrar criatórios com deficiência desses nutrientes, ainda que sua importância seja vital em todas as etapas da produção de bovinos.

A opinião do pesquisador é compartilhada pelo zootecnista Lauriston Bertelli Fernandes. "Uma das maiores limitações nutricionais na criação de gado no Brasil é a deficiência de minerais, uma vez que as pastagens geralmente não atendem às exigências dos animais e seus teores variam muito de uma região para outra, pois sofrem influência de muitos fatores como época do ano, clima da região, tipo de solo, espécie e idade da planta, manejo da pastagem, entre outros", detalha Fernandes, que em janeiro último assumiu a presidência da Associação Brasileira das Indústrias de Suplementos Minerais (Asbram), entidade que conta com 64 empresas de 13 estados em seu quadro de sócios.

"É consenso entre técnicos e produtores mais esclarecidos que a suplementação mineral é um dos parâmetros de manejo que mais interfere no desempenho produtivo e reprodutivo dos animais criados a pasto no Brasil", argumenta o dirigente. Segundo ele, quando o criador faz uso de um bom e correto programa de suplementação mineral na propriedade, tem a resposta positiva em fatores como a taxa de ganho de peso, que determina a precocidade reprodutiva – fator diretamente relacionado com a idade à primeira cria. "Não há outra forma de gerar renda em gado de corte que não seja por meio do incremento da precocidade reprodutiva e da idade ao abate", afirma.

Para reforçar a ideia da relevância do sal mineral, que representa entre 4% e 7% do custo total da fazenda, vale ressaltar que deixar de utilizá-lo pode representar 12 vezes mais casos de aborto e perdas de 20% no peso médio à desmama e de 40% ou mais no ganho diário de peso. O presidente da Asbram ainda destaca a análise da relação custo/benefício dos suplementos minerais: "Em pesquisas feitas no Brasil e em países como Austrália, Estados Unidos e África do Sul, para cada R$ 1,00 investido em um bom programa de suplementação mineral de bovinos ocorre um retorno, direta e indiretamente, que varia de R$ 4,70 até R$ 18,00, de acordo com o nível de tecnificação desse manejo nutricional". E continua: "Quanto mais se investe em suplementação mineral diferenciada, baseada em indicação técnica correta – de acordo com a época do ano, categoria animal, qualidade nutricional das pastagens, entre outros itens –, melhor será para o criador e para o Brasil".

Segundo a Asbram, 90% do rebanho não recebe sal mineral

Por isso, o indicador mais claro de alguma deficiência no fornecimento e no aproveitamento dos minerais é o desempenho dos animais. A queda em qualquer índice de produtividade pode ser o alerta para uma revisão no manejo nutricional. Algumas situações são mais complicadas, como no caso de deficiência de fósforo (P), que afeta diretamente a reprodução. O animal passa a consumir o nutriente de seus próprios ossos e os efeitos não aparecem tão rapidamente.

Os minerais têm papel fundamental também na constituição das estruturas esqueléticas e na composição de enzimas ou de seus ativadores, compõem ou regulam processos de codificação genética e atuam sobre o sistema imune. A falta de elementos como fósforo, potássio (K), zinco (Zn) e magnésio (Mg), por exemplo, pode comprometer a ingestão de matéria seca. O correto fornecimento dos nutrientes passa inclusive por avaliações das características regionais. Conforme dados apresentados por Medeiros, a região do Cerrado apresenta maiores deficiências em sódio (Na), zinco, cobre (Cu), fósforo, cálcio (Ca), iodo (I), selênio (Se) e cobalto (Co). Se o solo é pobre nesses elementos, certamente o mesmo acontecerá com as pastagens.

Alexandre Pedroso destaca o fortalecimento do conceito de suplementação de precisão

O sucesso na mineralização envolve tanto o comportamento dos bovinos quanto de seus donos. "Trabalhei em uma indústria de alimentação animal e me lembro de clientes que reclamavam porque o gado estava consumindo muito sal. Curioso é que dificilmente ocorria o mesmo se o consumo caísse", observa Medeiros, pesquisador da Embrapa Gado de Corte. Em relação ao criatório, mesmo quando tudo está correto, pode acontecer de o gado não lamber o sal. "O comportamento dos animais é agregado, fazem tudo junto e seguem um líder. Se por qualquer motivo esse líder deixa o cocho, os outros o acompanharão, mesmo os que não lamberam o sal", esclarece o pesquisador, que dá algumas dicas em relação aos cochos para estimular o consumo do sal mineral no sistema de pastagem.

