Entrevista do Mês

 

As metas para o zebu

A Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ) estreia o ano com nova diretoria. O presidente eleito, Luiz Cláudio Paranhos, fala sobre os planos da entidade para as raças zebuínas e alguns temas que geraram polêmica no ano passado.

Adilson Rodrigues
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Revista AG - Como você avalia o mercado pecuário em 2013? Poderia ser melhor?

Cláudio Paranhos – Sempre pode ser melhor. Porém, estamos fechando 2013 com grandes recordes. Na pecuária de corte, estamos produzindo 9,5 milhões de toneladas de carne e exportando mais de US$ 6 bilhões, destinando nosso produto a 150 países em todos os continentes. Além disso, o ano passado fechou com preços firmes da arroba do boi gordo, com boas perspectivas para 2014 e indicando uma possível mudança de ciclo.

Revista AG - Quais suas principais propostas para as raças zebuínas?

Cláudio Paranhos – Nosso plano de trabalho para os próximos três anos volta-se para a intensificação das ações direcionadas ao aumento da produtividade e competitividade da pecuária comercial. Não é nenhuma novidade, mas pretendemos fortalecer esta atuação na base da pecuária, em conjunto com outras associações e entidades ligadas ao setor. Continuamos defendendo a importância e as vantagens do zebu na cadeia produtiva da carne e do leite; ampliando nossa atuação ao longo de toda a cadeia produtiva, principalmente em relação a pastagens, crédito, fomento, extensão rural e comunicação com o mercado consumidor, sempre com muito diálogo.

Revista AG - Em 2013, vimos as nacionais do Brahman e do Nelore juntas, de forma inédita, entretanto, não refletiu muito na movimentação do parque. Acredita que algum fator esteja influenciando o mercado do zebu como um todo?

Cláudio Paranhos – A pecuária é uma atividade extremamente dinâmica, como movimentos que vão e voltam. As exposições são ações promocionais e as associações do Nelore e do Brahman viram nesta ação conjunta uma forma mais eficiente de promover as duas raças ao mesmo tempo. Entendem, de forma sábia, que são raças complementares e não concorrentes. A movimentação do parque pode ser avaliada pelos leilões, que em comparação com o ano anterior tiveram significativo crescimento.

Revista AG - Falando em Nelore, as vendas de sêmen da raça caíram 20% no último ano. Isso pode ser um risco para o melhoramento genético, inclusive no ponto de vista da reposição de fêmeas, que, em sua maioria, são azebuadas?

Cláudio Paranhos – Precisamos acompanhar os próximos anos para verificar se essa diminuição de venda de sêmen da raça Nelore (ainda não confirmada) foi pontual ou se é uma tendência, o que não acredito. O que realmente houve foi aumento de vendas de sêmen de raças britânicas, visando ao cruzamento industrial. O cruzamento industrial é uma excelente ferramenta para quem o utiliza com muito critério. E é bem melhor para quem compra o bezerro na desmama do que para quem produz este bezerro. Isso pouca gente fala. Na atividade de cria, o cruzamento reduz de forma significativa a pressão de seleção para reposição de matrizes, ou seja, quem utiliza essa ferramenta tem de ter a consciência de que terá um número bem menor de novilhas para reposição do seu plantel.

Revista AG - Mercado externo está nos objetivos da ABCZ?

Cláudio Paranhos – Estamos desenvolvendo uma ação bastante interessante com a ASOCEBU, associação boliviana dos criadores de zebu. Esta iniciativa visa dar todo o suporte on line necessário para o serviço de registro genealógico daquele país. Além deste serviço, também estamos trabalhando a possibilidade de fazer a avaliação genética dos animais boalivianos. São projetos em fase de planejamento, mas que deverão funcionar em 2014. O mercado externo sempre teve grande atenção da ABCZ. Exemplo disso é o trabalho que desenvolvemos com o Brazilian Cattle. Com ele, abrimos nos últimos anos importantes mercados nas Américas e na África, como Panamá, Costa Rica, Venezuela, Paraguai, Bolívia, Angola e África do Sul.

