Caprinovinocultura

 

Embrapa mapeia enfermidades

Estudo zoosanitário expõe perfil das doenças da caprinocultura e da ovinocultura tropical

Francisco Selmo Fernandes Alves*

Em 2009, a Embrapa Caprinos e Ovinos iniciou um amplo levantamento das principais doenças no território brasileiro. O trabalho pioneiro tinha como objetivo identificar e diagnosticar as principais enfermidades nos rebanhos de estados de maior representatividade e desenvolvimento.

Começavam, então, os trabalhos do projeto "Estudo Zoossanitário da Caprinocultura e da Ovinocultura Tropical", desenvolvido por Embrapa, universidades e instituições parceiras. As enfermidades sempre se constituíram em fatores limitantes para essas cadeias produtivas, por suas implicações na produção de carne e pele, leite e derivados; na comercialização dos animais e seus produtos, além da questão de doenças que afetam a saúde pública.

Além disso, os estudos relativos à avaliação de riscos e impacto dessas doenças costumeiramente esbarravam na carência de dados registrados e no desconhecimento da real situação zoosanitária dos rebanhos. A meta era, portanto, contribuir para a obtenção de informações dos sistemas de produção de pequenos ruminantes, de forma a orientar as políticas públicas na área de defesa sanitária.

O levantamento foi realizado em sete estados brasileiros: Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe, Bahia e Mato Grosso. Contemplamos, por meio de estudo sorológico seis doenças de notificação obrigatória descritas pela Organização Internacional de Epizootias (OIE): Clamidofilose, Epididimite Ovina, Leptospirose, Artrite-Encefalite Caprina, Maedi-Visna e Língua Azul. Outras enfermidades, apesar de não serem listadas pela OIE, são responsáveis por grande impacto econômico na produção de pequenos ruminantes no Brasil e, por isso, também foram alvos, como Toxoplasmose, Neosporose e Linfadenite Caseosa.

Como resultado desta primeira etapa de trabalho, chegou-se a conclusões interessantes de ser analisadas pelos diversos atores das cadeias produtivas. Uma delas é a significativa ocorrência de Artrite Encefalite Caprina (CAE) na Região Metropolitana de Fortaleza e no Norte Cearense. As duas mesorregiões atuam como importantes bacias leiteiras do estado do Ceará. Assim, elevada prevalência de CAE pode ser explicada pela grande concentração de animais especializados para a produção leiteira. Tais animais são, em sua grande maioria, descendentes de produtos importados de países onde a prevalência da doença é bastante elevada. Por esse motivo, a ocorrência da doença em rebanhos de raças puras e especializadas na produção de leite é geralmente maior do que de raças nativas.

Outro fator que explica a alta prevalência de CAE nessas mesorregiões é a predominância do sistema intensivo de criação, onde o contato íntimo entre o gado favorece a transmissão horizontal da enfermidade. Além disso, nesses sistemas, é comum a adoção da prática de aleitamento artificial das crias.

A Língua Azul foi outro mal identificado em ovinos nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe, com altos índices de soroprevalência nos dois primeiros. As características climáticas (temperatura, umidade, pluviosidade e velocidade do vento) na região que abrange os dois estados podem ser fatores responsáveis pela alta prevalência, ao contribuir para o aumento da densidade populacional e atividade dos Culicoides (mosquitos transmissores da doença). A alta prevalência de Língua Azul identificada nos levantamentos sorológicos com ausência de sintomatologia clínica da doença é um indicativo de que ela pode estar se disseminando no Brasil de forma silenciosa.

A presença de animais com a forma não aparente da patologia, diferentes manifestações clínicas e períodos de incubação extremamente variáveis dificultam o controle da enfermidade e fazem com que ela consiga se estabelecer antes mesmo de ser notificada. Vale ainda ressaltar que a alteração da patogenicidade dos subtipos virais da Língua Azul atualmente presentes no Brasil, através de mutação, pode trazer perdas econômicas para a produção de ruminantes.

O projeto também procurou observar a relação entre as características dos sistemas de produção e a determinação dos fatores de risco. Nas quatro mesorregiões cearenses estudadas, a verminose é descrita como a principal enfermidade que acomete os caprinos e ovinos. Observou-se que nenhuma prática de manejo atualmente recomendada para o controle da verminose, com exceção da utilização de anti-helmínticos, vem sendo realizada pelos produtores. Mais relevante ainda, percebe-se que, de modo geral, a vermifugação de caprinos e ovinos é realizada de forma totalmente indiscriminada, favorecendo a ocorrência de resistência.