Uma "mãozinha" tecnológica pode ser de grande ajuda aos pecuaristas para planejarem o correto fornecimento de minerais. A Embrapa Gado de Corte, em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, desenvolveu o $uplementa Certo, o primeiro aplicativo que roda em smartphones e tablets (sistema operacional Android), com a função de auxiliar na definição de produtos e estratégias de suplementação nutricional de bovinos de corte. "No meio rural ainda há muita gente que não usa esses dispositivos, mas a tendência é de que aumente, e tudo o que facilita a vida será aplicado", comenta Medeiros, idealizador do projeto.

Entre as diversas funções do aplicativo, estão a avaliação da relação custo/benefício da suplementação na seca, a comparação entre produtos e sistemas de suplementação (com sal proteinado ou semiconfinamento) e a sugestão do número mínimo de cochos a serem disponibilizados. O $uplementa Certo é gratuito e não depende da conexão com a Internet para funcionar.

Como em qualquer setor da produção de bovinos de corte, na suplementação mineral a segurança em relação à eficiência de produtos e serviços também é determinante. A Asbram garante que o arsenal de tecnologia de seus associados passa por um rigoroso controle de qualidade e esse é um dos fatores mais relevantes para o mercado. "Sugerimos aos pecuaristas que adquiram tecnologia de indústrias idôneas, pois essas empresas passam por inspeção de maneira correta. Tem muita gente adquirindo suplementos fabricados com matérias-primas sem garantias e fora dos padrões de qualidade exigidos pelo Ministério da Agricultura", alerta Fernandes.

Guilherme e Antonio Carlos Silveira criaram o sequestro de bezerros

A conscientização é um dos pontos favoráveis que levam o dirigente a apostar em um avanço do setor para este ano, seguindo evolução que era esperada para o fechamento de 2013. Em relação ao ano anterior, que foi mais difícil, a expectativa de crescimento era de aproximadamente 3,5%. "Temos tudo para alcançar desempenho superior em 2014, pois ainda que os cenários econômicos não sejam os melhores, não devemos ter uma seca tão grande, tampouco um inverno chuvoso, como aconteceu no ano passado", avalia o dirigente.

Ariovaldo Zani critica a cobrança de PIS-Cofins para bovinos

A necessidade de abastecer a mesa dos consumidores, dentro e fora do País, fortalece a expectativa de Fernandes. "A classe média continua crescente no Brasil, o que deverá garantir uma demanda cada vez maior por proteína animal. O mercado emergente, apesar de não contabilizar índices altos de PIB, continuará avançando e, por consequência, demandando maior consumo de proteína animal e vegetal. Com certeza, a carne será o item mais comprado por chineses e russos, por exemplo", acrescenta.

Suplementação ajuda a garantir níveis de minerais, energia e proteína

O trabalho à frente da Asbram será marcado por grandes desafios. Alguns já perduram por muito tempo, como a concorrência com o setor de fertilizantes quanto ao fornecimento de matérias-primas. "A ureia agrícola, o fosfato monoamônico (MAP) e o superfosfato triplo (TSP) não pagam PIS e Cofins. Ao contrário da ureia pecuária e do fosfato bicálcico. Esse tratamento erroneamente diferenciado induz o pecuarista a comprar um produto mais barato, porém inadequado ao uso animal", relata o presidente da Asbram. Extinguir, ou ao menos reduzir o impacto da carga tributária, é outra importante meta. "Continuamos lutando e esperamos que o governo atenda nossa justa reivindicação de isenção do PIS/Cofins em nossos suplementos minerais, suas matérias-primas e seus ingredientes", afirma Fernandes.


O PESO DOS TRIBUTOS

"O governo deveria realizar uma reforma tributária em relação ao PIS/Cofins, pois as medidas a 'conta-gotas' não resolvem." A colocação do vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Alimentação Animal (Sindirações), Ariovaldo Zani, reflete o posicionamento de todo o setor, que é taxado em 9,25% referentes aos Programas de Integração Social e à Contribuição para Financiamento da Seguridade Social, a dobradinha PIS/Cofins. Segundo Zani, desde 2005 o segmento tenta, sem sucesso, reverter a situação de forma satisfatória.