Revista AG - A ABCZ criou um excelente programa chamado Pró- Genética. Pretende expandi-lo nacionalmente?

Cláudio Paranhos – Estamos trabalhando na implantação do programa em diversos estados, com destaque para Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Goiás, Pará, Mato Grosso e Rio Grande do Norte, e no Distrito Federal. O seu objetivo é extremamente nobre e absolutamente engajado na estratégia de trabalho da ABCZ: levar genética de qualidade para os pequenos projetos pecuários. Estamos prestes a assinar protocolo de intenções com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e a Associação Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural (Asbraer).

Revista AG - Um equilíbrio entre boa seleção de pista e a seleção de pasto tem sido uma cobrança evidente entre muitos criadores. Quais as metas em relação a este quesito?

Cláudio Paranhos – A ABCZ trabalha em prol da cadeia produtiva da carne e do leite. Pista e produção a pasto são sistemas de criação e de seleção independentes e, muitas vezes, complementares. O ideal é a valorização da genética tanto no aspecto da promoção, que é uma marca histórica da atividade, quanto do trabalho a campo. Não se pode esquecer nunca que o objetivo final é produzir mais carne e mais leite. E a seleção de pista tem sua importância histórica. Basta analisar e verificar quantos reprodutores foram apresentados ao mercado nas exposições ao longo dos anos e depois lideraram as vendas de sêmen.

Revista AG - Em 2013, foi dado o pontapé inicial de um projeto que procura criar um modelo animal para a raça Nelore. Essa iniciativa vai avançar na sua gestão?

Cláudio Paranhos – A busca por modelos "ideais" como referência na criação é uma busca contínua e vem de longa data. Continuaremos, sim, a discutir quais os melhores modelos para cada raça zebuína. No entanto, precisamos reconhecer que temos no nosso país diferentes situações de criação, onde nem sempre o melhor modelo animal de uma região será também ideal para outra. Por exemplo, o sistema de criação intensivo de uma região como o norte do Paraná requer um tipo de animal completamente diferente dos animais criados em sistemas produtivos do semiárido nordestino. E esta riqueza de variabilidade genética só as raças zebuínas possuem.

Revista AG - A ABCZ estudava uma normativa quanto ao uso de receptoras zebuínas nas transferências e FIVs, mas voltou atrás na obrigatoriedade. Por quê?

Cláudio Paranhos – Obrigado pela oportunidade de esclarecer esse assunto. Com relação à resolução, é válido lembrar que foi um processo longo e que sofreu modificações ao longo do tempo. A primeira resolução tornava obrigatório o uso de receptoras somente zebuínas a partir de 2014, decisão esta que ocorreu em 2009. A forma atual resultou de outras longas discussões sobre a obrigatoriedade anterior, que foi considerada muito restritiva. Não foi uma discussão fácil porque interesses legítimos de toda natureza estavam em jogo. O fato é que, ao final, na reunião de junho de 2013, o Conselho Deliberativo Técnico das Raças Zebuínas entendeu que a solução aprovada era a que mais se aproximava em contemplar todos os interesses, qual seja a de tornar opcional o uso de receptoras zebuínas ou não zebuínas, entretanto, mantendo uma linha de coerência, que é a de valorizar as nossas raças.

Revista AG – Quais os aspectos a serem considerados nesta decisão e que merecem ser mencionados?

Cláudio Paranhos - O primeiro é o objetivo fundamental de voltar o foco da seleção para o complexo maternal. Mesmo que as receptoras em si não venham a ter sua genética controlada e multiplicada, elas terão de vir de sistemas que priorizem essas características, simplesmente porque o mercado irá valorizá-las. É um retorno do mercado comercial para o segmento seleção. O outro aspecto é relativo às avaliações genéticas. Hoje, por falta de informação, são desprezados milhares de dados de doadoras que têm seus filhos criados em receptoras não identificadas individualmente. É tecnicamente impossível estimar os efeitos do ambiente maternal nestes casos e, justamente, essa restrição recai em uma parcela de fêmeas do gado registrado, que mais necessitaria dessas informações. Com a identificação das receptoras (zebuínas ou não zebuínas), isso passará a ser possível.