Diversos motivos podem estar envolvidos nesta problemática, por exemplo, o desconhecimento da importância das práticas de manejo sanitário por parte dos produtores, a baixa disponibilidade de mão de obra (mesmo que familiar) ou, até mesmo, o desinteresse dos produtores rurais, seja por questões culturais ou pelo "baixo" retorno econômico da atividade observado em determinados sistemas de criação.

Ao longo do desenvolvimento do projeto "Estudo Zoossanitário da Caprinocultura e Ovinocultura Tropical", foi constatada uma baixa capacidade laboratorial existente no Brasil para o diagnóstico de enfermidades de pequenos ruminantes. As instituições de ensino e/ou pesquisa, geralmente envolvidas na execução desse tipo de exame, na maioria das vezes, não têm condições de executar análises em grande escala. Por outro lado, as poucas empresas privadas ou outras instituições prestadoras desse tipo de serviço cobram um valor demasiadamente elevado por análise realizada. Assim, a partir deste cenário, entende-se que, durante a estruturação do Programa Nacional de Sanidade de Caprinos e Ovinos (PNSCO), este é um importante aspecto a ser considerado, além de um plano operacional a curto, médio e longo prazo.

Em dezembro de 2011, uma nota técnica direcionada à Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Caprinos e Ovinos do MAPA foi elaborada com o intuito de informar o Departamento de Saúde Animal (DSA) sobre os resultados recentemente obtidos por este projeto e por outros estudos epidemiológicos envolvendo as Lentiviroses de Pequenos Ruminantes e Brucelose Ovina no Brasil. O objetivo principal desta nota técnica foi informar ao MAPA sobre a situação sanitária do País quanto à ocorrência das doenças em questão para que medidas de ação junto ao PNSCO possam ser implementadas. Outra nota técnica foi elaborada com o objetivo de alertar o DSA sobre o possível risco de existência da Língua Azul em território nacional.

A determinação da soroprevalência das principais doenças que acometem caprinos e ovinos no Brasil é o primeiro passo para a prevenção e o controle. Com o projeto, a Embrapa detém hoje um banco de soros de caprinos e ovinos de 12 mil amostras e a parceria com as universidades tem possibilitado a elaboração de trabalhos científicos (incluindo teses e dissertações) sobre o assunto. A avaliação dos fatores de risco e do impacto econômico das enfermidades ainda está em andamento, mas servirá de suporte para a estruturação dos programas de controle e definição de estratégias que visem à mitigação das enfermidades.

E o mapeamento continuará nos próximos anos, com um novo projeto, iniciado em 2013, que abrangerá os estados do Pará e Rondônia (Norte), Pernambuco, Maranhão e Alagoas (Nordeste), Mato Grosso e Goiás (Centro-Oeste), São Paulo (Sudeste) e Paraná e Rio Grande do Sul (Sul). Dez enfermidades serão diagnosticadas, a partir do banco de soros formado em cada estado. Além do levantamento epidemiológico, esta nova proposta visa também o apoio tecnológico e educativo em sanidade de caprinos e ovinos, com ações diretas de transferência de tecnologia e avaliação da capacidade laboratorial brasileira. Assim, espera-se um cenário ainda mais completo e que oriente os gestores públicos sobre as corretas medidas de prevenção, controle e redução das enfermidades.

E o mapeamento continuará nos próximos anos, com um novo projeto, iniciado em 2013, que abrangerá os estados do Pará e Rondônia (Norte), Pernambuco, Maranhão e Alagoas (Nordeste), Mato Grosso e Goiás (Centro-Oeste), São Paulo (Sudeste) e Paraná e Rio Grande do Sul (Sul). Dez enfermidades serão diagnosticadas, a partir do banco de soros formado em cada estado. Além do levantamento epidemiológico, esta nova proposta visa também o apoio tecnológico e educativo em sanidade de caprinos e ovinos, com ações diretas de transferência de tecnologia e avaliação da capacidade laboratorial brasileira. Assim, espera-se um cenário ainda mais completo e que oriente os gestores públicos sobre as corretas medidas de prevenção, controle e redução das enfermidades.

*Francisco Alves é pesquisador da área de Sanidade Animal e chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Caprinos e Ovinos