Revista AG – Então, a proposta continua a quem interessar. Quais serão os incentivos dados a esses criadores?

Cláudio Paranhos – Os criadores que optarem pela utilização de receptoras zebuínas terão incentivos principalmente no que diz respeito ao registro dessas matrizes. No caso de utilizar animais PO ou LA, já registrados ou somente controlados, o criador não paga nada a mais para que estas matrizes possam servir como receptoras. No caso de registrar novas matrizes na categoria LA ou na categoria Receptora Zebuína (sem raça definida), o criador terá um grande desconto promocional nesse novo registro. Os recursos provenientes desses novos registros serão destinados à promoção das qualidades competitivas das matrizes zebuínas.

Revista AG - Os bons tratos aos animais de produção são um tema em evidência. A ABCZ pretende criar fóruns ou projetos voltados ao manejo, embarque/desembarque e abate dos bovinos de corte?

Cláudio Paranhos – O bem-estar animal está na pauta de prioridades da pecuária moderna e a ABCZ, como entidade representativa da pecuária zebuína, deve estar atenta, criando eventos e fomentando iniciativas nesse sentido. Na Expozebu Dinâmica teremos uma pequena planta de confinamento que já atentará para o bem-estar animal, assim como nossas instalações de currais de manejo também estão sendo adequadas com esta finalidade.

Revista AG - Nesta época marcada por programas de qualidade de carne, a busca pela maciez também é uma prioridade nas raças zebuínas?

Cláudio Paranhos – Sem sombras de dúvidas. Uma de nossas metas para a gestão é levar ao mercado consumidor cada vez mais a informação de que as raças zebuínas já produzem uma carne de qualidade superior e estamos engajados no trabalho genético para elevar ainda mais este padrão de qualidade. Para isso, estamos investindo no projeto de um confinamento no qual se trabalhará apenas com animais oriundos das raças zebuínas e do cruzamento entre estas raças zebuínas. Sairão desse confinamento, que funcionará o ano todo, importantes informações sobre manejo (nutricional e sanitário), engorda (conversão alimentar) e abate (classificação e tipificação de carcaça) das diferentes raças e seus cruzamentos. Estamos finalizando parcerias com universidades antes de lançar o projeto.

Revista AG – Como os erros na paternidade de alguns touros importantes podem impactar o Serviço de Registro Genealógico futuramente?

Cláudio Paranhos – Já impactou e foi de forma altamente positiva. Descobrimos que temos um sistema muito eficiente. Associações similares de controle genealógico de raças bovinas pelo no mundo chegam a ter erros de paternidade acima dos 20%, enquanto no Brasil o estudo da Unesp mostrou que temos menos de 5% de erros. Algumas ações foram propostas pelo CDT (Conselho Deliberativo Técnico da ABCZ) ao MAPA, visando minimizar possíveis futuros erros, como a exigência de se confirmar paternidade dos novos touros doadores de sêmen antes da liberação da venda. Solicitamos também ao MAPA que revise os critérios de exigências para que um laboratório possa emitir laudos de DNAs, assim como fiscalização e vistorias periódicas. Paralelamente, estamos estudando formas de introduzir na avaliação genética informações da genômica, o que trará mais segurança aos dados dos animais.

Revista AG - Quais suas expectativas para a pecuária bovina nos próximos três anos?

Cláudio Paranhos – A pecuária brasileira é um gigante. Cerca de 80% das propriedades rurais no Brasil têm gado. Os números de produção aumentam ano após ano. É preciso continuar trabalhando em prol do aumento da produtividade para manter a atividade no rumo do crescimento. Não podemos esquecer, também, a necessidade global de alimentos. E o Brasil é um dos maiores players nesse mercado. Por este cenário, sou um otimista e acredito muito na pecuária nacional.